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Jovem negro morre com tiro nas costas em ação policial em comunidade de BH

Ryan Pablo da Silva Martins Ribeiro, de 18 anos, morreu ontem após ser baleado com dois tiros, um nas costas e outro na cabeça - Reprodução/Arquivo Pessoal
Ryan Pablo da Silva Martins Ribeiro, de 18 anos, morreu ontem após ser baleado com dois tiros, um nas costas e outro na cabeça Imagem: Reprodução/Arquivo Pessoal

Rodrigo Scapolatempore

Colaboração para o UOL, em Belo Horizonte

29/06/2021 16h03Atualizada em 29/06/2021 22h17

Ryan Pablo da Silva Martins Ribeiro, um estudante negro de 18 anos, morador do Aglomerado da Serra, em Belo Horizonte, morreu ontem, após ser baleado durante uma ação da Polícia Militar na comunidade. Ele levou dois tiros, um nas costas e outro na cabeça. Um policial foi preso após a ação.

De acordo com o Boletim de Ocorrência, o rapaz chegou a ser socorrido pelos militares, mas morreu a caminho do Hospital João XXIII. Indignados, familiares e testemunhas chegaram a gravar o momento em que o rapaz foi conduzido pela viatura, já ferido, rumo ao atendimento médico.

Segundo o Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2020 (levantamento mais recente feito pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública, com dados do ano de 2019), 74,4% das vítimas de homicídio no Brasil eram pessoas negras. Entre as pessoas mortas por policiais, 79,1% são pessoas negras.

Na esfera do poder público, não existe uma divulgação transparente de dados oficiais nacionais sobre homicídios ou sobre mortes provocadas por policiais em todo o Brasil. O governo brasileiro também não disponibiliza dados nacionais sobre as investigações e punições de homicídios.

A Associação "Mulheres da Quebrada", movimento de justiça social que representa os moradores do Aglomerado, enviou um posicionamento ao UOL cobrando esclarecimentos às autoridades sobre a morte de Ryan. A porta-voz preferiu não ser identificada.

"Viver na favela é lutar pela sobrevivência. Hoje, acordamos mais tristes, mais um jovem negro foi morto no Aglomerado da Serra. Um jovem de 18 anos, cheio de sonhos e de planos, é a nova vítima do Estado e seu braço armado, que sobe as favelas com a intenção de eliminar a população pobre e negra", declarou a nota da associação.

O comunicado também cita outras ocorrências semelhantes na comunidade: "Ryan não é o primeiro, lembramos de Renilson, Jeferson e Helenilson, jovens assassinados de forma bárbara, sem direito de defesa, em seus territórios. É preciso dar um basta no abuso policial aqui e em todas as favelas. Estaremos unidas para denunciar o projeto de segurança pública que insiste em travar uma guerra contra os pobres e favelados", finaliza.

O UOL tentou contato com os familiares de Ryan, por meio da associação, mas eles preferiram não dar depoimento. A "Mulheres da Quebrada" informou que a família está extremamente abalada e vai lutar por justiça. Ainda não há informações sobre velório e enterro do jovem.

Versão da PM

Nos registros oficiais, a Polícia Militar declarou que dois policiais realizavam uma ação no Aglomerado da Serra quando cinco pessoas começaram a correr. De acordo com os agentes, foram achados drogas e rádios comunicadores com os suspeitos e houve resistência à abordagem.

Ainda conforme a versão dos militares, os jovens começaram uma briga com os policiais, quando a vítima teria tentado pegar a arma de um deles. Foi então que, segundo o registro, para se defender, o militar teria disparado duas vezes. Os outros quatro moradores mencionados não tiveram idades nem identidade informadas.

A corporação também alegou que estava em "desvantagem", "já que eram cinco pessoas contra dois PMs e que, por isso, toda a ação foi em forma de defesa".

O UOL pediu hoje mais detalhes e posicionamento à corporação, além do acesso a detalhes do B.O., mas ainda não teve retorno. A identidade do policial envolvido não foi revelada.

Em nota, a Polícia Civil de Minas Gerais informou que instaurou um Inquérito Policial "e as investigações estão em andamento pelo Departamento Estadual de Investigação de Homicídios e Proteção à Pessoa, em Belo Horizonte".

A corporação também não informou se o policial que foi preso logo após a ação ainda está detido ou já foi liberado.

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