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Executivo do Carrefour admite "erro" em morte, mas cita 'sociedade racista'

Manifestantes protestam em frente a unidade do Carrefour em Boa Viagem, no Recife - Julio Gomes/Estadão Conteúdo
Manifestantes protestam em frente a unidade do Carrefour em Boa Viagem, no Recife Imagem: Julio Gomes/Estadão Conteúdo

Luciana Amaral

Do UOL, em Brasília

04/12/2020 17h55Atualizada em 07/12/2020 14h40

O vice-presidente de Relações Institucionais do Grupo Carrefour Brasil, Stéphane Engelhard, afirmou a deputados federais que a empresa errou no episódio de agressões que resultaram na morte de João Alberto em uma loja do Carrefour em Porto Alegre, em 19 de novembro.

No entanto, ressaltou que o caso na capital gaúcha não é apenas um problema do Carrefour, mas da sociedade brasileira, que classificou como "racista e violenta". As falas aconteceram em reunião da comissão da Câmara que acompanha as investigações da morte de João Alberto na quinta-feira (3).

"Estamos chocados que nem a sociedade em relação aos fatos que aconteceram em Porto Alegre. O que aconteceu não compactua com os valores da empresa que represento. [...] O Carrefour errou, o Carrefour falhou. Tem alguma coisa que não funcionou no Carrefour. Vou deixar isso bem claro para que não tenha dúvidas. Pode ser uma empresa terceirizada, mas a responsabilidade é nossa", afirmou.

Em outro momento da reunião virtual, após manifestações dos deputados, ele declarou: "O que aconteceu em Porto Alegre não é problema do Carrefour, é um problema da sociedade brasileira, e vamos contribuir para mudar a sociedade brasileira. O que aconteceu em Porto Alegre não é um problema só do Carrefour. Eu quero deixar isso muito claro para que não tenha dúvidas sobre isso. A sociedade brasileira é racista e violenta".

O vice-presidente de Relações Institucionais do Grupo Carrefour Brasil, Stéphane Engelhard - Reprodução - Reprodução
O vice-presidente de Relações Institucionais do Grupo Carrefour Brasil, Stéphane Engelhard
Imagem: Reprodução

Ele disse não ser uma justificativa, mas ser preciso lembrar que o número de mortes violentas no Brasil é, por vezes, maior do que a de guerras civis ao redor do mundo.

Nos primeiros seis meses deste ano, 25.712 pessoas foram mortas de forma violenta no Brasil, aumento de 7,1% em relação ao mesmo período do ano passado, segundo dados do Anuário Brasileiro de Segurança Pública de 2020, elaborado pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública e divulgado em outubro.

De 2011 ao primeiro semestre de 2020, foram 532.389 mortes violentas no país, de acordo com o Fórum.

Em quase nove anos de guerra civil na Síria, mais de 380 mil pessoas perderam a vida, sendo mais de 115 mil civis, informou o Observatório Sírio para os Direitos Humanos em janeiro deste ano.

O coordenador da comissão, deputado Damião Feliciano (PDT-PB), cobrou que a discussão não é referente a outros países e à violência brasileira, mas referente a uma questão específica.

O executivo do Carrefour citou algumas medidas tomadas pela companhia:

  • contato com a família de João Alberto;
  • afastamento dos funcionários envolvidos, mas disse que uma eventual demissão somente vai ser avaliada após conclusão do inquérito;
  • dispensa da empresa de segurança terceirizada;
  • auditoria independente;
  • criação de comitê de diversidade;
  • transmissão de fala do presidente na TV aberta;
  • e fundo de R$ 25 milhões para o combate ao racismo.

Logo após a divulgação da morte de João Alberto, o Carrefour foi desligado da Iniciativa Empresarial pela Igualdade Racial, que reúne 73 organizações signatárias.

Deputadas cobram responsabilização e temem "fuga"

As deputadas Benedita da Silva (PT-RJ) e Maria do Rosário (PT-RS) afirmaram à reportagem temer que o Carrefour fuja de uma responsabilização civil e criminal, se assim for determinado pela Justiça, por meio das ações implementadas. Ao longo da fala, Engelhard reforçou que a morte de João Alberto é "inaceitável" e o Carrefour não vai fugir das responsabilidades devidas.

Maria do Rosário considera não bastar uma admissão de erro. "É mais do que um erro. Queremos saber se é uma política da empresa", ao citar relato de que uma mulher teria sido torturada e estuprada numa sala de loja do Carrefour no Rio de Janeiro há alguns anos. O executivo negou qualquer "sala de tortura" e pediu que provas sejam apresentadas em caso de acusação.

Maria do Rosário afirmou que uma reparação tem que ser feita por meio de termo de ajustamento de conduta e ressaltou que o Carrefour seja responsabilizado no episódio de João Alberto.

Benedita da Silva pediu que as ações relatadas pelo executivo não sejam apenas "peça de propaganda" numa tentativa de serem inocentados pela Justiça. Ela diz ter havido uma prática racista no comportamento dos agentes de segurança na loja e na condução da situação por uma funcionária do Carrefour.

Assim como Maria e Benedita, a deputada Fernanda Melchionna (PSOL-RS) disse que vai buscar a responsabilização civil e criminal do Carrefour. Em sua avaliação, o Carrefour não se manifestou como agora em outros casos de violência com mobilizações menores por parte da população.

A comissão pretende criar um projeto de lei que imponha sanções econômicas a empresas com casos comprovados de racismo em suas dependências.

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