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Atendente idoso e pia na porta: lojas reabrem no Rio, mas ficam vazias

Caio Blois

Do UOL, no Rio

27/03/2020 20h08

O relógio marcava meio-dia quando seu Giuseppe, 86, abriu as portas de sua loja de ferragens na rua Belfort Roxo, em Copacabana. A sexta-feira (27) marcou o primeiro dia da "reabertura lenta e gradual" do comércio na capital fluminense após modificação do decreto do prefeito Marcelo Crivella (Republicanos), que liberou o funcionamento de lojas de material de construção e de conveniência em postos de gasolina.

De camisa social listrada e com um sorriso no rosto, o italiano de fala calma atendeu a reportagem do UOL com a lembrança de esfregar álcool em gel nas mãos e manter mais de um metro de distanciamento. Apesar do medo do coronavírus por fazer parte de grupo de risco, trabalhar foi necessário.

"Não concordo com as palavras do presidente [Jair Bolsonaro]. Esta doença [covid-19] não é 'uma gripezinha de merda'. Na Itália estão morrendo muitas pessoas. E aqui é capaz de ir pelo mesmo caminho. Minha filha abriu a loja mais cedo, estou aqui apenas para ela resolver algumas coisas na rua. Até agora só você entrou aqui", afirmou.

Giuseppe, 86, criticou declaração de Bolsonaro sobre coronavírus: "Não é gripezinha de merda" - Caio Blois/UOL
Giuseppe, 86, criticou declaração de Bolsonaro sobre coronavírus: "Não é gripezinha de merda"
Imagem: Caio Blois/UOL

O comércio de bairro aberto por Giuseppe é tão antigo que a fachada ainda mostra telefones de contato com sete números e tipografia obsoleta. O balcão de mogno divide a área onde ele, sua filha e apenas um funcionário, dispensado por conta da quarentena, costumam ficar.

Em razão do coronavírus, ele se senta em uma mesa ainda mais distante, a cerca de 5 m da clientela. Apesar da longevidade e saúde em dia —não registra condições pré-existentes que aumentariam o risco em caso de contaminação—, o comerciante preferiria estar em casa.

"Se houvesse uma proteção do governo para os empresários, empreendedores e comerciantes, estaria vendo jogos antigos de futebol em casa. Queria ver meu filho jogando pelo meu Fluminense, mas servem os craques de antigamente" brinca.

"Os políticos preferem fazer brincadeiras na televisão. O presidente só fala besteira e não pensa no povo. Eu acredito na medicina, na ciência e nas recomendações. Queria seguir as autoridades e colaborar, mas qualquer dinheiro que entrar nos ajuda", completa.

Loja de ferragens de Copacabana não teve clientes mesmo após quarentena do coronavírus  - Caio Blois/UOL
Loja de ferragens de Copacabana não teve clientes mesmo após quarentena do coronavírus
Imagem: Caio Blois/UOL

No mesmo quarteirão, na rua Ministro Viveiros de Castro, outras duas lojas maiores de materiais de construção trabalhavam com muitos funcionários e poucas mudanças. Em uma delas, um homem, que pediu anonimato e que não fossem feitas imagens, foi a única opinião dissonante entre os lojistas entrevistados.

"É uma guerra contra um vírus. Temos que encarar. Chato falar isso, mas acima de 18 anos, todos precisam se apresentar. Quem está em grupo de risco fique em casa. Os outros precisam trabalhar para o país não parar", disse.

Por coronavírus, comércio em Copacabana tinha pouco movimento nesta sexta (27)  - Caio Blois/UOL
Por coronavírus, comércio em Copacabana tinha pouco movimento nesta sexta (27)
Imagem: Caio Blois/UOL

Já na avenida Nossa Senhora de Copacabana, a mais movimentada do bairro, um estabelecimento abriu as portas, mas improvisou uma cadeira e um aviso para evitar o contato físico. O coronavírus reduziu drasticamente o movimento, ainda que o local não tivesse respeitado os decretos do governador Wilson Witzel (PSC) e do prefeito Crivella, ficando aberto todos os dias da quarentena.

"Não entra ninguém aqui. Já carreguei o telefone duas vezes. O dono mandou abrir e ficou em casa. Estou eu aqui e mais um na Barata Ribeiro, na outra loja dele. Mas recebemos tudo certo esse mês, ele nunca atrasou. Precisamos do dinheiro. Se essa história de receber uma parte do salário pelo governo for verdade, não virei trabalhar", afirmou João, que usava uma máscara de proteção.

Loja adota pias na entrada

Do outro lado da cidade, no Rio das Pedras, zona oeste, uma loja de materiais de construção abriu pela manhã com uma novidade: pias na porta para higiene de funcionários e clientes contra o coronavírus.

"A orientação é manter a distância, água e sabão, colocamos uma pia também dentro da loja para os colaboradores e clientes poderem se lavar. Álcool em gel também é à vontade", afirmava um funcionário, em vídeo compartilhado nas redes sociais.

