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'Não durmo mais à noite', diz homem solto após prisão de 30 dias sem provas

Eduardo de Assis Fernandes, auxiliar de apoio operacional, preso na frente dos filhos por suspeita de roubo e extorsão; ligação com o crime foi por uma foto antiga no Facebook - Arquivo Pessoal
Eduardo de Assis Fernandes, auxiliar de apoio operacional, preso na frente dos filhos por suspeita de roubo e extorsão; ligação com o crime foi por uma foto antiga no Facebook Imagem: Arquivo Pessoal

Anna Laura Moura

Colaboração para o UOL, em São Paulo

03/12/2020 04h00

Eduardo de Assis Fernandes, 44, passou 30 dias na cadeia após ter sido preso na frente dos filhos enquanto preparava o jantar. Acusado de roubar dois empresários e tentar extorquir deles uma grande quantia em dinheiro, o morador de Queimados, na região metropolitana do Rio, foi detido com base em uma foto no Facebook de outro suspeito.

Solto por falta de provas, ele conta ainda ter dificuldades de fazer planos. "O amanhã a Deus pertence. Vou continuar trabalhando, como sempre fiz", diz.

Liberado no dia 22 de novembro, passou o fim de semana apreensivo. Não sabia se manteria o emprego. Na segunda-feira, veio o alívio com a manutenção do cargo. No retorno à labuta, os colegas o receberam de forma afetuosa.

"No país em que vivemos, alguém preso automaticamente é visto como bandido. Mas me deram boas-vindas e me abraçaram. Estou trabalhando em dois lugares e estou muito feliz que o ocorrido não me prejudicou profissionalmente", afirma.

Os dias em que esteve encarcerado trouxeram uma lembrança inconveniente. Ele, que não gosta de falar do assunto, relata que foi abandonado pelo pai ainda muito novo e jurou que jamais deixaria sua família só. Aos seus olhos, a prisão injusta o forçou a descumprir a promessa.

"Eu os deixei obrigatoriamente e sofri muito durante todo o tempo em que estive preso. Senti saudade, desespero e tristeza", diz. Durante o tempo na cadeia, ele teve pesadelos, não comia e ficou cabisbaixo boa parte dos dias. "Eu preciso esquecer aqueles momentos."

Medo na volta para casa

Sem contato com a mulher, os filhos e parentes, Fernandes sentiu medo de a família abandoná-lo. Aconteceu o oposto: houve uma recepção carregada de emoção, choro e abraços.

Fiquei muito feliz e pedi perdão por algo que não tinha feito.
Eduardo de Assis Fernandes

Ter saído da prisão não fez os sentimentos ruins irem embora. "Não consigo dormir à noite. Tenho pesadelos e acordo assustado, com medo do que pode acontecer a partir de agora", conta. Para ele, foi humilhante ir ao ônibus com seu alvará de soltura de volta para casa. "Sentia os olhares de julgamento vindos das pessoas."

Fernandes diz que se sente uma nova pessoa. "Sempre me vi como uma pessoa boa, mas achava que não precisava de Deus e hoje me sinto renovado. Vejo a vida de outra forma."

Ao ser questionado sobre suas expectativas, diz que vive "o hoje".

Eu trabalho para sustentar minha família, é só isso o que eu faço. Não preciso roubar o dinheiro de ninguém. Estão me acusando de uma mentira.
Eduardo de Assis Fernandes

O UOL entrou em contato com a advogada de Fernandes, Débora Antunes, mas não obteve resposta.

Entenda o caso

Fernandes foi preso enquanto cozinhava para seus filhos, sem provas. A única ligação do acusado ao crime foi o reconhecimento de uma das vítimas por meio de uma foto de 2016, extraída de seu perfil no Facebook.

Um dos sócios de um supermercado da cidade fluminense teve roubados R$ 109 mil no início de agosto. Ele foi abordado por um homem com boné caído sobre o rosto. Depois disso, a vítima e seu irmão, também sócio do estabelecimento, receberam mensagens no WhatsApp com ameaças contra seus familiares caso não pagassem uma quantia em dinheiro.

No pedido de prisão temporária, a Polícia Civil diz que os chantagistas se identificaram como integrantes do Comando Vermelho do Morro do Simão, em Queimados. No entanto, Fernandes não mora no Morro do Simão nem nunca teve qualquer envolvimento com o tráfico de drogas.

A polícia decidiu averiguar ex-funcionários do supermercado. Chegou a um rapaz de 25 anos que havia sido demitido por justa causa meses antes. Para o delegado José Afonso Mota, titular do 55º DP de Queimados, ele pode ser o articulador dos crimes por conhecer a rotina do lugar. Ele também foi preso, apesar de não haver provas que indiquem sua participação no caso.

Para a polícia, Fernandes está envolvido no roubo devido à sua proximidade com o rapaz que trabalhou no supermercado —eles são concunhados. Em uma das diligências, um dos empresários apontou Fernandes como autor do roubo ao ver a sua foto na lista dos amigos na página do Facebook do rapaz preso.

Com base nessa investigação, a polícia pediu e o juiz Luiz Gustavo Vasques, da Comarca de Queimados, autorizou a prisão temporária, agora revogada. Em sua decisão, ainda que reconhecesse a ausência de elementos na investigação, o magistrado mandou Fernandes para a cadeia.

Conclui-se que ainda há muitos passos a serem dados ao longo da investigação, sendo essencial a segregação do suspeito para a livre e desembaraçada colheita de provas.
Luis Gustavo Vasques, juiz da Comarca de Queimados

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