Topo

Operação da polícia no Complexo da Maré deixa oito mortos no Rio

Gabriel Sabóia, Igor Mello e Marcela Lemos

Do UOL e colaboração para o UOL, no Rio

2019-05-06T14:57:42

2019-05-06T19:50:13

06/05/2019 14h57Atualizada em 06/05/2019 19h50

Resumo da notícia

  • Objetivo era prender o chefe do tráfico do Complexo do Salgueiro, que não foi capturado
  • Moradores da Maré relataram que tiros foram disparados de helicóptero policial
  • Polícia Civil diz que sete fuzis foram apreendidos, além de pistolas e granadas

Oito pessoas morreram durante uma operação da Polícia Civil do Rio no Complexo da Maré, na zona norte da cidade, na manhã de hoje. Não há informações sobre a circunstância das mortes nem sobre a identidade dos mortos. Segundo a polícia, a ação teve como objetivo tentar prender o traficante Thomaz Jhayson Vieira Gomes, o 3N, ligado à facção criminosa TCP (Terceiro Comando Puro) e apontado como chefe do tráfico no Complexo do Salgueiro, em São Gonçalo. No entanto, ele não foi capturado.

A Core (Coordenadoria de Recursos Especiais), que comandou a operação, informou em nota que três pessoas foram presas, entre elas um segurança pessoal de 3N e a mulher dele, e sete fuzis, apreendidos, além de pistolas e granadas.

O órgão disse ainda que "houve resistência dos criminosos e oito suspeitos de fazerem parte do tráfico foram baleados e morreram no confronto", e que "todos os protocolos para a realização da operação foram tomados", com investigações sendo conduzidas pela Delegacia de Homicídios da Capital.

A ação durante horário escolar acontece após o estado fluminense registrar o trimestre com mais mortes pela polícia desde 1998. O governo fluminense ainda não se manifestou sobre a operação.

Um vídeo divulgado em redes sociais (veja acima) mostra um helicóptero que seria da polícia sobrevoando as comunidades --é possível ouvir disparos de armas de fogo. Relatos de moradores dão conta de que tiros partiram da aeronave --a polícia e o governo do Rio também não comentaram a informação.

De acordo com o aplicativo "Onde Tem Tiroteio", que monitora casos de violência no Rio, tiros foram ouvidos na Vila do João e no Conjunto Esperança no complexo de favelas. A página do "Onde Tem Tiroteio" no Facebook recomendou aos seguidores que evitem utilizar as linhas Amarela e Vermelha, que passam perto da Maré.

Nas redes sociais, moradores comentaram o uso de helicóptero da Polícia Civil na operação. "Tô vendo helicóptero passar aqui por cima da minha casa em Benfica [bairro da zona norte]", escreveu uma moradora que se identifica como Cris Raesky.

Um morador da comunidade do Caju, também zona norte, disse que conseguiu ouvir os disparos na Maré. "Estou no Caju e ouvi perfeitamente... Parecia uma guerra."

Na página Maré Vive, no Facebook, um morador compartilhou uma foto de crianças e funcionários abrigados no corredor de uma escola durante o tiroteio.

Sob Witzel, recorde de mortes pela polícia

De acordo com dados do ISP (Instituto de Segurança Pública), as mortes em confrontos com policiais no estado do Rio chegaram a um nível recorde no primeiro trimestre deste ano.

Ao todo, 434 pessoas foram mortas em ações das forças de segurança, o maior número desde o início da série histórica do ISP, iniciada em 1998. O número representa um aumento de 41,8% em relação ao mesmo período de 2018, quando foram registradas 306 mortes em confronto.

Procurada pela reportagem, a Polícia Militar informou que as operações são "pautadas por planejamento prévio e executadas dentro da lei" e que, nas ações realizadas em áreas conflagradas, a prioridade é "a prisão de criminosos e apreensão de drogas e armas".

Essa é a segunda vez que ações policiais têm números historicamente altos de mortos durante o governo Witzel. A recordista é a ação da Polícia Militar nas comunidades do Fallet e Fogueteiro, na região central do Rio, em fevereiro, que teve um saldo de 15 mortes --maior número de vítimas das forças de segurança no estado desde 2007, quando uma megaoperação no Complexo do Alemão terminou com 19 vítimas em diversos pontos da região.

Witzel apoia uso de helicópteros em ações policiais

A ação de hoje acontece dois dias depois de o governador Wilson Witzel (PSC) ter participado de uma operação policial em Angra dos Reis, na Costa Verde do estado, a bordo de um helicóptero.

No vídeo, Witzel diz que está "sobrevoando o município com o pessoal da Core para combater a bandidagem". Na imagem do voo, um fuzil aparece apontado para casas de uma comunidade pobre.

Em seguida, Witzel escreveu que "trazer de volta a paz para os moradores do Rio é meu principal desejo. Por isso trabalhamos incansavelmente em busca de segurança para todos".

Witzel é defensor da "lei do abate" desde a corrida eleitoral, quando se mostrou favorável à morte de criminosos que estivessem portando fuzis em comunidades do Rio.

Em junho passado, o debate sobre o uso de helicópteros como plataforma de disparos durante operações policiais ganhou força. Na ocasião, o estudante Marcos Vinícius, 14, morreu depois de ter sido atingido por um disparo de fuzil na Maré. Na ocasião, outras seis pessoas morreram durante a ação policial. Moradores da região relataram que os policiais fizeram tiros de dentro das aeronaves.

Mais Segurança pública