Topo

Quilombo dos Palmares: livro revela disputa entre paulistas e pernambucanos

Serra da Barriga vista do alto do Parque Memorial Quilombo dos Palmares  - Beto Macário/BOL
Serra da Barriga vista do alto do Parque Memorial Quilombo dos Palmares
Imagem: Beto Macário/BOL

Carlos Madeiro

Colaboração para o UOL, em Maceió

20/11/2019 04h00

Resumo da notícia

  • Obra de pesquisadora mostra como ficou a divisão do quilombo de Zumbi
  • Tropas de bandeirantes ajudaram a dizimar mocambo em troca das terras
  • Governador de Pernambuco recorreu ao rei de Portugal
  • Reclamação acabou gerando uma divisão da área

Em fevereiro de 1694, o mocambo do Macaco —sede do comando do Quilombo dos Palmares e onde vivia Zumbi— foi atacado pelas tropas do bandeirante Domingos Jorge Velho. Cerca de 6.000 homens capturaram o local na Serra da Barriga (hoje em União dos Palmares, Alagoas), numa invasão com mortes e recapturas de escravos fugitivos.

Havia promessa que a vitória renderia aos paulistas parte das terras do quilombo como recompensa. Essa promessa, entretanto, foi responsável por uma tensão de anos entre a capitania de Pernambuco, que acusou os paulistas de serem "piores que os negros".

Após o massacre no mocambo, Zumbi e outros integrantes fugiram e se refugiaram na Serra Dois Irmãos (hoje município de Viçosa, AL). Encontrado quase dois anos depois, Zumbi foi morto em 20 de novembro de 1695. O Quilombo dos Palmares ainda resistiu em pequenos focos até o no ano de 1696, quando foi totalmente exterminado após mais de um século de luta.

Zumbi foi o último líder do Quilombo dos Palmares - Antônio Parreiras/Domínio Público
Zumbi foi o último líder do Quilombo dos Palmares
Imagem: Antônio Parreiras/Domínio Público

O contrato de doação de terras aos combatentes, o chamado terço dos paulistas, havia sido acordado com a coroa e com o governador de Pernambuco, João da Cunha Souto Maior, em 1687, em caso de extermínio do Quilombo.

Após a vitória em fevereiro de 1694, os pernambucanos se moveram pela herança do quilombo. As revelações constam no livro "A ocupação das terras do Quilombo dos Palmares e criação das vilas", da pesquisadora Genisete de Lucena Sarmento.

Governador queria negação de acordo

A pesquisadora encontrou documentos históricos que revelaram uma carta de agosto de 1694, na qual o então governador de Pernambuco, Caetano de Melo e Castro, pediu ao rei Pedro 2º que não cumprisse ao acordo de doar as terras para os paulistas.

No texto, o governador pernambucano alega que os paulistas eram "piores que os negros." "Experimentaram as capitanias vizinhas maior dano em seus gados e fazenda que aqueles que lhe faziam os mesmos negros levantados", diz trecho da carta contida no livro. "Assim me parece que Vossa Majestade lhe não deve dar terras naqueles distritos."

Carta do rei que designava sesmaria após doação da coroa ao beneficiário. Ao todo, ao menos 26 sesmarias foram dadas na área onde era o Quilombo dos Palmares - Reprodução
Carta do rei que designava sesmaria após doação da coroa ao beneficiário. Ao todo, ao menos 26 sesmarias foram dadas na área onde era o Quilombo dos Palmares
Imagem: Reprodução

Mas o pedido não serviu. "O rei ouviu outras opiniões e doou as terras como forma de gratidão pela eliminação dos quilombolas", afirma Genisete, citando que houve doação de ao menos 26 sesmarias entre o final dos séculos 17 e início do 18.

A área à direita do rio Mundaú, onde estava o mocambo, foi doada a Alexandre Jorge da Cruz, filho de Domingos Jorge Velho, em 1718.

Queixa pernambucana

A principal queixa vinha dos pernambucanos que moravam na Santa Maria Madalena da Lagoa do Sul, onde hoje está localizada a cidade de Marechal Deodoro, na Grande Maceió.

Genisete conta que, em 1700, os pernambucanos pediram que a vila fosse construída dez léguas (48,2 quilômetros) distante da vila de Santa Maria, já depois da Serra da Barriga. "Eles não queriam de forma alguma a vizinhança dos paulistas. Isso está dito na palavra dos vereadores da época. Eles pediam que fossem doadas para os pobres pernambucanos, mas que a gente sabe que não era nada para pobres. Eles queriam terras", conta a autora.

Para ter ideia do clima ruim entre paulistas e pernambucanos, o bispo de Pernambuco não gostava de Domingos Jorge Velho. "Eles não se davam bem. Ele o comparava a um animal, era mais bruto que um animal", afirma. "Foi tudo uma questão política, mas gerou uma tensão entre paulistas e pernambucanos."

Os paulistas eram protegidos pelo rei, profundamente grato pela destruição do quilombo que vinha assombrando ali havia mais de um século

Genisete de Lucena Sarmento, pesquisadora

Acordo para evitar reocupação

A coroa tinha interesse na ocupação do local para evitar que os escravos fugitivos voltassem a ocupar a área. "Os que sobreviveram fugiram os lugares onde ninguém chegava, como as regiões agreste e sertão", diz. Por conta dessa fuga, diz, muitas das comunidades quilombolas de Alagoas e Pernambuco estão longe das terras principais do quilombo.

A reclamação dos pernambucanos acabou gerando uma divisão da área onde hoje está o município de União dos Palmares. Além da doação para Domingos Jorge Velho para construção de uma vila, em 1755 uma área do mocambo (do lado esquerdo do rio Mundaú) foi doada ao capitão Simão Álvares de Vasconcelos, que era chefe da companhia que protegia a região.

"Essa doação, para mim, foi maracutaia, um favorecimento. Ele recebeu a terra nas mesma condição dos paulistas, sem pagar foro, a não ser o 'dízimo a Deus', como chamavam na época", afirma.

Parque memorial Zumbi dos Palmares, em Alagoas - Beto Macário/BOL
Parque memorial Zumbi dos Palmares, em Alagoas
Imagem: Beto Macário/BOL

A última doação da área, diz a autora, ocorreu em 1819. União dos Palmares —que hoje tem o Memorial Quilombo dos Palmares— possui hoje apenas uma comunidade remanescente de quilombo, mas que veio ser ocupada depois da abolição da escravidão (1888).

"A comunidade do Muquém, até onde eu sei, não está lá desde a época do quilombo. Ela foi doada no início do século 20 pelo dono da usina serra grande e dada a três irmãos.

Segundo ela, mesmo após o fim do quilombo, a perseguição aos negros que escaparam seguiu. "Existia o Arraial de Nossa Senhora das Brotas. Os fugitivos por lá eram caçados. Quem sobreviveu teve se fugir muito, eram buscados constantemente" diz Genisete.

Cotidiano