Maior fluxo nas ruas, mas comércio vazio

Tanto em Copacabana como em outros bairros das zonas sul, norte e oeste da capital, o movimento no comércio foi baixo nesta sexta, apesar de uma expectativa por demanda reprimida nas lojas de material de construção, conveniência de postos de gasolina, lavanderias e outros.

Mas, se poucas pessoas foram às compras, as ruas registravam mais movimento. "Tem dias que não vejo crianças, mas hoje, olha ali", apontava Alex, frentista de um posto na praça Cardeal Arcoverde, para um grupo de meninos e pais. "Aumentou hoje o movimento de pessoas por causa da reabertura gradual do comércio. Até ontem mal via gente nas ruas."

Lojas de conveniência burlavam decreto ao funcionar como padarias no Rio de Janeiro - Caio Blois/UOL
Lojas de conveniência burlavam decreto ao funcionar como padarias no Rio de Janeiro
Imagem: Caio Blois/UOL

A lojinha por trás das bombas de combustível funcionava normalmente, com os funcionários de máscaras e luvas. Nada que tenha mudado, já que apesar da vedação pela prefeitura, o estabelecimento não parou, com a desculpa de funcionar como uma padaria.

Em Vila Isabel e Andaraí, na zona norte, conveniências de postos de gasolina também funcionavam normalmente, sem esquema de drive-thru, com consumo de produtos no interior do estabelecimento.

"A loja fica vazia e não cria aglomeração porque não vem ninguém. Nem para comprar pão, que é o motivo de estarmos abertos esse tempo todo", explicou Joana.

No Grajaú, bairro vizinho, seu José, 77, dono de uma loja de ferragens, não temia a covid-19: "Já tive dengue cinco vezes e não morri", disse.

Rescisões durante quarentena

Em uma lavanderia na rua Rodolfo Dantas, o movimento era muito pequeno, conforme relatou a atendente. Das três lojas de Copacabana apenas duas funcionavam com rodízio entre os empregados.

"Fizemos a rescisão de uma funcionária que está no grupo de risco para que ela possa receber o seguro-desemprego, mas só porque ela já é aposentada e isso não iria atrapalhar tanto a vida dela. Vamos recontratá-la assim que as coisas voltarem ao normal", promete a proprietária Gabriela Mendes

"Também vamos dar férias a outras duas funcionárias que estão no grupo de risco por problemas de saúde. Para duas lojas funcionarem em rodízio está ao menos se pagando e sem prejuízo para elas, mas o movimento reduziu em cerca de 70%", calculou.

Lavanderia usou criatividade para não prejudicar funcionários durante coronavírus - Caio Blois/UOL
Lavanderia usou criatividade para não prejudicar funcionários durante coronavírus
Imagem: Caio Blois/UOL

Prática semelhante foi adotada por Antônio, dono de um posto de gasolina 24 horas em São Cristóvão. Além do rodízio, fez a rescisão de funcionários pela CLT, com a promessa de recontratá-los após o fim da quarentena.

"Adiantei o que podia no ato da rescisão. Enquanto tiver comida no meu prato não faltará no deles. Infelizmente não pude pagar tudo de uma vez, mas estou fazendo contas para fazer isso o mais rápido possível ainda que zere o caixa dessas últimas semanas", declarou o português de 64 anos.

Fake news nas ruas do Rio

Em um café que leva o nome do bairro do Flamengo, também na Zona Sul, o dono Gabriel Fontes utilizava um balcão para impedir a entrada de clientes. O atendimento era feito ali, mantendo o distanciamento recomendado pela OMS (Organização Mundial da Saúde) e com um pote de álcool em gel disponível.

"Cada dia ouço uma fake news diferente por aqui. E vejo mais gente nas ruas após as declarações do Bolsonaro. O movimento está bem ruim para nós, que somos comerciantes de bairro, mesmo com o delivery. Caiu cerca de 80%", afirmou Gabriel.

Dono de café no Flamengo se assusta com desinformação por coronavírus: "Todo dia uma mentira nova" - Caio Blois/UOL
Dono de café no Flamengo se assusta com desinformação por coronavírus: "Todo dia uma mentira nova"
Imagem: Caio Blois/UOL

A lanchonete segue abrindo porque o custo para isso é baixo, mas o proprietário teme pelo futuro durante a quarentena. "Esse mês já está pago. Por sorte, consegui juntar uma reserva que queimei agora. Minha preocupação maior é com o quadro de funcionários, não atrasar nada deles. Se durar mais meses, não sei como vai ser", opinou.

Antônio, do posto de gasolina em São Cristóvão, também lamentou a proliferação de notícias falsas. "Ouço muitas mentiras dos clientes, que não acreditam em recomendações básicas de saúde das autoridades. Também, com o discurso do presidente, quem é eleitor e não estudou muito acaba confiando", reclamou.

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