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Lama de Mariana matou 19, separou famílias e as obrigou a mudar de casa

10.nov.2015 - Um fogão foi levado pelo "mar de lama" causado pelo rompimento de barragens da mineradora Samarco em Bento Rodrigues, distrito de Mariana, região central de Minas Gerais - Mister Shadow/Estadão Conteúdo
10.nov.2015 - Um fogão foi levado pelo 'mar de lama' causado pelo rompimento de barragens da mineradora Samarco em Bento Rodrigues, distrito de Mariana, região central de Minas Gerais Imagem: Mister Shadow/Estadão Conteúdo

Carlos Eduardo Cherem

Colaboração para o UOL, em Belo Horizonte

05/11/2019 04h00Atualizada em 05/11/2019 18h05

Resumo da notícia

  • Mulher sofreu aborto após tragédia e hoje tem síndrome do pânico
  • Homem salvou sobrinho, mas, após perder a filha, afundou nas drogas
  • Famílias atingidas pela lama tiveram de se mudar para Mariana e reclamam do estilo de vida
  • Rompimento de barragem completa quatro anos hoje

Hoje faz quatro anos que o rompimento da barragem da mineradora Samarco, controlada pela brasileira Vale e pela australiana BHP Billiton, em Mariana (MG), despejou 40 milhões de metros cúbicos de rejeitos de minério de ferro numa extensão de aproximadamente 700 km, da cidade mineira até o oceano Atlântico, criando um rastro de destruição por onde a lama passou. Dezenove pessoas morreram.

As pessoas que moravam nas comunidades mais atingidas, especialmente nos distritos de Bento Rodrigues e Paracatu de Baixo, em Mariana (MG), e Gesteira, em Barra Longa (MG), viram a própria história ser devastada em minutos.

A onda de lama levou identidades, casas, objetos e estilos de vida, ao serem transferidos de uma área basicamente rural para a região urbana.

Em Bento Rodrigues, moravam 250 famílias. O distrito tinha dois bares, escola, capela, quadra de futebol, uma praça e um campinho.

Mariana, para onde tiveram de se mudar, foi a primeira capital de Minas Gerais e conserva diversos prédios históricos, casarões, igrejas e museus do período do barroco mineiro.

Atualmente, com mais de 60 mil habitantes, a cidade está recheada de hotéis, bares, restaurantes e casas noturnas. A tranquilidade do campo se perdeu em meio à destruição da lama.

Aborto e um aniversário nunca mais celebrado

Priscila Monteiro Barros faz aniversário de 32 anos hoje, mas não gosta de se lembrar da data.

Priscila Monteiro Barros e seu filho Kayque, com o rosto dele machucado, em foto feita 15 dias após o desastre de Mariana - Arquivo pessoal
Priscila Monteiro Barros e seu filho Kayque, com o rosto dele machucado, em foto feita 15 dias após o desastre de Mariana
Imagem: Arquivo pessoal
"Nem pensar. Nunca mais comemorei", diz. Desde que se mudou para uma casa alugada pela Fundação Renova, entidade criada para cuidar dos reparos sociais e ambientais da tragédia, sua "vida acabou", como conta.

"Não me acostumo. Não consigo me acostumar. Não vejo os vizinhos. Não conheço eles direito. Só cumprimento por educação", diz. "A vida acabou. Acabou a família, acabaram os amigos. Não tem mais nada disso, não. Ninguém se encontra. Cada um mora num lugar, separado", afirma.

Priscila estava grávida de 24 semanas quando sua casa foi invadida pela lama. Ela e o filho Kayque, então com dois anos, conseguiram sobreviver, mas ela teve um aborto. Desde então, luta na Justiça para que o feto seja reconhecido como vítima pela Fundação Renova.

"Não tenho mais vontade de nada", diz Priscila. Ela afirma que foi diagnosticada com "síndrome do pânico", mas não quis fazer tratamento. "Tenho medo de chuva e trovões. Fico meio inquieta, mas vou levando. O Kayque tomou muito medo é de barragem. Ele não chega perto de nenhuma de jeito nenhum e aqui [em Mariana] tem muitas. Tem uma [barragem] a uns 600 metros daqui de casa."

A tristeza dela aumenta por outro drama familiar. O irmão foi preso novamente.

