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"Fizeram o que polícia não fez", diz ouvidor a pais que investigaram crime

O ouvidor da Polícia, Elizeu Soares Lopes (de terno), conversa com os jovens Eryk (com uma criança no colo), Kelvin (abraçado com a esposa) e Alexssandro (sentado) e seus pais - Marcelo Oliveira/UOL
O ouvidor da Polícia, Elizeu Soares Lopes (de terno), conversa com os jovens Eryk (com uma criança no colo), Kelvin (abraçado com a esposa) e Alexssandro (sentado) e seus pais Imagem: Marcelo Oliveira/UOL

Marcelo Oliveira

Do UOL, em São Paulo

10/02/2021 04h00

O ouvidor da polícia de São Paulo, Elizeu Soares Lopes, esteve ontem (9) no Capão Redondo, na zona sul de São Paulo, com os jovens Alexssandro Marques do Nascimento, 18; Eryk Bueno Pimentel, 20; e Kelvin Nascimento de Amancio, 22. Os três passaram dois meses presos por roubo e foram soltos após os pais deles investigarem o caso e conseguirem imagens que mostravam que eles não estavam na cena do crime pelo qual foram presos pela Polícia Militar.

"Vocês fizeram o trabalho que a polícia não fez", disse o ouvidor aos pais dos jovens. Alexssandro, Eryk e Kelvin estão em liberdade provisória desde 20 de janeiro e ainda têm algumas restrições de direitos — eles não podem sair das 22h às 6h, por exemplo.

A Polícia Civil é a primeira que deveria fazer o controle do trabalho da PM. Se a autoridade policial, que é o delegado, vê que a informação que a PM traz não faz sentido, ele tem que se negar a autuar os presos em flagrante."
Elizeu Soares Lopes, ouvidor da polícia

A ouvidoria abriu um procedimento sobre o caso no dia 18 de janeiro e cobrou informações das corregedorias de ambas as polícias. No dia 20, mesmo dia em que o UOL noticiou o caso, a juíza Maria Fernanda Belli, da 1ª Vara Criminal, concedeu a liberdade provisória dos jovens.

Para o ouvidor, casos como o dos rapazes do Capão Redondo mostram como a pobreza é criminalizada no país. "Será que num bairro nobre eles seriam tratados assim?", questionou.

Após 20 dias de liberdade, Alexssandro, Eryk e Kelvin ainda sentem o peso da prisão e têm medo da polícia.

Bate insegurança quando vejo uma viatura."
Eryk Bueno Pimentel

Tenho medo que eles voltem e façam a mesma coisa de novo."
Kelvin Nascimento de Amancio

Eryk e Alexssandro estão em busca do primeiro emprego e Kelvin arrumou um trabalho em um lava-rápido. Alexssandro está aguardando o resultado de uma vaga e Eryk afirma que está com dificuldade de se empregar.

O UOL solicitou um posicionamento da Secretaria de Segurança Pública a respeito das declarações do ouvidor e aguarda manifestação.

Ouvidor defende polícia comunitária

Lopes defendeu uma polícia comunitária "e não uma polícia que veja a população como inimiga", disse. "O comandante da PM local tem que conhecer os moradores e as lideranças comunitárias, o pastor, o padre", defendeu o ouvidor.

A assistente social Maria Edijane Alves, articuladora da Rede de Proteção e Resistência contra o Genocídio, grupo formado por articuladores sociais que dão apoio a vítimas de violações de direitos humanos, disse que é necessário pensar em outras políticas públicas para a periferia que não apenas a intervenção policial. "Os jovens foram presos na única área de lazer do bairro", disse.

Elizeu concordou com a assistente social. "Eu cresci no Itaim Paulista [zona leste de São Paulo] numa família com dez irmãos. Sei o quanto é difícil o acesso a direitos. E esse problema não é só das famílias, mas do Estado", disse.

Amigo dos jovens segue em prisão domiciliar

O ouvidor também conheceu a tutora do jovem Rafael Marques, 21, a cozinheira Silvana Maria Marques, tia do jovem. Ela contou que o rapaz continua em prisão preventiva domiciliar. Ele não foi preso em regime fechado como seus três amigos por ter diagnóstico de transtorno bipolar e atraso em seu desenvolvimento intelectual.

Silvana não está conseguindo contato com o advogado do rapaz e a defesa dele ainda não requereu que a liberdade provisória concedida à Alexssandro, Erik e Kelvin seja estendida para ele.

"Ele só tem autorização para ir acompanhado por mim até a UBS para pegar a medicação dele ou ir ao médico", contou Silvana. O resto do tempo Rafael fica em casa.

Da esq. para a dir., Kelvin Amâncio, Eryk Pimentel e Alexssandro Nascimento, libertados há 20 dias, após dois meses presos acusados de roubo - Marcelo Oliveira/UOL - Marcelo Oliveira/UOL
Da esq. para a dir., Kelvin Amâncio, Eryk Pimentel e Alexssandro Nascimento, libertados há 20 dias, após dois meses presos acusados de roubo; os pais deles juntaram imagens que mostram que eles não estavam na cena do crime
Imagem: Marcelo Oliveira/UOL

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