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"Estávamos lá juntos": alunos buscam união para voltar à escola após ataque

Verônica Zanetta Avelino Passos, 14, estudante da escola Raul Brasil, e seus pais - Arquivo pessoal
Verônica Zanetta Avelino Passos, 14, estudante da escola Raul Brasil, e seus pais Imagem: Arquivo pessoal

Nathan Lopes

Do UOL, em Suzano (SP)

21/03/2019 04h00

A tragédia vivida por crianças e adolescentes na escola estadual Raul Brasil, em Suzano (SP), na semana passada ainda está presente na memória delas. Mas estudantes da unidade educacional ouvidos pelo UOL acreditam que ficar juntos agora e permanecer na escola será fundamental para superar o massacre que terminou com dez mortes.

"Mesmo que a gente fosse para outra escola, as pessoas iam ficar perguntando, a gente ia ter que explicar, ia ficar lembrando", conta Verônica Zanetta Avelino Passos, 14, estudante do primeiro ano do ensino médio. "Aqui a gente conhece outras pessoas que passaram pela mesma coisa que a gente."

Após o massacre, os colegas de classe de Verônica criaram um grupo em uma rede de mensagens no qual falaram sobre mudar de escola em razão da tragédia vivida lá.

Sei que é difícil voltar para a escola, mas a gente está junto há tanto tempo, a gente passou por isso junto, a gente estava lá junto, a gente está junto para conseguir superar isso
Verônica Zanetta Avelino Passos, estudante

"Somos unidos"

O culto ecumênico de ontem, em que cerca de 500 pessoas da comunidade escolar deram um abraço na Raul Brasil, é uma prova de quanto todos são unidos, avalia Lucas Garcia, 16, estudante do segundo ano. "A nossa escola era bastante unida. O que teve hoje mostrou bastante que somos unidos."

Mas ele sabe que os traumas foram fortes demais para alguns. Ao menos uma colega dele não pretende mais voltar a estudar na escola e já se transferiu para um colégio de Poá, cidade vizinha a Suzano. "Foi um sofrimento muito grande que ela teve", comentou.

Lucas Garcia, 16, estudante do segundo ano da escola Raul Brasil, em Suzano (SP) - Nathan Lopes/UOL - Nathan Lopes/UOL
Uma amiga de Lucas, que perdeu dois colegas de sala no massacre, já se transferiu para escola de Poá
Imagem: Nathan Lopes/UOL
A secretária de Educação diz não ter dados sobre alunos que já pediram transferência após o massacre.

Lucas vai continuar estudando na escola, mesmo tendo perdido dois colegas de classe: Douglas Murilo Celestino, 16, e Samuel Melquíades Silva de Oliveira, 16.

Douglas sentava atrás de Lucas na sala de aula. "Eu estava criando uma grande amizade com ele, porque eu era novo na sala. Acabei ficando bem amigo dele", lembra.

Mas não há como esquecer os momentos vividos naquele dia 13 de março. Lucas buscou proteção em um banheiro da escola. "Aqueles barulhos ainda ficam na minha cabeça", recorda. "Mas, com o tempo, vai passar", conta, citando que tem buscado o apoio psicológico disponibilizado na escola.

Renascimento

A professora de espanhol Claudete de Oliveira também viveu a tragédia naquele dia e passou a considerar a ocasião como sua nova data de nascimento. Ela dava aula quando se ouviu o primeiro tiro.

"Saí no corredor para verificar --já estava uma gritaria--, e eu escutei [tiro]. Aí, eu voltei [para a sala] e pedi para que todos se deitassem, fechei as janelas, pedi para que eles ficassem quietos", conta ela.

A professora pegou duas carteiras para colocar contra a porta da sala. Um aluno, então, quis ajudá-la. Sentaram-se no chão e pressionaram as carteiras. "Começaram a bater pedindo socorro", conta. Ela abriu a porta e alunos entraram na sala. "Nisso que eu fechei [a porta], falei: agora ninguém entra, ninguém sai mais". Entre as alunas que entraram, uma estava baleada e relatou falta de ar.

Pouco depois, mais batidas na porta. "Escutei dois golpes na porta, bem fortes", disse, lembrando que, na sequência, pouco se ouviu. "Teve um silêncio mortal". Ele foi quebrado por novas batidas na porta. Uma voz feminina dizia que era a polícia ali. "E eu não sabia o que estava se passando, fiquei com receio de abrir. Falei: 'não vou abrir essa porta'. Eles insistiram novamente. Eu abri uma fresta. Aí meu aluno disse: 'não, professora, são policiais'".

Os policiais ajudaram a professora e os alunos a deixarem a sala, mas alertaram para que não olhassem no chão. Os corpos dos dois assassinos estavam perto da porta da sala. Guilherme Taucci Monteiro, 17, matou Luiz Henrique de Castro, 25, e em seguida se suicidou, segundo a polícia.

Durante todo o dia, eu estava bem. Porque a gente estava anestesiada. No final do dia, quando fui para minha casa, desabei
Claudete de Oliveira, professora

Alunos e funcionários voltam à escola Raul Brasil em Suzano

UOL Notícias

Hoje, Claudete diz estar recuperada para reencontrar os alunos, a quem recomenda voltar à escola. "Porque, o que passou, passou. Agora, é um recomeço. Os professores já estão fortalecidos e, agora, a gente tem que se unir e continuar dali de onde a gente parou."

Ainda não há previsão de quando as aulas serão retomadas. A expectativa é que a decisão saía nesta quinta-feira (21).

Claudete sabe que a volta de todos não será da forma como era antes do massacre, mas como uma acolhida. "[Seria um retorno] com atividades lúdicas, para estar acolhendo, abraçando [os alunos], e mostrando que aqui tem muito amor, que nós somos os pilares, que a gente está fortalecido para eles poderem retornar."

Mãe de Verônica, a sacerdotisa de umbanda Luciana da Costa Zanetta também espera que os pais façam parte desse retorno. "Que possa dar força para que outros pais continuem --até mesmo aqueles que perderam seus filhos--, e que aí gere uma luta em prol da paz e da cultura de união e amor ao próximo no Brasil."

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