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Ele só queria se divertir, diz tio de garoto morto em Paraisópolis

Roberto (dir.) e Guilherme (esq.) eram tios de Gustavo, vítima da tragédia de Paraisópolis - Felipe Pereira
Roberto (dir.) e Guilherme (esq.) eram tios de Gustavo, vítima da tragédia de Paraisópolis Imagem: Felipe Pereira

Felipe Pereira

Do UOL, em São Paulo

05/12/2019 12h00

Resumo da notícia

  • O relato do domingo da família de Gustavo Xavier, 14 anos, uma das vítimas de Paraisópolis
  • O tio e o padrinho contam como foi descobrir que o garoto não voltou para casa
  • As esperanças acabaram no IML durante o reconhecimento do corpo
  • Eles pedem justiça e esperam que a morte seja explicada e os responsáveis sejam punidos

Imagine acordar domingo de manhã e descobrir que um familiar saiu sábado a noite e não voltou para casa. Guilherme Maciel, 23, e Roberto Oliveira, 44, sentiram isto na pele. Eles são tios de Gustavo Xavier, 14, a vítima mais nova entre os nove mortos em Paraisópolis no último final de semana.

O menino que morava no Capão Redondo, fazia bicos em mercados e sonhava em comprar um carro Gol antigo. Pelas redes sociais, os tios souberam que Gustavo não chegará a idade de tirar carteira de motorista.

Padrinho de Gustavo, Roberto perambulou por São Paulo com a mãe do menino até a madrugada de segunda-feira. Buscavam o corpo pisoteado do garoto... Ou o quase milagre de descobrir que tudo era um mal-entendido. A esperança terminou no IML.

Abaixo, o relato que os dois fizeram ao UOL.

Roberto - A tia do Gustavo subiu falando que o menino não tinha chegado em casa. Ficamos meio apreensivos, soube pelas redes sociais das mortes em Paraisópolis. Mas eu achava que ele estava na casa de algum amigo.

Guilherme - Ligava e caía direto na caixa. Os parentes foram em casas de outros participantes do baile e todos se esquivavam. Ficamos sabendo da morte as 14h da pior forma possível: por um vídeo.

Gustavo Xavier, 14, a vítima mais nova de Paraisópolis - Arquivo Pessoal
Gustavo Xavier, 14, a vítima mais nova de Paraisópolis
Imagem: Arquivo Pessoal

Roberto - A imagem mostrava o Gustavo jogado no chão. Reagimos da pior maneira possível. Foi um apavoro total. Nas redes sociais, falavam que os corpos estavam no Hospital do Campo Limpo. Peguei a mãe dele e corri para lá. Chegando, a gente não teve acesso a nada. O hospital parecia mais um batalhão de polícia. As vítimas estavam lá, mas falaram que não estavam. Fizeram um esquema de tirar os corpos por trás do hospital. Chegamos no IML já era uma hora da manhã de segunda.

Guilherme - Até chegar no IML eu tinha esperança do Gustavo estar vivo. Só parei de acreditar quando vi o corpo. Não haveria mais milagre, Nesta semana, fomos na viela em Paraisópolis. A gente queria estar lá na hora do tumulto para poder defender o Gustavo. A gente se sente impotente, fraco, um ninguém.

Roberto - O baile é um lugar ruim de curtir. É perigoso, mas ele foi outras vezes e não aconteceu nada. Se houve uma ação da Polícia Militar, desta vez a ação falhou. Eles têm que admitir. Quem errou tem que pagar. Foram nove vítimas.

Guilherme - Vítimas e ninguém tem passagem.

Roberto - Acho que isto é o pior para eles. Antecedente criminal nenhum. A gente não quer dinheiro, a gente trabalha. O Gustavo não era menino mal-educado, não era maloqueiro. Ele estudava, tinha a casa dele, o quarto dele. A única coisa que ele queria era se divertir. Acho que nem a polícia imaginava que o negócio seria tão feio.

Guilherme - E cadê as filmagens? A gente mora em periferia e vê muito Rocam [policiais militares em motos]. De cada dois, um tem câmera. Naquela noite havia seis Rocam e nenhum capacete com câmera? Não dá para engolir.

Roberto - E dói mais é quando vê foto de coisas boas que a gente passou com ele. A família toda mora num quarteirão no Capão Redondo. Sempre fazíamos coisas juntos. Íamos para praia agora e a vaga dele estava reservada. O Gustavo já tinha confirmado. Os primos que andam com ele estão arrasados.

Guilherme - E eu tive que enterrar o Gustavo no dia do meu aniversário. Eu nunca imaginei uma coisa dessas.

Cotidiano