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1 mês
Casal adota irmã gêmea de filha após dois anos da separação na maternidade

Aliny Gama

Colaboração para o UOL, no Recife

06/08/2020 10h41Atualizada em 06/08/2020 19h03

Resumo da notícia

  • Alice e Aline foram separadas ainda na maternidade em 2017, em Feira de Santana (BA)
  • Alice nasceu com uma anomalia na laringe e ficou hospitalizada. Os pais biológicos nunca a visitaram no hospital
  • Ao saber do caso de Alice, uma assistente social do hospital decidiu adotá-la
  • Aline foi reencontrada em 2019 pelo conselho tutelar. Os pais de Alice decidiram adotar a irmã gêmea
  • Em julho de 2020, as duas se encontraram pela primeira vez
  • Os processos de adoção de Aline e Alice estão na fase de guarda provisória

As gêmeas Alice e Aline, de dois anos e 11 meses, foram separadas assim que nasceram, ainda na maternidade em 2017, em Feira de Santana (BA). Mas a ação de um casal e do conselho tutelar tratou de uni-las novamente quase três anos depois.

No último dia 13 de julho, Alice foi buscar a irmãzinha, que estava em um abrigo para adoção em Teixeira de Freitas (BA), a 726 km de Feira de Santana (BA), cidade onde mora o casal e Alice. A adaptação de Aline com a família foi rápida, e desde então as gêmeas não se desgrudam mostrando a cumplicidade que gêmeos costumam ter.

As gêmeas são filhas biológicas de um casal de nômades, mas foram separadas ainda na maternidade. Alice nasceu com uma anomalia na laringe, chamada de laringotraqueomalacia, no HEC (Hospital Estadual da Criança), em Feira de Santana. Ela passou por uma traqueostomia (procedimento cirúrgico para abertura de orifício para fixação de uma cânula na traqueia para ajudar a respirar melhor) e ficou na UTI (Unidade de Terapia Intensiva).

Aline, que nasceu saudável, tomou destino ignorado com a mãe biológica, depois que elas receberam alta, após o parto. Desde lá, não se sabia o paradeiro delas devido à situação que a família vive, sem endereço fixo.

Assistente social do HEC, Ana Cristina de Jesus Santos Almeida, 31, soube da situação de Alice, comentou com o marido, Júlio Ramos de Almeida Neto, 34, e o casal decidiu adotar a menina. Alice estava de alta hospitalar havia três meses, mas continuava na UTI porque a família biológica não foi encontrada durante o período e também nunca a visitou.

Depois da busca sem sucesso, a Justiça informou que Alice seria levada para um abrigo para ficar à espera de adoção. Entretanto, a equipe do hospital disse que era inadequado que ela fosse para um abrigo devido aos cuidados com a saúde por conta da traqueostomia. Ana Cristina soube da situação e entrou com o pedido de guarda da menina, em julho de 2018. A autorização saiu em setembro do mesmo ano.

"Eu soube de Alice durante o trabalho. Quando a vimos, foi amor à primeira vista e demos entrada no pedido de guarda. Após a autorização, eu e meu marido passamos duas semanas na UTI do hospital em um processo de adaptação para aprender a aspirar, limpar e manusear a cânula da traqueostomia. Além disso, precisávamos saber atender as necessidades que nossa filha precisava como medicação, fisioterapias e acompanhamentos médicos", recorda Ana Cristina, enfatizando que Alice, aos dois anos, conseguiu superar o atraso motor que tinha por ter ficado tanto tempo internada em um leito de UTI.

Alice tinha a imunidade baixa devido ao tempo de UTI e teve uma pneumonia duas semanas após passar a morar com os pais adotivos. Voltou a ser internada em setembro de 2018, ficando por 40 dias no hospital. Atualmente, ela necessita de quatro aspirações e limpezas diárias na cânula da traqueostomia. O procedimento é feito pelos pais e eles contam que têm cuidado redobrado com a filha para evitar que ela adoeça.

Alice e Aline - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Gêmeas Alice (esq.) e Aline se reencontram após dois anos da separação na maternidade
Imagem: Arquivo pessoal

O "sim" a Aline

Enquanto Alice passava por este percalço, Aline estava com a mãe biológica com destino desconhecido. Porém, em setembro de 2019, a garota foi encontrada pelo conselho tutelar de Teixeira de Freitas em situação de vulnerabilidade social.

Ela foi resgatada para um abrigo e, ao mesmo tempo, o conselho tutelar procurou o casal que adotou Alice para informar o paradeiro da irmã gêmea. A Justiça dá prioridade para irmãos ficarem juntos quando são colocados para adoção. Assim que soube que Alice estava para adoção, Ana Cristina aceitou.

"Sempre procurávamos notícias de Aline e da família, mas ninguém sabia. Acreditávamos que Alice gostaria de saber da origem dela quando ficasse maior. Foi um choque aquela ligação (do conselho tutelar) e não consegui dizer não", explica Ana. Quando foi procurada, a assistente social estava grávida de Pedro, seu primeiro filho biológico com Júlio.

Aline, Alice e Pedro - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Gêmeas Aline e Alice posam com o irmão Pedro
Imagem: Arquivo pessoal

"Tive uma gestação dupla, a do Pedro, que estava grávida, e a da Aline, com a espera da autorização da Justiça para ela morar conosco. Reformamos o quarto de Alice com o berço de Pedro e a cama de Aline, porque sabíamos que ela ia chegar para nós. Só não sabíamos quando a Justiça iria autorizar", relata Ana Cristina.

