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Centro em prol de ativista antiditadura e candidato a santo é vandalizado

Dom Hélder Câmara, arcebispo emérito de Recife e Olinda (PE), acena do fundo da igreja das Fronteiras. (Recife (PE), 06.04.1995 - Evelson de Freitas - 6.abr.1995/Folhapress
Dom Hélder Câmara, arcebispo emérito de Recife e Olinda (PE), acena do fundo da igreja das Fronteiras. (Recife (PE), 06.04.1995 Imagem: Evelson de Freitas - 6.abr.1995/Folhapress

Marcelo Oliveira

Do UOL, em São Paulo

15/01/2020 19h22

O Centro de Documentação Dom Hélder Câmara (Cedohc), que integra o instituto que leva o nome do ativista contra a ditadura militar e arcebispo emérito de Olinda e Recife, foi arrombado, furtado e parcialmente destruído no início de janeiro.

Para recuperar as instalações e o que foi roubado e destruído, o instituto, criado em 1984 para manter o legado do religioso candidato a santo, iniciou nesta terça (14) uma campanha para arrecadar fundos.

Dom Hélder morreu em 1999, aos 90 anos.

O crime contra o instituto foi identificado em 3 de janeiro por funcionários, que cuidam do acervo de documentos do arcebispo, declarado por lei Patrono Brasileiro dos Direitos Humanos por ter sido um símbolo da resistência brasileira à ditadura militar e indicado quatro vezes ao Prêmio Nobel da Paz.

Centro vandalizado

O local teve o portão externo arrombado, e os ladrões entraram no imóvel removendo o ar condicionado de lugar.

Retrato de Dom Helder foi tirado da parede e armários de centro de documentação revirados durante furto no Recife - Divulgação - 4.jan.2020/Instituto Dom Hélder Câmara - Divulgação - 4.jan.2020/Instituto Dom Hélder Câmara
Retrato de Dom Helder foi tirado da parede e armários de centro de documentação revirados durante furto no Recife
Imagem: Divulgação - 4.jan.2020/Instituto Dom Hélder Câmara
"Portas de armários e gavetas abertas, seus conteúdos jogados no chão, como se fosse lixo, não escapando nem mesmo um retrato pintado de Dom Helder, que estava pendurado na parede", diz nota do instituto.

Além do furtar monitores de computador, um data show e dois laptops, os ladrões cortaram e roubaram fios elétricos e de telefone, inviabilizando momentaneamente os trabalhos do Centro de Documentação.

Crime político descartado

Segundo o advogado Manoel Moraes, que integrou a Comissão da Verdade de Pernambuco, que recebeu o nome do religioso, "até o momento a Polícia Civil descarta a hipótese de crime por motivação política, uma vez que os ladrões não levaram nada do acervo da instituição".

Sala do Centro de Documentação Dom Hélder Câmara após arrombamento e furto - Divulgação 4.jan.2020/ Instituto Dom Hélder Câmara - Divulgação 4.jan.2020/ Instituto Dom Hélder Câmara
Sala do Centro de Documentação Dom Hélder Câmara após arrombamento e furto
Imagem: Divulgação 4.jan.2020/ Instituto Dom Hélder Câmara
De acordo com Moraes, o furto dos fios comprometeu toda a instalação elétrica do Centro de Documentação, que terá que ser totalmente reformada. A depender da arrecadação da campanha, o centro de documentação pode ser ampliado, pois há um terreno ao lado do centro que pode ser utilizado para este fim.

Mais informações sobre a campanha estão disponíveis no site do Instituto Dom Hélder Câmara.

Canonização começou no Vaticano

Os documentos juntados no Brasil ao longo de quatro anos para o processo de canonização de Dom Hélder foram entregues ao Vaticano em setembro do ano passado.

O pedido foi postulado pelo fato de Dom Hélder ter sido defensor dos direitos humanos e importante na luta pela dignidade dos mais pobres, "em consonância com os ensinamentos do Evangelho".

Agora, começará a fase do processo na qual a Congregação das Causas dos Santos analisará a documentação, e o papa poderá declará-lo venerável.

Uma vez considerado venerável, relatos de milagres atribuídos à intercessão do religioso passam a ser compilados.

Quem foi Dom Hélder Câmara?

Nascido em 1909 em Fortaleza, filho de um jornalista e de uma professora primária, dom Hélder iniciou sua vida religiosa em 1923, aos 14 anos. Aos 22, ele foi ordenado padre e passou a envolver-se com causas sociais, integrando círculos operários cristãos.

No início dos anos 30, foi um grande entusiasta do Integralismo, movimento nacionalista de extrema-direita, com o qual se decepcionou e se desligou rapidamente, passando a classificar-se como democrata cristão e humanista já em fins dos anos 30.

Ditadura militar

Em 1943, Dom Hélder foi um dos fundadores da Confederação Nacional dos Bispos do Brasil. Dias antes do golpe militar de 1964 foi nomeado arcebispo do Recife pelo Vaticano.

12.04.1965: O arcebispo emérito de Olinda e Recife, Dom Hélder Câmara - Acervo Última Hora 12.abr.1965/Folhapress - Acervo Última Hora 12.abr.1965/Folhapress
O arcebispo emérito de Olinda e Recife, Dom Hélder Câmara
Imagem: Acervo Última Hora 12.abr.1965/Folhapress
Durante a ditadura, Hélder passou a defender as comunidades eclesiais de base e tornou-se mais conhecido nacionalmente por ser um líder contra o autoritarismo e um defensor dos Direitos Humanos.

Acusado de comunista, foi perseguido pelos militares e chamado de "arcebispo vermelho".

Em resposta, ele costumava dizer uma frase que ficou célebre: "Quando dou comida aos pobres, me chamam de santo. Quando pergunto por que eles são pobres, chamam-me de comunista".

Um de seus principais assessores, o padre Antônio Henrique, que atuava na Pastoral da Juventude do Recife, foi assassinado pela ditadura militar em 27 de maio de 1969. Seu corpo foi encontrado com marcas de tortura e execução.

O crime não intimidou dom Hélder, que viajou muitas vezes ao exterior para denunciar os crimes da ditadura militar brasileira. Ele recebeu 32 títulos honoris causa de universidades estrangeiras e, em 2017, foi declarado por lei Patrono Brasileiro dos Direitos Humanos.