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Indígenas destroem obra ilegal de igreja evangélica em cidade de PE; veja

Ed Rodrigues

Colaboração para o UOL, no Recife

27/04/2021 16h51Atualizada em 28/04/2021 07h52

Um impasse entre evangélicos e integrantes da aldeia Truka resultou na derrubada das fundações da construção de uma igreja no interior de Pernambuco. A confusão ocorreu na cidade de Cabrobó, no sertão do estado, no sábado (24). A revolta dos indígenas foi filmada e as imagens circulam nas redes sociais.

No vídeo, é possível ver dezenas de indígenas indo em direção às fundações. Eles derrubam tijolo por tijolo do que já havia sido erguido.

De acordo com moradores da cidade, a população evangélica diz ter direito a um espaço para seus cultos e, por iniciativa própria, resolveu construir um templo na Ilha da Assunção, terra indígena demarcada. Apesar da iniciativa, a Assembleia de Deus confirmou ao UOL que não tem autorização para a obra e que não apoia sua construção sem o aval legal.

A insatisfação dos indígenas ganhou ainda mais força, segundo eles, após o pastor da Assembleia de Deus de Cabrobó ter feito comentários que desagradaram os indígenas.

Segundo o cacique Bertinho, o pastor Jabson Avelino, representante da Assembleia de Deus na cidade, teria zombado dos costumes da comunidade da ilha.

"A Constituição reconhece que tem que haver respeito às nossas tradições, às nossas crenças. O pessoal está revoltado com a postura desse senhor Jabson e cansado de tantos descasos dentro do território", explicou Bertinho.

O líder da aldeia Truka explicou que em nenhum momento foi procurado e nem deu autorização para a construção da igreja.

"Não fomos procurados pelo pastor para dar anuência para referida construção. Mesmo diante da decisão da organização interna, continuaram a insistir na construção de uma igreja", disse.

Em nota, a Assembleia de Deus informou que não tem responsabilidade sobre a construção da estrutura demolida pelos indígenas. A Assembleia reconheceu que não há autorização para a obra. "Por não haver consenso entre os moradores sobre a importância da construção, não há autorização das autoridades para que a obra fosse erguida", informou.

A Assembleia de Deus concluiu que "não incentiva nem vai construir nenhum templo na região sem as devidas autorizações legais".

O UOL procurou o pastor Jabson Avelino, que reconheceu ter proferido um comentário infeliz durante uma live, mas se desculpou pelas palavras.

"Nunca tive a intenção de denegrir. Foi uma fala mal colocada por mim em uma live, a qual repassei o que me falaram. Reconheço a minha infelicidade e aproveito o momento para me retratar com os amigos indígenas."

Sobre a construção demolida, o pastor afirmou que não teve a influência da Assembleia de Deus e que foi organizada por integrantes evangélicos da aldeia.

"Eles já realizavam o culto embaixo de uma árvore. Tendo em vista a quantidade razoável de indígenas que participa dos cultos, tiveram a iniciativa de construir um lugar minimamente adequado", contou.

"É bom deixar claro que o trabalho lá tem um presbítero e três diáconos da aldeia, sendo assim, dirigidos pelos próprios indígenas", concluiu Jabson Avelino.

Por se tratar de terras de demarcação indígena, infrações contra os direitos da comunidade são investigadas pela Polícia Federal, mas o órgão informou que nenhuma denúncia havia sido feita até o momento.

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