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2 meses

Filha de cozinheira asfixiada relata relação conturbada com enfermeiro

3.ago.2020 - Gilmara da Silva, 45, morreu na casa dos patrões, no Rio de Janeiro; família suspeita que houve um crime - Reprodução/Facebook
3.ago.2020 - Gilmara da Silva, 45, morreu na casa dos patrões, no Rio de Janeiro; família suspeita que houve um crime Imagem: Reprodução/Facebook

Herculano Barreto Filho

Do UOL, no Rio

04/08/2020 04h00

Uma das filhas da cozinheira Gilmara da Silva, 45, morta por asfixia na última quinta-feira (30) enquanto estava na casa dos patrões no bairro da Freguesia, zona oeste do Rio, detalhou à polícia a relação conturbada entre a sua mãe e o enfermeiro que também trabalhava no imóvel, cuidando de um casal de idosos.

A estudante de enfermagem Michelle Almeida da Silva, 24, prestou depoimento por cerca de duas horas ontem à tarde na Delegacia de Homicídios. Em seguida, contou o que disse em entrevista ao UOL.

Todo o dia, a minha mãe reclamava desse homem para mim. Ela dizia que ele trocava os curativos da patroa dela de qualquer jeito e não usava luvas esterilizadas, agravando o ferimento. Eles não tinham uma boa relação. Ele anotava até o horário de entrada e saída da minha mãe no trabalho. Parecia que ele queria que ela fosse demitida

Michelle Almeida da Silva, filha de Gilmara

Michelle relatou à polícia desentendimentos envolvendo a sua mãe e o enfermeiro, que trabalhava há apenas dois meses na casa —Gilmara estava lá havia um ano. Em um deles, a cozinheira disse ter levado uma bronca dos filhos dos patrões porque os cães estavam soltos pela casa.

"Eles ordenaram que os pais não tivessem contato com os cães. Um dia, os cães apareceram soltos. Minha mãe me disse: 'foi ele [o enfermeiro]. Ele faz essas coisas para me prejudicar'. Ele também andava pela casa com as botas sujas para que a minha mãe limpasse e arrastava os móveis, arranhando o chão", conta.

Em depoimento, a filha da vítima relatou outra história contada pela mãe, que disse ter preparado um escondidinho para o almoço e separado uma porção da refeição na geladeira para que o enfermeiro jantasse. Ela contou à filha que o enfermeiro se queixou aos patrões à noite, dizendo que não havia alimento.

3.ago.2020 - Parentes da cozinheira Gilmara da Silva, morta na última quinta-feira (30) na casa dos patrões, no bairro da Freguesia, zona oeste do Rio, foram à Delegacia de Homicídios da Capital (DHC) para acompanhar o depoimento de Michelle, filha da vítima - Herculano Barreto Filho/UOL - Herculano Barreto Filho/UOL
3.ago.2020 - Parentes da cozinheira Gilmara da Silva, morta na última quinta-feira (30) na casa dos patrões, no bairro da Freguesia, zona oeste do Rio, foram à Delegacia de Homicídios da Capital (DHC) para acompanhar o depoimento de Michelle, filha da vítima
Imagem: Herculano Barreto Filho/UOL

Sangue na varanda, relatou a polícia à filha da vítima

Michelle contou ainda um outro episódio que chamou a atenção dos policiais. Ela disse que o patrão —um idoso que sofria de depressão— foi internado no mesmo dia em que a sua mãe precisou faltar ao trabalho, porque estava indisposta. "Isso chamou a atenção dos policiais", diz.

A família de Gilmara diz que o celular dela, apreendido pela polícia, estava sujo de terra. Na cena do crime, os agentes precisaram usar luminol, substância química capaz de detectar vestígios de sangue. "O delegado me disse que achou muito sangue na varanda com o auxílio do luminol", disse Milena de Almeida, 20, a outra filha da cozinheira.

O UOL não conseguiu localizar os patrões de Gilmara para que eles contassem a versão deles. O enfermeiro, cuja identidade não foi revelada, também não foi localizado.

Por nota, a Polícia Civil informou que os parentes da vítima foram ouvidos e que as investigações estão em andamento. Uma perícia foi feita no local do crime ontem à tarde.

Conversa com irmã antes de morrer

Por volta das 11h da última quinta-feira (30), a cuidadora Maria Vilma Santos de Almeida Silva, 53, recebeu uma ligação. Do outro lado da linha, estava Gilmara, uma de suas irmãs.

A gente ficou batendo um papo. Ela estava me contando sobre os planos da reforma do apartamento. Ela realizou o sonho dela de sair do aluguel. Alguma coisa muito grave deve ter acontecido dentro daquela casa para que a minha irmã tivesse um fim desses de forma tão rápida. Até agora, a ficha não caiu. Minha irmã era carinhosa, meiga. Ela não merecia isso

Maria Vilma Santos de Almeida Silva, irmã de Gilmara

Alguns minutos após a conversa, ela recebeu outra ligação. Desta vez, era do zelador Valter Alves, 49, marido de Gilmara, que a avisou que a cozinheira tinha sido levada ao hospital porque tinha passado mal. Maria só acreditou quando ligou para uma das sobrinhas, que confirmou a história. Em seguida, veio a ligação com a confirmação da morte.

Procurado, o Corpo de Bombeiros informou não ter sido acionado para a ocorrência. Segundo a família de Gilmara, ela foi levada ao Hospital Federal Cardoso Fontes, em Jacarepaguá, zona oeste do Rio, pelos filhos dos patrões.

O atestado de óbito confirmou a morte por asfixia mecânica. Segundo o hospital, ela chegou ao local às 12h12, já sem pulsação. O corpo da cozinheira foi enterrado no sábado (1º), no Cemitério de Irajá.

Desabafo com as irmãs

Uma semana antes de morrer, Gilmara tinha desabafado com a irmã. Ela queria falar de maus-tratos que a sua patroa, uma idosa que precisava de curativos nas pernas, estaria sofrendo.

"Não vou te mentir. Ela estava muito triste. Ela gostava da patroa e chegou até a mostrar uma foto das pernas dela, com ferimentos. A minha irmã contou que o enfermeiro puxou uma atadura do pé da patroa com tanta força que saiu sangue. Ela disse que pediu que ele tivesse cuidado. O enfermeiro respondeu dizendo que esse era o trabalho dele", lembra Vilma.

A vítima também relatou à irmã que o enfermeiro costumava levar ajudantes sem comunicar aos patrões. "Em cada dia de trabalho, ele trazia um ajudante diferente", conta.

A cabeleireira Dilma de Almeida Matos, 48, também irmã de Gilmara, ouviu o mesmo relato da irmã no último encontro da família, em um almoço no dia 26 de julho.

"Ela também me mostrou a foto da perna da patroa, toda machucada. Ela disse que estava com pena da patroa, que estava sendo maltratada. Ela disse: 'Vou ter que arrumar uma maneira de falar para os filhos para ver se eles trocam de enfermeiro'. A patroa já tinha pedido para trocar. Mas os filhos achavam que não era necessário", diz.

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