O pedido de guarda de Aline foi protocolado na Justiça ainda em 2019 e a autorização da guarda provisória foi concedida 11 meses depois. Durante esse período, Aline ficou no abrigo em Teixeira de Freitas sendo acompanhada pelo conselho tutelar, Pedro nasceu e o casal ainda preparava Alice para a chegada da irmã gêmea.

A assistente social conta que mostrava foto de Aline para Alice e a garotinha dizia: "Mamãe, essa sou eu!" Mesmo assim, Ana disse que explicava à filha que era a imagem da irmã gêmea da filha e que tão logo a menina estaria morando com elas. "Conversava com ela, mas não sabia se chegava a entender", completa.

O esperado reencontro

Dois meses antes do reencontro, o casal participou de videoconferências com a menina para ajudar na adaptação. Em 11 de julho, Alice e Aline se reencontraram pela primeira vez desde a separação na maternidade. Dois dias depois, as gêmeas viajaram com os pais para casa em Feira de Santana.

O reencontro das gêmeas foi marcado por emoção, carinho e amor. O momento foi filmado. Alice se aproximou de Aline, que estava com uma cuidadora do abrigo, e foi logo acariciando o rosto da irmãzinha, que estava acanhada.

Depois, deram as mãos e, em meia hora, as duas já brincavam como se nunca tivessem sido separadas. O reencontro foi lindo. Alice é amorosa e conseguiu trazer Aline junto, chamando de amiga, de irmã
Ana Cristina de Jesus Santos Almeida, que adotou as gêmeas Aline e Alice

As semelhanças de Alice e Aline não se atêm apenas à parte física. Os pais adotivos delas destacam que elas têm o mesmo gosto alimentar e estilo musical.

"Nesses quase três anos, as suas tiveram vidas diferentes, mas o laço não foi quebrado, graças a Deus. Gostam das mesmas comidas, adoram dançar, têm preferência pelo mesmo estilo de música. É incrível a ligação que elas têm. Elas cuidam uma da outra, se amam muito e são muito cúmplices", destaca Ana Cristina.

A família das gêmeas observa que Aline, por ter ficado no abrigo e já frequentar creche, é mais independente e se adaptou muito rápido à rotina da casa e o convívio com os irmãos, já que Pedro nasceu há très meses para aumentar a família. "No segundo dia que tivemos contato com Aline, pudemos já levá-la conosco para casa. Assim que ela saiu do abrigo, aquela situação toda que viveu ficou para trás", recorda Ana.

Festa do Pedro - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Ana e Júlio comemoram mesversário de Pedro, ao lado de Alice e Aline
Imagem: Arquivo pessoal

Pai está sem emprego fixo

O casal ainda está no processo de adoção das gêmeas, que consiste em três etapas: guarda provisória, guarda definitiva e a adoção, que é quando os sobrenomes dos pais adotivos irão para a certidão de nascimento dos filhos adotivos. Os dois processos estão na fase da guarda provisória, pois devido à pandemia do novo coronavírus não foi possível fazer a solicitação ainda da guarda definitiva.

Ana Cristina e Júlio são casados há nove anos e não planejavam serem pais biológicos ou adotivos até Alice aparecer na vida deles, nem tampouco terem gêmeas. "Não pensávamos em filhos até conhecermos Alice. Nunca planejamos ser pais biológicos e adotivos, nem imaginávamos que teríamos gêmeas. Tudo foi acontecendo. Passamos de uma filha para três num curto espaço de tempo, de menos de um ano. Temos uma rede de apoio dos nossos pais, familiares e amigos para nos ajudar a cuidar das crianças. O Pedro tem três meses e Alice requer muitos cuidados devido à saúde", conta a mãe das gêmeas.

Porém, Júlio está sem emprego fixo desde que começou o processo de adoção de Aline. "Eu não imaginava que Aline iria entrar nas nossas vidas naquele momento. Fazia 15 dias que eu tinha descoberto que estava grávida, e meu marido perdeu o emprego. Ele, até agora, não conseguiu nada fixo. Mas, mesmo assim, diante das dificuldades financeiras que iríamos enfrentar com o aumento da família e a diminuição da renda familiar, imediatamente, disse um sim para Aline", explica Ana Cristina.

O marido de Ana ainda não conseguiu emprego fixo, mas não fica parado, pois precisa ajudar nas despesas da casa. Os três filhos usam fraldas, que é uma das maiores despesas do casal, além da alimentação e medicação de Alice. Mas, mesmo diante das dificuldades financeiras, o casal diz que não se arrepende de nada e que dará amor e uma família para Aline igual a oportunidade que Alice teve.

"Pensamos assim: onde come um, come dois, come três e não tivemos medo de não darmos conta. Entregamos a Deus. Estamos recebendo ajuda de familiares e amigos. Nosso apartamento é pequeno, mas cabe todo mundo. Neste momento, recebemos ajuda de mão de obra da família, pois é a principal neste momento de pandemia, principalmente porque Alice é mais frágil por conta da traqueostomia", explica Ana Cristina.

Uma rede de solidariedade foi aberta com a chegada de Aline na família. Amigos abriram uma vaquinha para ajudar nas despesas com as crianças com fraldas, alimentação, remédios para Alice. Além da campanha online, amigos divulgaram os números das contas bancárias de Ana e de Júlio.

Os dados são:

Julio Ramos de Almeida Neto
CPF: 027.537.655-96
Banco Inter - 077
Agência: 0001-9
Conta corrente: 778092-3

Ana Cristina de Jesus Santos Almeida
CPF: 028.233.205-71
Banco: Caixa Econômica Federal
Agência: 1611
Operação: 013
Conta Poupança: 00166916-4

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