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Sem prova, Witzel contradiz Bope e liga sequestro a "terrorismo" do tráfico

Igor Mello

Do UOL, no Rio

20/08/2019 17h54

Sem apresentar evidências, o governador do Rio de Janeiro, Wilson Witzel (PSC), atribuiu o sequestro de um ônibus na Ponte Rio-Niterói, na manhã desta terça-feira (20), a uma ação de "terrorismo" estimulada por traficantes. A versão do governador vai de encontro ao que apurou o Bope (Batalhão de Operações Especiais) durante a ocorrência. Segundo o comandante da unidade, há indícios de que o sequestrador Willian Augusto da Silvia, 20 -- que manteve 39 reféns em um coletivo da Viação Galo Branco por mais de 3 horas -- tinha transtornos mentais e estava em surto.

Witzel e diversos auxiliares -- incluindo o comandante do Bope, tenente-coronel Maurílio Nunes -- participaram de uma entrevista coletiva com jornalistas nesta tarde no Palácio Guanabara, sede do governo do Rio, em Laranjeiras, zona sul da cidade. Após ser questionado sobre sua política de segurança -- que vem produzindo sucessivos recordes de mortes por intervenção policial -- ele passou a ligar o sequestro à ação de traficantes -- frequentemente chamados por ele de "narcoterroristas".

"Vamos investigar, mas tenho na minha convicção de que esse fato que ocorreu hoje tem vinculação com o crime organizado, que estimula esse tipo de ação terrorista. Nós temos que tomar as providências imediatas para fazer cessar essas atividades criminosas", afirmou.

Interpelado pelos jornalistas sobre que evidências tinha para fazer esse tipo de afirmação, o governador se irritou:

"É minha convicção. Minha convicção. O meu entendimento como estudioso. Vocês ouvem um monte de especialistas e esquecem que eu também sou especialista. Sou estudioso do direito penal há mais de 20 anos. A minha convicção é de que essas facções estimulam atos terroristas, senão direta, indiretamente. Estimulam atos terroristas. Eu acredito que, como ocorre em outros países, o terrorismo estimula pessoas a agirem contra o Estado. Para causar o caos, causar a desestabilização das autoridades".

Antes das declarações do governador o tenente-coronel Maurílio Nunes havia feito uma explanação onde contextualizava tecnicamente a ação do Bope, tropa de elite da PM, durante o sequestro. Responsável pela decisão de atirar contra Willian, o comandante do Bope disse ter informações de que o sequestrador tinha um perfil psicótico e estava em surto.

Segundo ele, a família do sequestrador, que foi até o local do crime, confirmou o quadro de surto. Além disso, a equipe de psicólogos do Bope também teria chegado à mesma conclusão.

"Tínhamos psicólogos no local que fizeram um perfil dele. Tinha um perfil psicótico. A partir do momento que cessa o contato com meu negociador, a negociação passou a ser tática", explicou Nunes.

Assim que Witzel foi questionado sobre as provas de envolvimento de Willian com o crime organizado, a assessoria de imprensa do governador encerrou a entrevista. Um dos assessores chegou a afirmar que representantes da Polícia Militar continuariam a conversar com a imprensa para dar mais esclarecimentos sobre o crime. Porém, o secretário de Polícia Militar, coronel Rogério Figueiredo, se negou a dar entrevista.

Após esse fato, tanto o comandante do Bope, tenente-coronel Maurílio Nunes, quanto o porta-voz da PM, coronel Mauro Fliess, alegaram terem recebido ordens de Figueiredo para não falarem com os jornalistas.

Mortes de jovens provocaram desgaste a Witzel

A atuação da PM no sequestro -- libertando todos os reféns sem vítimas feridas -- vem em um momento em que a política de segurança pública de Wilson Witzel -- baseada na repressão ao tráfico por meio do confronto e na defesa do "abate" de criminosos portando fuzis -- estava em xeque por conta da morte de ao menos seis jovens inocentes em operações policiais nos últimos dias.

Logo após a PM balear Willian e resgatar os reféns em segurança, Witzel chegou de helicóptero à Ponte Rio-Niterói. Ao desembarcar, o governador fez gestos em comemoração. Ele foi alvo de críticas nas redes sociais, por supostamente estar celebrando a morte do sequestrador --no Twitter, o termo dancinha foi um dos mais discutidos no Brasil durante todo o dia.

Em seguida, foi até o ônibus, onde os reféns ainda estavam sentados, e discursou, dizendo que "Infelizmente a sociedade tem pessoas que têm um desequilíbrio, não têm amor em si, não têm fé em Deus". A fala foi filmada, inclusive expondo os rostos dos reféns, e divulgada nas redes sociais de Witzel. Políticos de oposição criticaram a postura do governador.

Os usuários lembraram das mortes de seis jovens em comunidades do Grande Rio nos últimos dias:

  • No dia 9 de agosto, Gabriel Pereira Alves, 18, foi atingido no peito enquanto esperava um ônibus para ir à escola em um acesso ao Morro do Borel, na Tijuca, zona norte da cidade;

  • O soldado do Exército Lucas Monteiro dos Santos Costa, 21 anos, e Tiago Santos, também de 21, foram atingidos por balas perdidas no dia 10 de agosto, durante uma festa em Água Santa, zona norte;
  • No dia 12, Dyogo Coutinho, 16 anos, jogador de futebol das categorias de base do América, foi baleado por policiais quando ia para o treino na comunidade da Grota, em Niterói, na Região Metropolitana do Rio;
  • Também em 12 de agosto, o repositor de estoque Henrico de Jesus Viegas de Menezes Júnior, 19 anos, foi baleado na cabeça durante uma operação policial em Magé, na Baixada Fluminense;
  • Margareth Teixeira, de 17 anos, foi baleada junto com o filho recém-nascido na última terça-feira (13) durante tiroteio na comunidade do Quarenta e Oito, em Bangu, na zona oeste.

As mortes tiveram repercussão internacional e provocaram críticas ao governo de Wilson Witzel. Pressionado, ele passou a atacar entidades de defesa dos direitos humanos, que denunciaram os altos índices de mortes em confronto com policiais no Rio. Durante um evento em Nova Iguaçu, na Baixada Fluminense, na última sexta, ele atribuiu as mortes dos jovens aos defensores de direitos humanos.

"Pessoas que se dizem defensoras de direitos humanos, 'pseudodefensoras' de direitos humanos, não querem que a polícia mate quem está de fuzil. Porque se não mata quem está de fuzil, quem morre são os inocentes", disse, bastante exaltado. "Então, está na sua conta, defensor dos direitos humanos. Esses cadáveres desses jovens não estão no meu colo. Estão no colo de vocês, que não deixam que as polícias façam o trabalho que tem que ser feito", acrescentou.

Nesta terça, ele voltou a atacar a oposição, que vinha o criticando por conta da morte dos jovens.

"A vida das pessoas em comunidade tem valor. A vida do pobre, do favelado tem muito valor. Quando a oposição se levanta e diz que eu não valorizo a vida do favelado é um discurso absolutamente desprovido de bom senso e de razão. Se tem algo que eu me preocupo e que nosso governo está preocupado é com a vida do favelado. Nós nos preocupamos, sim, com os favelados, com as pessoas pobres e mais humildes. E queremos preservar vidas. Mas enquanto eles desfilarem em bailes funk, desafiando a sociedade com armas de guerra, estaremos chorando vítimas e recebendo na Delegacia de Homicídios todos os meses", disparou.

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