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4 meses
PM culpa famílias por mortes em Paraisópolis; pais reagem: 'Crueldade'

7.dez.2019 - Familiares das vítimas se reúnem em ato ecumênico em Paraisopolis, uma semana depois do massacre no Baile da DZ7 - Marlene Bergamo/ Folhapress
7.dez.2019 - Familiares das vítimas se reúnem em ato ecumênico em Paraisopolis, uma semana depois do massacre no Baile da DZ7 Imagem: Marlene Bergamo/ Folhapress

Alex Tajra

Do UOL, em São Paulo

05/03/2020 14h14

"Injustiça". "Contra-ataque da polícia". "Crueldade". Essas foram as reações de familiares das vítimas da ação policial em Paraisópolis em dezembro passado ao saber que o relatório produzido pela Corregedoria da Polícia Militar os aponta como corresponsáveis pelas nove mortes daquela noite. O teor do documento foi divulgado hoje pela Folha de S. Paulo.

"Todos negligenciaram o 'pátrio poder' e subsidiariamente têm suas parcelas de responsabilidades pela omissão na guarda dos menores", diz o relatório.

O documento afirma que as mortes dos jovens — que tinham entre 14 e 23 anos — foram causadas pela ação policial, mas isenta os agentes do Estado. Conforme antecipado pelo UOL, a corporação viu "legítima defesa" na operação.

O documento menciona ainda o chamado "excludente de ilicitude" para defender que os PMs envolvidos não sejam punidos. Os 32 policiais que estavam presentes na ação foram afastados, mas o inquérito ainda está em andamento e novas diligências foram solicitadas à Corregedoria.

"A minha parcela de culpa pelo meu filho estar naquele baile eu já carrego comigo. Agora, eles quererem jogar em mim a culpa da morte e isentar eles [PMs]. É crueldade demais. É me massacrar mais uma vez. Eles já massacraram meu filho, levaram meu filho à morte",
Maria Cristina Quirino, mãe de Denys Henrique Quirino, 16.

Denys Henrique Quirino da Silva, de 16 anos - Arquivo Pessoal - Arquivo Pessoal
Denys Henrique Quirino da Silva, de 16 anos, foi um dos jovens assassinados em Paraisópolis
Imagem: Arquivo Pessoal

Ela não sabia que o filho fora ao baile em Paraisópolis, e soube da morte por um telefonema do hospital. "Meus dias têm sido infelizes desde o dia 1º de dezembro. Eu não tenho mais vida", diz Maria Cristina. "Pelo menos eles assumiram que as mortes se deram por conta da ação da polícia", afirma.

Corregedoria fala em ataque; frequentadores rebatem

O documento elaborado pela Corregedoria aponta para um suposto ataque por parte dos frequentadores do baile com garrafas, paus e pedras.

Jovens que estavam no baile naquela madrugada, porém, negam que tenham visto ataques contra a polícia. A reação da PM, segundo publicado pela Folha, foi autorizada pelo comando da corporação.

Os frequentadores presentes no baile afirmaram que os ataques partiram da PM, que encurralou todas as saídas e não deixou os frequentadores deixarem o local. Além dos nove mortos, dezenas de pessoas ficaram feridas, incluindo uma jovem de 17 anos que levou 50 pontos no rosto após, segundo ela, levar uma garrafada de um policial.

"Como se não bastasse eu perder meu filho, eu ainda tenho de conviver com essas notícias. A Corregedoria era um órgão que eu achei que a gente poderia acreditar. (...) Eu acreditava que eles enxergariam que o que os policiais fizeram foi errado. Mas eu já vi que isso não vai acontecer.
Maria Cristina Quirino, mãe de Denys Henrique Quirino

"Desespero da polícia"

Pai de Gabriel Rogério de Moraes, também morto naquela noite, Reinaldo Cabral de Moraes afirma que a tentativa da Polícia Militar de culpar os pais e familiares pelas mortes é "um desespero da própria polícia, porque o cerco está se fechando".

Gabriel Rogério de Moraes, uma das vítimas do massacre de Paraisópolis - Reprodução - Reprodução
Gabriel Rogério de Moraes, uma das vítimas do massacre de Paraisópolis
Imagem: Reprodução

"Eles não têm para onde correr, então estão atacando para todos os lados. E agora estão atacando absurdamente os pais e os parentes. (...) Nós sabemos que a polícia é tendenciosa mesmo. Querendo fazer isso [responsabilizar os pais] só prova realmente qual a índole desses policiais, tanto o comandante, quanto os responsáveis."

Moraes afirma que, mesmo com o relatório finalizado, há "mistérios" no inquérito conduzido para apurar as circunstâncias das mortes em Paraisópolis.

"O MP pediu novas diligências, está tudo muito inconsistente, muito incompleto. O MP tem sua margem de investigação, que dá divergências com a investigação da própria polícia. Então o contato que nós temos com o inquérito, não podemos falar tudo claramente, porque está sob segredo, mas eles [policiais] não querem assumir o que fizeram", diz Moraes.

"Se fosse para eu pagar pelo fato de meu filho estar em um local inadequada, que eles me entregassem com vida, para eu tomar minhas medidas de mãe. Só que meu filho não voltou para casa. O direito de meu filho voltar para casa foi tirado, e quem tirou foram eles", complementa Maria Cristina.

Cotidiano