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Pai de vítima consola mãe de sequestrador em delegacia: "Dor é dos 2 lados"

Lola Ferreira

Colaboração para o UOL, no Rio

20/08/2019 16h39

Todos os dias, Paulo César Leal, de 54 anos, leva sua filha, a historiadora Raiane Leal, de 24, ao ponto de ônibus. Na manhã desta terça-feira não foi diferente. Por volta das 4h40, Paulo acompanhou Raiane até ela entrar no ônibus da viação Galo Branco que faz a linha Alcântara x Estácio, mas poucos minutos depois recebeu a notícia que ela era uma das 39 vítimas do sequestro ao ônibus, que parou na Ponte Rio-Niterói e durou mais de três horas.

Num primeiro momento, Paulo pensou que pelo horário em que o sequestro foi noticiado, podia não ser o ônibus em que Raiane estava, mas a dificuldade em falar com a filha aumentou a preocupação. Paulo informou que acompanhou os desdobramentos pela televisão, e foi por onde também descobriu, ao mesmo tempo, que a filha era uma das vítimas e que havia sido liberada pelo sequestrador.

"Senti uma aflição, uma coisa muito difícil. Tentei procurar me manter calmo, porque tenho minha outra filha e minha esposa. Eu tenho os problemas de coração, ela também. Tentei manter a calma, mas foi difícil."

Outros reféns contam que o sequestrador Willian Augusto da Silva, de 24 anos, liberou primeiro os reféns que estavam passando mal com o cheiro do spray de tinta usado para bloquear a visão externa ao ônibus. Paulo não soube explicar se o mesmo aconteceu com Raiane, mas ficou aliviado em ter notícias da filha em pouco tempo.

"Reconheci ela na hora em que saiu. No primeiro momento, a gente não quer acreditar. Mas a imagem passou mais uma vez e confirmei. Ainda não respirei, mas estou tentando", contou Paulo na porta da Delegacia de Homicídios de Niterói, onde Raiane prestou depoimento.

Paulo César Leal (de branco) consola a mãe de Willian Augusto - Lola Ferreira/UOL
Paulo César Leal (de branco) consola a mãe de Willian Augusto
Imagem: Lola Ferreira/UOL
Enquanto aguardava Raiane ser liberada pela Polícia Civil, Paulo socorreu a mãe do sequestrador Willian Augusto da Silva. A identidade da mulher será preservada. Ela chegou à unidade com o rosto coberto, e cerca de uma hora depois, saiu à área externa. Inspetores da Polícia Civil afastaram a imprensa, pediram respeito à dor da mulher e explicaram que ela estava passando mal. Do portão, foi possível ver Paulo César consolando a mãe de Willian Augusto.

Ele explicou sua motivação: "Como ser humano, fui ajudar, porque naquele momento a dor é dos dois lados. Eu não tenho poder de julgar nem falar qualquer coisa que seja boa. Só falei para ela ter calma e confiar. O que eu vou dizer para ela, de conforto? Não tem o que dizer", contou Paulo.

O pai de Raiane ainda contou que irá orar pelos familiares de Willian: "Infelizmente aconteceu isso com ele. Deus não quer isso para ninguém, mas naquele momento não tem o que fazer. A gente ora pelos familiares, pela mãe dele. Mas ainda bem que minha filha está bem", finalizou

Willian foi socorrido ao Hospital Municipal Souza Aguiar por volta das 9h30 de hoje. Acompanhado de dois paramédicos, Willian estava numa maca, coberto por uma manta térmica e com um balão de ar. Segundo o sargento M Pontes, o homem chegou vivo ao hospital, mas a secretaria de saúde confirmou a morte minutos depois.

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