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Washington Post: favelas do Brasil organizam própria luta contra a covid-19

Paraisópolis, em São Paulo (maio de 2020); moradores tomaram medidas para conter a doença - Gloria Maria / UOL
Paraisópolis, em São Paulo (maio de 2020); moradores tomaram medidas para conter a doença Imagem: Gloria Maria / UOL

Do UOL, em São Paulo

11/06/2020 15h15

O jornal The Washington Post, dos Estados Unidos, publicou hoje uma reportagem intitulada "Favelas do Brasil, negligenciadas pelo governo, organizam sua própria luta contra o coronavírus", que mostra a situação de moradores de comunidades carentes em meio à pandemia da covid-19.

A publicação mostra a história de Laryssa da Silva, de 24 anos, que perdeu seu emprego em um restaurante em março e que virou uma das 400 "presidentes de rua" na favela de Paraisópolis, em São Paulo. Mãe solo, Laryssa é responsável por comprar comida e demais utensílios e ainda distribuir máscaras e álcool em gel para 70 famílias de sua viela.

"Nós desempenhamos o papel do governo", afirmou ela. "A covid-19 já está chegando muito perto de nós, pessoas infectadas na comunidade, com mortes acontecendo. Mas melhor que o medo é o sentimento de ajudar os outros", disse ao jornal.

Laryssa participou de um curso de primeiros socorros de seis horas, liderado pelo corpo de bombeiros local, que lhe mostrou como monitorar a progressão do vírus, quando chamar uma ambulância e como ajudar pacientes que sofrem de sintomas graves.

De acordo com o Washington Post, "o programa, criado quando os casos no maior país da América Latina começaram a explodir, é uma das muitas soluções encontradas pelas pessoas das favelas do Brasil para contornar uma resposta dividida do governo. Os líderes comunitários em alguns dos bairros mais atingidos do país estão contratando suas próprias ambulâncias, criando fundos de desemprego e até construindo bancos de dados independentes para rastrear casos e mortes".

Segundo o jornal, a Associação de Moradores de Paraisópolis viu os casos começarem a subir em março e, através do presidente, Gilson Rodrigues, tomou providências. Rodrigues organizou voluntários para fazer máscaras, transformou as escolas e academias fechadas do bairro em enfermarias de isolamento e estabeleceu uma plataforma online na qual os residentes desempregados podem solicitar ajuda financeira.

A associação também contratou uma ambulância 24 horas exclusivamente para o bairro. Para pagar pelos projetos, a associação iniciou campanhas de crowdfunding.

A reportagem ainda cita que o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) criticou medidas de isolamento social impostas por governadores e se juntou a protestos pedindo a reabertura da economia. O jornal lembra que o governo Bolsonaro está com o terceiro ministro da Saúde diferente desde o início da pandemia. "Os dois primeiros (Luiz Henrique Mandetta e Nelson Teich) se recusaram a apoiar seus pedidos para acabar com as medidas de distanciamento social e promover tratamentos com hidroxicloroquina."

Por fim, o Washington Post entrevistou Sandra Jovchelovitch, psicóloga da London School of Economics, que estuda o papel da resiliência e da identidade na organização de base nas favelas.

De acordo com Sandra, as comunidades de baixa renda nos Estados Unidos e na Europa podem aprender com a resposta das favelas brasileiras. "A pandemia nunca será derrotada através de políticas de cima para baixo. É preciso haver uma ação baseada na comunidade. Dessa forma, as favelas têm muito a ensinar ao Norte [EUA e Europa]", declarou.

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