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Empresário disse ao Samu que jovem morta com tiro tinha sofrido uma queda

Condomínio de luxo Alphaville, em Cuiabá, onde uma garota de 14 anos foi morta com um tiro na cabeça - Reprodução / Google Maps
Condomínio de luxo Alphaville, em Cuiabá, onde uma garota de 14 anos foi morta com um tiro na cabeça Imagem: Reprodução / Google Maps

Aliny Gama

Colaboração para o UOL, em Recife

01/08/2020 00h23

O empresário Marcelo Martins Cestari, pai da adolescente que é investigada pela morte de Isabele Guimarães Ramos, 14, morta com um tiro na cabeça, em Cuiabá, telefonou para o Samu (Serviço de Atendimento Móvel de Urgência) informando que a vítima tinha sofrido uma queda e batido com a cabeça no chão e que estava sangrando muito. Na ligação, o empresário não diz que a menina levou um tiro na cabeça. Isabele morreu antes do socorro médico chegar ao local, na noite do último dia 12.

A filha do empresário, que também tem 14 anos, é investigada como autora do disparo que matou a garota. Cestari foi preso em flagrante delito por posse ilegal de arma de fogo e pagou R$ 1 mil de fiança para responder em liberdade provisória — depois o valor mudou duas vezes (para R$ 209 mil e R$ 10 mil), seguindo decisões da Justiça.

A polícia encontrou sete armas na mansão de Cestari, sendo duas sem registro no nome dele. A arma que disparou e atingiu a menina está registrada no nome do pai do namorado da adolescente investigada como autora do disparo. A família de Isabele questiona se a morte dela foi acidental.

Em um trecho da ligação ao Samu, divulgado ontem por diversos veículos de imprensa de Cuiabá, Cestari diz que Isabele estava perdendo muito sangue. No meio da ligação, questionado pela atendente do Samu sobre o que tinha ocorrido com a vítima, ele relata que a garota caiu e bateu a cabeça no banheiro.

"Oi, rápido, a menina caiu no banheiro, aqui no Alphaville. Tem muito sangue, está perdendo muito sangue", relatou o empresário.

A atendente questiona o que ocorreu. Ele responde: "ela caiu e bateu a cabeça, está perdendo muito sangue, perdeu dois litros de sangue. (...) É que ela está perdendo muito sangue, se não vir rápido não vai sobrar. Bel, eu acho que ela está sem respiração, rápido", disse Cestari.

A atendente pergunta o endereço e afirma que vai passar a ligação para um médico. "Rápido, moça, por favor, ela está perdendo muito sangue. Ela está desacordada, eu não estou sentindo a respiração dela."

'Áudio do Samu está no depoimento do empresário', diz defesa

Segundo o advogado Ulisses Rabanada, que atualmente faz a defesa de Cestari e da filha dele, o empresário estava no piso inferior da casa e pensou que o barulho do tiro que matou Isabele teria sido uma porta de vidro que tinha caído. Ainda de acordo com advogado, Cestari encontrou Isabele caída e a filha dele apavorada, gritando "Bel", apelido da vítima, e imediatamente telefonou para o Samu.

"Nesse diálogo ele deixa claro o que acreditava, que se tratava de uma queda. Quando houve o barulho todos estavam embaixo, no piso inferior da casa, e as duas meninas na parte de cima. Com o barulho, todos acreditaram que era uma porta de vidro que tem na parte superior que é enorme e tinha caído. Qual o sentido de ele mentir ao Samu e falar que foi uma queda se os médicos, quando chegassem minutos depois, iriam identificar que foi tiro?", alegou o advogado.

Rabanada afirma que Cestari repassou as senhas do circuito de câmeras da casa e "teve a sorte que o circuito também captou os diálogos".

"Está tudo está com a polícia. O áudio do Samu demonstra o depoimento dele e o da filha. As investigações seguem em sigilo, mas todos os elementos que constam nos autos não têm nenhum que diverge da versão que foi apresentada pela B. Ela é uma criança e está totalmente traumatizada, e confesso que esse caso é muito difícil. A gente fica consternado", diz o advogado do empresário.

A morte da adolescente

A garota Isabele Guimarães Ramos tinha ido à casa da colega, filha de Marcelo Cestari, para fazer um bolo e foi morta com um tiro na cabeça. Segundo a perícia, o tiro entrou pela narina e saiu pela cabeça da vítima. A adolescente morreu antes do socorro, dentro de um dos banheiros do imóvel.

A polícia afirmou que a cena do crime teria sido modificada e investiga o porquê. Investiga também a responsabilidade de Cestari pela filha ter manuseado uma arma de fogo e pelas armas não registradas em seu nome.

Após a morte da adolescente, a polícia encontrou sete armas de fogo na mansão de Cestari — sendo duas armas não registradas no nome dele. Por isso, Cestari foi preso em flagrante. As armas pertencem ao pai do namorado da filha do empresário, que tem 16 anos e teria levado as armas para o imóvel no dia da morte de Isabele. As famílias praticam tiro esportivo, inclusive os trigêmeos de Cestari, que têm 14 anos.

Apesar de ser milionário, o empresário pagou R$ 1 mil de fiança e foi liberado para responder pelo crime em liberdade. Depois, a pedido do Ministério Público e da família da vítima, a Justiça majorou o valor em R$ 209 mil, mas a defesa recorreu da decisão, alegando que ele passa por dificuldades financeiras, e o valor minorou para R$ 10 mil.

O namorado da filha de Cestari e o pai dele, que não tiveram os nomes divulgados, prestaram depoimento à polícia no último dia 20. Cestari e a filha foram ouvidos pela polícia no dia 14. Os conteúdos dos depoimentos não foram divulgados pela polícia.

Cotidiano