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Secretário preso por acordo com CV teve ex-aliado de Cunha como padrinho

Raphael Montenegro, ex-secretário de Administração Penitenciária do Rio - MAGA JR/O FOTOGRÁFICO/ESTADÃO CONTEÚDO
Raphael Montenegro, ex-secretário de Administração Penitenciária do Rio Imagem: MAGA JR/O FOTOGRÁFICO/ESTADÃO CONTEÚDO

Ruben Berta

Do UOL, no Rio

18/08/2021 04h00

Preso ontem pela Polícia Federal por suspeita de fazer acordo com a cúpula do Comando Vermelho, Raphael Montenegro —exonerado do comando da Seap (Secretaria Estadual de Administração Penitenciária do Rio de Janeiro após a prisão— tem, no seu passado recente, a marca de um parlamentar que foi um dos principais aliados do ex-presidente da Câmara Eduardo Cunha (MDB).

Integrante da bancada evangélica, autor de projetos de lei como o do Dia do Orgulho Heterossexual, o deputado estadual do Rio Fábio Silva (DEM) empregou Montenegro em seu gabinete por um ano, a partir de julho de 2018. Antes, em 2015, o ex-secretário já havia sido procurador-geral do município de Seropédica, na Baixada Fluminense, reduto eleitoral de Silva.

Fábio Silva está em seu quinto mandato na Alerj (Assembleia Legislativa do Rio) e é filho do ex-deputado federal Francisco Silva, morto em 2017, de quem herdou a Rádio Melodia, voltada ao público evangélico.

Francisco foi um dos responsáveis pelo ingresso de Eduardo Cunha na política, na década de 1990. O ex-presidente da Câmara chegou inclusive a ter participação na Rádio Melodia. Mas, após ter o mandato cassado em 2016, foi abandonado por Fábio, a quem acusou de ingratidão.

Fábio Silva foi procurado pelo UOL, mas não houve retorno.

A reportagem não localizou a defesa de Raphael Montenegro.

Filho de desembargadora

Logo depois de deixar a assessoria do parlamentar, Montenegro foi convidado a integrar o governo de Wilson Witzel como chefe de gabinete da Secretaria de Governo, então comandada por Cleiton Rodrigues.

Advogado com atuação principalmente nas áreas cível e eleitoral, Montenegro é enteado do ex-relator da Lava Jato no Rio, o desembargador aposentado Abel Gomes, e filho da desembargadora Jacqueline Lima Montenegro, que foi presidente do TRE-RJ (Tribunal Regional Eleitoral do Rio) em 2017. Ambos são considerados linha dura entre os magistrados.

Pelo bom trânsito no meio jurídico, ele estava sendo cotado inclusive para ocupar uma vaga de desembargador no Tribunal de Justiça do Rio, reservada para advogados.

Em 2018, o ex-secretário chegou a atuar em processos eleitorais para Witzel, junto com o advogado Márcio Vieira Santos, que recebeu R$ 20 mil da campanha. Márcio afirmou que, "como é publicamente sabido", Montenegro é "reconhecido como bom advogado".

O ex-governador não quis se pronunciar.

Apesar de ter chegado ao Executivo com o aval de Cleiton Rodrigues, Montenegro seguiu no governo mesmo após a saída do então secretário de Governo, em julho de 2020. Aproximou-se do ex-secretário da Casa Civil, André Moura, exercendo cargos na pasta. Moura atualmente é secretário de Representação do Governo em Brasília, na gestão de Cláudio Castro (PL).

Em novembro de 2020, o advogado assumiu a Subsecretaria Geral de Administração Penitenciária. Em 29 de janeiro deste ano, ganhou o comando da pasta. Em ambos os casos, ocupou cadeiras onde estavam coronéis da Polícia Militar.

Desde a semana passada, uma provável saída de Montenegro vinha sendo cogitada nos bastidores. A sua exoneração, porém, só foi publicada hoje numa edição extra do Diário Oficial, após a notícia de sua prisão.

O governador Cláudio Castro justificou a demora alegando que estavam em andamento as negociações para a liberação do delegado federal Victor Poubel, que assume o cargo.

Poubel já tentou se aventurar na política, sem sucesso. No ano passado, obteve apenas 1.379 votos ao se candidatar para vereador no Rio pelo Cidadania.

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