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Cotidiano

Moradores denunciam à Defensoria violações e tiros de helicóptero na Maré

Igor Mello

Do UOL, no Rio

07/05/2019 18h48

Moradores do Complexo da Maré, no Rio, disseram às Defensorias Públicas do Estado e da União que algumas pessoas já haviam se rendido quando foram baleadas durante operação policial ontem. A ação deixou oito mortos.

Representantes dos órgãos que visitaram a comunidade hoje ouviram também denúncias de que houve rajadas de tiros partindo de um helicóptero. Marcas no chão corroboram os relatos.

De acordo com Pedro Strozenberg, ouvidor-geral da Defensoria Pública do estado, os relatos dos moradores e uma análise preliminar dos locais onde ocorreram as mortes apontam que não havia necessidade de uso de força letal.

"As mortes aconteceram dentro das casas ou na porta das casas, numa situação onde havia espaço de contenção e circulação restrita dessas pessoas. Os relatos apontam que a possibilidade de rendição (dos suspeitos) era muito grande. As vítimas estariam acuadas e algumas delas rendidas", aponta.

Segundo Paloma Lamego, subdefensora-geral do estado, relatos de diversos moradores apontam que um helicóptero foi usado como plataforma de tiros.

Rajadas de helicópteros estão proibidas

A Secretaria de Segurança do Rio, extinta neste ano pelo governador Wilson Witzel, publicou no ano passado uma resolução proibindo o disparo de rajadas de helicópteros.

Mas Bruna Silva, mãe do estudante Marcos Vinicius Silva, morto a caminho da escola durante uma operação no ano passado, diz que viu o helicóptero disparando rajadas ontem.

"Foi questão de segundos. Subi na laje da minha casa e vi o helicóptero parado no ar, atirando. Até de rapel eles desceram em uma casa", afirma.

Participaram da visita representantes da Defensoria Pública do estado e da DPU (Defensoria Pública da União) e da ONG Redes da Maré. Os defensores estiveram no local onde oito pessoas foram mortas durante a operação da Core (Coordenadoria de Recursos Especiais) ontem.

Liminar violada

Para os defensores, há elementos para afirmar que uma liminar de 2017, com regras para a realização de operações em comunidades, foi desrespeitada.

A decisão prevê, por exemplo, que ambulâncias deveriam ficar de prontidão sempre que as polícias realizarem incursões.

Entre as sanções previstas, está a aplicação de multas ao governo por descumprimento. A Defensoria Pública vai acionar a Justiça para que a punição seja adotada.

O ouvidor-geral também demonstrou preocupação com a independência das investigações realizadas pela Polícia Civil no caso.

"Essa é uma velha questão, como a gente consegue ter autonomia da perícia. É complicado polícia investigando polícia, e particularmente a Polícia Civil investigando a Polícia Civil", avalia.

Governo fala em 'ação criteriosa'

Em nota, a Secretaria de Estado de Polícia Civil diz que "a ação foi criteriosa e seguiu todos os protocolos usados em incursões em áreas de risco no Rio de Janeiro, inclusive quanto ao uso de aeronaves".

"A Delegacia de Homicídios da Capital está conduzindo as investigações. Todos os procedimentos investigativos estão sendo tomados", afirma a pasta.

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