Wesley Patrick, a mulher Priscila e o filho deles Kayque - Arquivo pessoal
Wesley Patrick, a mulher Priscila e o filho deles Kayque
Imagem: Arquivo pessoal
Wesley Isabel, com 23 anos à época do desastre, salvou a vida do filho de Priscila. A criança se soltou da mão dela quando a lama invadiu a casa. O irmão foi arrastado pela lama com a filha Emanuely Vitória, de cinco anos, e o sobrinho Kayque.

Wesley alcançou Kayque, mas perdeu a filha, levada pela correnteza. Emanuely Vitória foi encontrada pelos bombeiros quatro dias depois do rompimento, a 700 metros da casa.

Ele se mudou para uma casa alugada em Mariana e recebeu R$ 100 mil de indenização.

"Ele se desnorteou totalmente. Entrou numa depressão danada. Só falava na filha, não tinha outro pensamento. Começou a usar drogas, de tudo, crack, cocaína, maconha, e começou a beber. Deu no que deu. Acabou com tudo", diz Priscila. "Imagino ele lá [na prisão] sozinho hoje. Não deve estar pensando noutra coisa. Deve estar desesperado."

Sem "bicos" e com mais gastos

Priscila é casada com o montador de andaimes Weslei Patrick. "A renda familiar é mais ou menos a mesma que tínhamos antes. Só que o gasto aqui é muito maior", afirma.

Patrick lembra que perdeu os "bicos" que fazia, quando morava em Bento Rodrigues. "Lá sempre tinha um servicinho para fazer. Ajudava, né?", conta. "Quando vou ao Bento [Rodrigues], levo os meninos. E conto para eles, mais ou menos, como eram as coisas."

Os habitantes de Bento Rodrigues tinham uma rotina de trabalho na agricultura, na pesca e muitos "bicos". O bar do Barbosa, na praça central, era o principal ponto de encontro, para beber cerveja, jogar truco e conversa fora. As festas eram feitas no salão da escola e na quadra de futebol.

No fins de semana, as famílias iam nadar no rio Gualaxo, a "uns 600 metros da praça", e mergulhar nas duas quedas da cachoeira de Ouro Fino. "Acabou tudo. Não temos mais nada", diz Patrick.

O garimpeiro Geraldo Felipe dos Santos, o Tuzinho, membro da Comissão dos Atingidos de Santa Cruz do Escalvado (MG), diz que a lama "matou o rio Doce".

Ele conta que conseguia tirar até dois gramas de ouro em um dia. "Aprendi tudo com o meu pai e minha mãe. Meu pai era o maior garimpeiro nessa região, todo mundo aqui aprendeu com ele", diz Tuzinho. "Agora, estou aposentado, mas não posso tirar mais nada lá [no rio], nem pescar."

Mineradoras e governos criam fundação

Criada em 2016 por Vale, BHP Billiton, em acordo com a União e os governos de Minas Gerais e do Espírito Santo, a Fundação Renova informa que não comenta casos específicos de vítimas do rompimento da barragem.

Até agosto deste ano, gastou R$ 6,68 bilhões em ações integradas de recuperação e compensação socioambiental e socioeconômica dos danos.

De acordo com a fundação, R$ 1,84 bilhão foram pagos em indenizações e auxílios financeiros emergenciais para 319 mil pessoas, de Minas Gerais e do Espírito Santo.

Em relação à construção dos novos distritos rurais, a fundação informa que em Novo Bento seguem as obras de alvenaria de casas e de fundação da escola municipal. Em Paracatu de Baixo, estão sendo feitas as obras de infraestrutura, como canalização de água e esgoto.

Ainda de acordo com a Renova, 92 pontos do rio Doce fazem o monitoramento da qualidade da água, com 22 deles verificados por estações automáticas, que geram informações em tempo real. "Os dados do programa de monitoramento, coletados em dois anos, mostram que as condições da bacia são hoje semelhantes às de antes do rompimento", informa a Renova.

"Hoje, o rio Doce é enquadrado na classe 2 pelo Conama (Conselho Nacional do Meio Ambiente). Isso significa que a água pode ser consumida após tratamento convencional e ser destinada à irrigação", diz.

A Renova também diz que foram recuperados 113 afluentes, pequenos rios que alimentam o rio Doce, e 1.050 nascentes estão sendo restauradas em Minas Gerais e no Espírito Santo.

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