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Bacharel em direito pede emprego com cartaz: 'Invisível à sociedade'

Bacharel sobrevive vendendo balas nos faróis de São Vicente e teve a ideia de fazer o cartaz pedindo trabalho  - Reprodução/Redes Sociais
Bacharel sobrevive vendendo balas nos faróis de São Vicente e teve a ideia de fazer o cartaz pedindo trabalho Imagem: Reprodução/Redes Sociais

Maurício Businari

Colaboraçao para o UOL, em Santos

20/09/2021 16h17Atualizada em 21/09/2021 08h47

O bacharel em direito Rogério de Souza, de 51 anos, está desempregado desde que a pandemia teve início. No último final de semana, ele diz ter vencido a vergonha que sentia e o preconceito por conta da necessidade, criou um cartaz improvisado pedindo trabalho e permaneceu em frente à entrada de um shopping na Praia Grande, no litoral de São Paulo.

Uma frequentadora do empreendimento fotografou o homem segurando o cartaz e postou nas redes sociais. Em menos de uma hora, a postagem recebeu mais de 7 mil compartilhamentos.

A decisão de chamar a atenção com um cartaz não foi premeditada. Segundo contou ao UOL, Rogério teve que superar a vergonha, por já não conseguir mais juntar dinheiro para o aluguel com os bicos que vem fazendo para sobreviver.

Um homem sem dinheiro é um homem morto para a sociedade. O Brasil é um país muito preconceituoso. Só por eu ter 51 anos, as empresas me negam trabalho. Eu não estou escolhendo nem o tipo de trabalho, posso ser até faxineiro. Meu sonho é voltar a trabalhar, conseguir fazer os cursos preparatórios para o exame da Ordem [dos Advogados do Brasil, a OAB] e finalmente advogar. Quero poder ajudar pessoas que, como eu, se tornaram invisíveis para a sociedade"

Formado em ciências jurídicas e sociais pela Unimes (Universidade Metropolitana de Santos), ele conta que sua vida foi marcada por dificuldades. Seu pai, que era o proprietário de uma residência onde a mãe trabalhava como doméstica, a abandonou assim que soube que ela estava grávida dele.

"Não sei quem é meu pai. Minha mãe só dizia que ele não queria me assumir como filho. Quando eu tinha 11 anos, minha mãe engravidou da minha irmã. E, assim que ela nasceu, minha mãe veio a morrer. Ataque cardíaco, disseram", conta ele.

As crianças ficaram sob os cuidados de uma tia, que não tinha condições financeiras favoráveis para criá-las com folga. Assim, Rogério teve que trabalhar desde cedo para ajudar nas despesas. Ele tomava conta de carros, entregava encomendas de bicicleta para um açougue. Quando não estava trabalhando, se dedicava aos estudos na escola.

Minha tia era muito rigorosa com a educação. Eu estudava muito, apesar de ter que trabalhar também. Eu era uma criança diferente, eu tinha muita curiosidade sobre as leis brasileiras e me interessava por assuntos da política. E, como o direito está ligado de uma certa maneira com a política, nasceu esse sonho de me tornar advogado"

Rogério conta que o tempo foi passando até que ele e a irmã casaram-se e mudaram-se da casa da tia. Unidos, tornaram-se como guardiões um do outro. Em 2013, ele conseguiu abrir um café, um negócio pequeno, mas que garantia sua subsistência e o ajudava a custear a faculdade. "Eu era o pai dela e ela, minha mãe", lembra. Porém, em 2017, quando estava se formando, a irmã foi diagnosticada com câncer.

"Eu vendi quase tudo para acabar de pagar a faculdade e ajudar no tratamento da minha irmã. Até o apartamento onde eu morava. Mas infelizmente quis Deus que ela partisse. Eu, que já estava separado da minha esposa, acabei ficando sozinho. Arrasado financeira e emocionalmente".

O bacharel manteve o café aberto até 2020, mas o negócio já estava dando prejuízo. Foi quando surgiu a oportunidade de trabalhar para uma terceirizada que presta serviços para o Poupatempo. Uma chance de continuar empregado e pagar os R$ 850,00 de aluguel da quitinete em São Vicente, onde mora até hoje.

Mas Deus tem um jeito de fazer as coisas. Não se passaram nem 40 dias e a pandemia começou. Fiquei em casa por um tempo, recebendo, mas logo veio a dispensa. Sobrevivi com os R$ 600,00 de auxílio, mas quando baixou para R$ 150,00, bateu o desespero"

Vendendo bala no farol

Para conseguir juntar dinheiro para o aluguel, Rogério começou a vender bala, água e bombons nos faróis. Muitas vezes deixou de comer para honrar o compromisso mensal com a moradia. Quando sentia muita fome e sobravam algumas moedas no bolso, ia a pé até a zona noroeste de Santos, para comer no restaurante Bom Prato, uma iniciativa do poder público no combate à fome e que comercializa refeições a R$ 1,00.

"Nesse tempo de pandemia, eu andei a pé por quase toda a cidade de Santos e de São Vicente, distribuindo currículos, procurando os amigos. Nas poucas entrevistas que consegui fazer, a idade é sempre o empecilho. Eu já cheguei a ganhar R$ 7 mil, R$ 8 mil por mês quando era vendedor. Tinha muitos amigos. Mas depois que fiquei pobre, desempregado, todos sumiram. Uma vez me negaram R$ 5,00 para comprar pão", afirma Rogério.

Quando o desespero bateu, ele teve a ideia de fazer um cartaz para pedir emprego, à mão mesmo, e ir para a porta do shopping em Praia Grande. Ele diz que recebeu provocações de alguns frequentadores e ajuda de outros. Com os R$ 50,00 que ganhou de pessoas que se comoveram com sua atitude, conseguiu completar o montante do aluguel. Mas ainda não conseguiu o tão sonhado emprego.

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