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Samuel Klein usava caixa das Casas Bahia para pagar ''garotas de programa''

20.nov.2014 - O fundador das Casas Bahia, o empresário Samuel Klein - Janete Longo/Folhapress/Arquivo
20.nov.2014 - O fundador das Casas Bahia, o empresário Samuel Klein Imagem: Janete Longo/Folhapress/Arquivo

Pedro Lopes*

Do UOL, em São Paulo

30/12/2020 04h00Atualizada em 30/12/2020 17h01

O fundador e ex-proprietário das Casas Bahia, Samuel Klein, morto em 2014, usava o caixa de unidades da Casas Bahia para pagar "garotas de programa". É o que revelam ao menos seis condenações judiciais a pagamento de danos morais a funcionários, a que o UOL teve acesso.

Em todas as situações, o mesmo enredo: jovens garotas, às vezes de 16 anos, apontadas como "garotas de programa" (as aspas constam na decisão judicial), compareciam a diferentes lojas da rede, onde, autorizadas pelo fundador da empresa, Samuel Klein, furavam filas de clientes e recolhiam, do caixa das unidades, pagamentos que variavam entre R$ 10 mil e R$ 150 mil.

O UOL detalhou na última sexta-feira o esquema de aliciamento, prostituição e abusos sexuais de Saul Klein, filho do fundador —Samuel morreu em 2014.

As decisões judiciais indicam semelhanças entre as ações de pai e filho: jovens garotas que se relacionavam sexualmente com os empresários, em grupo, e depois recolhiam pagamentos —no caso de Samuel, em lojas da rede.

Segundo elas, havia o uso irrestrito da estrutura e recursos da Casas Bahia para a remuneração de jovens garotas que viajavam a São Paulo para passar dias com Samuel Klein. Depois das viagens, retiravam nas lojas grandes quantias em dinheiro ou mercadorias.

O advogado de Samuel Klein, João da Costa Faria, disse que os fatos são "altamente atentatórios à memória de um empresário venerado em todo o país, principalmente, por atos de inigualável solidariedade humana, com predominância aos menos favorecidos". "É lamentável que, na busca de fatos midiáticos, se permita tentar macular uma enraizada e inabalável imagem.".

Em nota, a atualmente responsável pela gestão da Casas Bahia disse que não comentará o caso. "Desde 2010, a holding Via Varejo é responsável pela gestão da Casas Bahia, período em que rede varejista deixou de ser uma empresa familiar. Portanto, a Via Varejo não comentará sobre a gestão anterior".

"Reiteramos ainda que o Sr. Saul Klein nunca possuiu qualquer vínculo ou relacionamento com a companhia", diz a Casas Bahia.

Processos no RS

O local de recrutamento favorito do Saul, o filho, era o Rio Grande do Sul, onde os processos contra Samuel Klein tramitaram —todos no TRT-4 (Tribunal Regional da Quarta Região).

Em um dos processos, de uma loja em Novo Hamburgo (RS), uma testemunha diz que recebia ligações de Samuel Klein determinando pagamentos a título de "ajuda escolar" a essas garotas.

"Em algumas oportunidades o depoente recebeu ligações da presidência do réu pedindo para que fossem separados valores para pagamento de 'ajuda escolar' e que 'meninas/garotas' passavam para receber; que essas moças costumavam estar sempre com muita pressa e que eram comum ameaçassem a dispensa do subgerente; que em algumas oportunidades o depoente era o subgerente e fez o pagamento; que não havia informação para que tipo de entidade escolar era feito o pagamento; que era comum essas moças dizerem que o que estavam ganhando era o que os funcionários ganhavam por mês; que identifica que os pagamentos se referiam a honorários de 'garotas de programa'" diz a decisão judicial, que condenou a Casas Bahia ao pagamento de R$ 15 mil em danos morais a um funcionário destratado pelas garotas.

Nesse mesmo caso, uma testemunha afirma que viu essa prática ocorrer em todas as filiais nas quais trabalhou.

Em outro processo, uma testemunha narra já ter feito um pagamento de R$ 150 mil a uma das garotas. Essa testemunha conta que as garotas eram autorizadas a recolherem seus pagamentos em qualquer filial do país, prejudicando os lucros de algumas lojas e parte dos salários dos funcionários condicionada a esses lucros. Também aponta que algumas das garotas tinham 16 anos.

"As moças viajavam para São Paulo em grupo e quando retornavam se dividiam para buscar os respectivos pagamentos nas filiais", diz o documento.

