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'Nasci para servir', diz vereador que trabalha de garçom em churrascaria

O vereador Alcihélio Lima de Negreiros, o Cecéu, da cidade de Aracruz (ES), ainda trabalha de garçom - Arquivo pessoal
O vereador Alcihélio Lima de Negreiros, o Cecéu, da cidade de Aracruz (ES), ainda trabalha de garçom Imagem: Arquivo pessoal

Maurício Businari

Colaboração para o UOL, em Santos (SP)

15/06/2021 04h00

Líder comunitário, Alcihélio Lima de Negreiros (PTC), 41, o Cecéu, foi o segundo vereador mais votado de Aracruz, no norte do Espírito Santo, em 2020, com 1.192 votos. A cidade de pouco mais de 100 mil habitantes fica a 83 km de Vitória, capital capixaba.

Desde então, ele concilia as exigências e trâmites burocráticos da Câmara Municipal com o atendimento aos clientes de uma famosa churrascaria local.

Como as sessões são nas segundas-feiras à noite e o trabalho de garçom é de quarta a domingo, não há conflito de horários. Caso surja uma sessão extraordinária ou a necessidade de estar no gabinete, seus patrões o liberam.

Nascido na pequena Nova Floresta, no interior da Paraíba, Cecéu se mudou com os pais e dois irmãos para Aracruz quando tinha dois anos.

Ele conta que o senso de coletividade vem desde cedo, do exemplo em casa. Ele observava ainda criança o trabalho comunitário que sua mãe, Maria do Livramento, fazia no bairro de Morubá.

Professora primária, foi convencida pelo irmão a viajar para o município capixaba, que oferecia melhores oportunidades de emprego do que na cidade natal.

"Meu tio trabalhava na construtora Mendes Júnior e convenceu meus pais de que a vida em Aracruz poderia ser mais favorável. Não demorou para minha mãe conseguir trabalho numa escola estadual e meu pai na antiga companhia Aracruz Florestal", diz.

O vereador Alcihélio Lima Rodrigues, o Cecéu, da cidade de Aracruz (ES), ainda trabalha de garçom - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
O líder em seu gabinete na Câmara
Imagem: Arquivo pessoal

Exemplo em casa

Eles se instalaram em Morubá, onde Cecéu mora até hoje com a esposa, Rejane, 42, a filha, Katiane, 24, e a neta de 1 ano, Maria.

"Meus pais sempre foram muito dedicados em ajudar as pessoas do bairro. Eu acompanhava as reuniões com minha mãe, observava como ela lidava com os problemas e as situações que se apresentavam. Ficava dizendo, para mim mesmo, que um dia eu seguiria com essa missão de ajudar as pessoas", diz.

Aos 16, Cecéu decidiu trabalhar. Arrumou um emprego de balconista em uma lanchonete. Após um curso profissionalizante, virou garçom e passou a ganhar o suficiente para investir em mais um curso. Desta vez, na área da mecânica.

Formado, foi ser mecânico montador e almoxarife, enquanto cursava história no polo Aracruz da Universidade Metropolitana de Santos (Unimes).

Nesse período, foi convidado para um cargo de confiança na coordenadoria de esportes da prefeitura e fez dois cursos de pós-graduação: em história social do Brasil e em EJA (Educação de Jovens e Adultos).

A essa altura, já havia assumido as tarefas da mãe como líder da Associação dos Moradores do Bairro de Morubá, atraindo para a comunidade obras importantes, como a reestruturação da unidade de saúde local.

Em 2016, se candidatou pela primeira vez como vereador, mas não se elegeu. Então prestou um exame da Secretaria de Educação estadual para se tornar professor de história no sistema prisional.

Segundo ele, os detentos eram mais fáceis de lidar do que os estudantes das faculdades particulares.

"Claro que tinha um pessoal mais difícil, sempre tem, em todos os lugares. Mas a maioria queria aprender e, para cada dia de aula, o detento ganha em troca um dia de remição de pena."

Mais tarde, foi trabalhar na Secretaria de Esportes, onde ficou por três anos, e se tornou representante da Comunidade Cristo Rei, que reúne os católicos da cidade.

"Aí uma churrascaria muito famosa aqui me chamou para trabalhar como garçom. Era um emprego fixo e eu sinceramente gosto muito de atuar nessa profissão. Quatro anos depois, fui promovido a coordenador da equipe, trabalho que realizo até hoje, sempre à noite, de quarta a domingo", conta.

Campanha custou R$ 2.000 doados por amigos

Em 2020, Cecéu tentou mais uma vez ser vereador e foi eleito desta vez, como um dos mais votados. Vê como motivos o trabalho que realizava nas comunidades e a campanha sem ofender os adversários.

Cecéu - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Cecéu mora em bairro carente de Aracruz e leva projetos para lá
Imagem: Arquivo pessoal
Sua campanha não utilizou verba de fundo partidário e usou apenas R$ 2.000 em verbas doadas por amigos e apoiadores.

Apesar de a vereança dar um salário mensal maior, de cerca de R$ 5.800 líquidos, do que seu trabalho como garçom, que paga R$ 1.800 mensais, ele não vê muita diferença entre os tipos de atendimento. Diz que servir um cliente muito exigente ou um munícipe enfurecido são a mesma coisa.

"Seja na comunidade do bairro, na churrascaria ou na Câmara de Vereadores, o pensamento é o mesmo. Aprendi que não se pode prometer às pessoas aquilo que a gente não pode cumprir. Hoje estou vereador, não sou vereador. É um cargo provisório", diz.

Conforme a tradição, está passando seus valores de zelo e dedicação para a filha, Katiane, que ensaia os primeiros passos como líder do bairro. Está no sangue da família, diz Cecéu.

"O mais importante, sempre, é atender aos anseios da coletividade, ajudar as pessoas a se sentirem melhor, não importa em que área de atuação. Nasci para servir."

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