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Juiz manda carta para detentos em SC: "Sou tachado de defensor de bandido"

Juiz João Marcos Buch escreveu carta com mensagem de fim de ano aos mais de 2 mil presos do sistema carcerário de Joinville - Arquivo pessoal
Juiz João Marcos Buch escreveu carta com mensagem de fim de ano aos mais de 2 mil presos do sistema carcerário de Joinville Imagem: Arquivo pessoal

Abinoan Santiago

Colaboração para o UOL, em Ponta Grossa

19/12/2019 17h14

O juiz da Vara de Execuções Penais de Joinville (SC) decidiu escrever uma carta com uma mensagem de fim de ano aos mais de 2 mil presos do sistema carcerário da cidade. O documento, compartilhado ontem pelo magistrado em suas redes sociais, tomou proporções além do que ele esperava.

Na carta, João Marcos Buch demonstra empatia com a situação dos detentos e compartilha o estigma de ser "tachado de defensor de bandido" por tentar cumprir os prazos para liberá-los após cumprimento das penas.

O magistrado conta que decidiu compartilhar a carta depois de receber uma ligação do ex-ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Ayres Britto e demais manifestações de apoio. O documento foi enviado impresso na segunda-feira (16) aos 2.050 presos de Joinville e alguém o teria tornado público.

"Essa carta caiu no domínio público de alguma forma porque o ex-ministro Ayres Britto me telefonou. Não nos conhecemos. Nos falamos ontem por volta das 12h e ele disse que era assim que a Justiça deveria funcionar. Uma senhora hoje me abordou no almoço, abraçou, se emocionou e agradeceu muito. Não sei quem ela é, apenas agradeceu pela mensagem", comentou o juiz.

"Sou tachado de defensor de bandido"

Na Vara de Execuções Penais de Joinville desde 2012, Buch conta que se comunica com os presos por meio de carta. É o principal instrumento usado pelos detentos para reivindicar demandas e apontar mazelas dentro do sistema prisional.

Na carta, o magistrado pontua que sempre atua para os presos não ficarem encarcerados além do tempo determinado na sentença e que por isso é considerado "defensor de bandido".

"Tento no limite de minhas forças, junto com a equipe que comigo atua, fazer com que os prazos sejam cumpridos e que ninguém fique preso acima do que a sentença condenatória determinou. (...) A intolerância que atinge vocês que estão presos também é destinada a mim. Como juiz da execução penal, sou tachado de defensor de bandido, sou olhado de canto de olho, sou hostilizado por parte da sociedade, cega em seus traumas, ódios e medos. Mas isso nem sempre é possível", relata em um trecho da carta.

Questionamentos constantes

Ao UOL, o juiz revela que é frequentemente questionado por não mandar cartas para as vítimas. Buch argumenta que redigiu a carta como uma estratégia de repassar uma mensagem de conforto aos detentos neste fim de ano.

"Sou questionado do motivo de não mandar uma carta dessas para as vítimas. Ora, eu tenho contato com elas também e entendo que o estado não deve abandoná-las, mas o trabalho de um juiz de execução me obriga a trabalhar com o preso. Procurei deixar o sentimento que tenho aqui fora, o que não se compara com os estigmas dele. Sei que repercutiu dentro do complexo prisional", diz.

Apesar das mensagens de apoio nas redes sociais, a comunicação com internos do sistema prisional gera desconforto na vida pessoal de Buch, segundo revela.

"Sofri situações de estar em um local e ficar sabendo depois que determinadas pessoas se alteraram e queriam se dirigir a minha mesa para me desatacar e agredir por eu ser um juiz de execução penal e achar que defendo bandido. Isso acontece muito, o tempo todo", comentou o magistrado, acrescentando estar "satisfeito" com a repercussão. "Muitos compreenderam a razão da mensagem", conclui.

Juiz emprestou celular para preso

A comunicação de João Marcos Buch com detentos virou polêmica em junho deste ano. Ele emprestou o celular para um detento filmar as condições da cela onde estava. De posse do aparelho, o apenado registrou uma caixa de luz chamuscada dentro do presídio de Joinville.

O Tribunal de Justiça de Santa Catarina (TJ-SC) considerou que o magistrado quebrou a imparcialidade e o afastou em 15 de outubro de processos envolvendo o preso que fez os registros. Ele se mantém em outros 9 mil processos da Vara de Execuções Penais da comarca.

Questionado sobre o episódio, Buch não quis comentar porque o caso ainda não teve o mérito analisado pela corte estadual.

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