O próprio depoente chegou a fazer um pagamento de R$ 150 mil para uma só garota a pedido de Samuel Klein; que os gerentes tinham de fazer todos os esforços para realizar esses pagamentos no momento em que a garota se apresentava na filial, já que estava autorizada a receber o seu pagamento em qualquer filial do país"

"Muitas vezes a filial não dava lucro, exatamente porque tais pagamentos eram realizados, o que trazia um maior constrangimento, porque a remuneração estava vinculada ao lucro da filial; que essa prática sempre foi adotada em relação aos gerentes; que inclusive meninas entre 16 e 18 anos compareciam na loja para receber o pagamento de programas." O caso também resultou em uma sentença que condenou a Casas Bahia a uma indenização de R$ 15 mil.

Há pelo menos outros quatro casos similares, em diferentes cidades do país, mas que contém os mesmos elementos: garotas comparecendo a filiais da rede de lojas, autorizadas por Samuel Klein, para recolher pagamentos em dinheiro e, em algumas ocasiões, mercadoria. A situação gerava todo o tipo de constrangimento, de telefonemas diretos do presidente ordenando os pagamentos, a corridas, a pé, para outras filiais próximas quando faltava dinheiro no caixa.

Em diversas ocasiões, houve discussões entre as garotas e os funcionários. "Chegavam na loja em tom petulante dizendo-lhe que queriam falar com o gerente e que tinham de ser bem atendidas; que os gerentes recebiam tais mulheres e levavam-nas até a boca do caixa para receber valores, inclusive 'furando' a fila dos clientes", diz outra decisão judicial. "Algumas mulheres chegaram a dizer que ganhavam em um dia o que os vendedores levavam um mês para conseguir".

Todas as indenizações a funcionários ficaram entre R$ 10 mil e R$ 15 mil. Um acórdão (decisão em segunda instância) do Tribunal Regional do Trabalho da 4ª região ao qual a reportagem teve acesso aponta a prática como "incontroversa": "Nesse contexto, entendo incontroverso o comparecimento de 'garotas de programa', clientes do sr. Samuel, no ambiente de trabalho, as quais efetuavam cobranças pelos trabalhos prestados de forma insultante, em descaso com os trabalhadores que percebem salário mensal muito inferior aos valores que recebem 'em uma noite de serviço'.

Entenda o caso de Saul Klein

A Folha de S.Paulo revelou na última terça-feira que 14 mulheres denunciaram o filho do fundador das Casas Bahia ao Ministério Público por estupro e aliciamento. Na última quinta-feira, o UOL Esporte publicou matéria detalhando o funcionamento do esquema de prostituição, aliciamento e abusos sexuais mantido pelo empresário por uma década —a reportagem manteve, por meses, contato com mulheres que não estão entre as 14 que levaram a denúncia ao MP.

De acordo com os relatos, a rede funcionava desde 2008, com festas eventos que duravam dias, reuniam dezenas de garotas na casa de Klein, em Alphaville, e eram palco de abusos.

O empresário está com o passaporte retido pela Justiça e impedido de contatar as 14 mulheres denunciantes. Segundo sua defesa, ele contratava uma empresa para agenciar mulheres para suas festas e está sendo "vítima de um elaborado esquema de extorsão depois de cessar a contratação dela".

"Relações consensuais sacramentadas de acordo com as regras do reconhecido relacionamento 'sugar' efetivamente foram praticadas pelo sr. Saul Klein. A frequência repetitiva das modelos, que livremente frequentaram eventos do sr. Saul Klein por meses ou anos, se constitui em óbvia prova do consentimento dos relacionamentos, que se tornaram conflituosos exclusivamente na versão fraudulenta levada ao conhecimento do Ministério Público, tudo por conta de interesses patrimoniais inconfessáveis que certamente serão trazidos à tona durante o desenrolar da investigação policial", diz nota enviada à reportagem.

As mulheres relataram ao UOL que eram submetidas a controle de peso, pressionadas por terceiros a realizarem procedimentos estéticos e a manter relações sexuais com Klein, sempre sem o uso de preservativos, mediante remuneração de R$ 3.000 a R$ 4.000 por semana.

Pelo menos três garotas assinaram contratos de R$ 800 mil comprometendo-se a ficar em silêncio. O empresário alegou na Justiça que um dos acordos foi fechado sem a sua autorização, e conseguiu provar, por meio de perícia, que a sua assinatura era falsa. Os outros teriam sido assinados mediante ameaça de divulgação de fotos íntimas.

* Colaborou José Dacau

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