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Henry: Após ruptura, Monique e Jairinho fazem coro contra laudos da polícia

Lola Ferreira e Herculano Barreto Filho

Do UOL, no Rio e em São Paulo

27/10/2021 04h00

As defesas do ex-vereador Jairinho (sem partido) e de Monique Medeiros, padrasto e mãe de Henry Borel, encontraram um inédito ponto de concordância: o questionamento sobre a credibilidade de provas periciais produzidas pela Polícia Civil na investigação da morte do garoto de 4 anos em 8 de março no Rio.

Na primeira audiência do caso, no dia 6 deste mês, ambas as equipes de defesa questionaram a condução do inquérito, mas a partir de pontos diferentes. Agora, apesar de não ser uma estratégia unificada, convergem ao afirmar que o laudo de necropsia contém erros. A defesa de Monique também questiona a idoneidade do processo de apreensão do celular da professora.

No primeiro mês de investigação, entre março e abril, Monique e Jairinho mantinham o mesmo advogado. Após romperem, houve troca dos profissionais e cada um adotou uma linha de defesa.

Ambos se encontram presos preventivamente e respondem por homicídio triplamente qualificado.

A defesa de Jairinho escolheu a estratégia de questionar a investigação policial e afirmar que Henry foi vítima de um acidente doméstico, enquanto a defesa de Monique buscou atribuir a um relacionamento abusivo a provável omissão dela frente às agressões cometidas pelo então companheiro contra o filho.

Durante a audiência, o depoimento da babá de Henry aprofundou o fosso entre as defesas da mãe e do padrasto de Henry. Thayná de Oliveira mudou a versão dos fatos, negando ter presenciado agressões do ex-vereador contra a criança, e disse ter sido manipulada por Monique contra Jairinho.

A família da funcionária tem relações com a do ex-vereador e ela própria atuou como cabo eleitoral em campanhas de Jairinho à Câmara do Rio.

"O que mais importa é que essa mudança de versão deixa clara a tentativa da defesa do Jairinho de colocar a Monique como culpada. [A babá] estava nitidamente coagida e em sintonia com a defesa do Jairinho", disse na ocasião Thiago Minagé, advogado de Monique.

Jairinho aposta em vídeo e laudo paralelo

Ontem, o UOL divulgou com exclusividade um vídeo que mostra o então casal com Henry no elevador do condomínio onde morava na Barra da Tijuca a caminho do hospital. Nas imagens, Jairinho faz um movimento de "assoprar" a boca do menino, que está desacordado no colo da mãe.

Para a defesa de Jairinho, o registro contradiz a versão da polícia de omissão no socorro e reforça a tese de morte por acidente doméstico. "O vídeo comprova que não houve omissão de socorro. O Henry não foi assassinado, e dois inocentes estão presos", diz a advogada Flávia Fróes, responsável por um trabalho de investigação defensiva que alega a inocência de Jairinho.

Já o MP-RJ (Ministério Público do Rio de Janeiro) refuta a hipótese de acidente doméstico e diz que o conjunto de provas é suficiente para incriminar Jairinho e Monique. "Temos o laudo que comprova que o menino foi espancado, temos o histórico do réu de agressões contra crianças. Não é só o laudo pericial", afirma o promotor Fábio Vieira, que atua no caso.

Durante audiência judicial, o delegado responsável pelas investigações, Henrique Damasceno, questionou a manobra de Jairinho registrada no vídeo. "Eu posso dizer, mesmo sem ser médico, que me chama a atenção, porque soprar a boca de uma criança no colo não é minimamente o que se faz para tentar reanimá-la."

Mas Sami El Jundi, legista e perito criminal contratado pela defesa de Jairinho, reforçou no relatório paralelo com críticas aos laudos da polícia uma versão dada por Monique, em mais um indício de convergência da defesa dos réus.

"Todas as lesões [no corpo de Henry] são explicáveis até mesmo pela forma como a Monique disse que aconteceu. Ela disse ter ouvido um barulho e encontrado Henry caído. É uma descrição perfeitamente compatível com a lesão que ele tinha na cabeça", analisa. A versão citada pelo perito contratado foi relatada por Monique à polícia ainda na condição de testemunha e antes do rompimento com o ex-vereador.

Ao UOL, o advogado de Monique, Thiago Minagé, disse concordar com a tese de que o inquérito tem irregularidades. "Eu tenho certeza que esse inquérito tem chances de ser anulado", afirma.

Procurado pelo UOL na ocasião da publicação do vídeo, Damasceno se negou a responder às críticas e disse que a investigação já foi concluída.

Defesa de Monique questiona perícia do celular

Minagé avalia que a condução do inquérito pela Polícia Civil foi feita para "manipular a opinião pública".

"Foram divulgadas informações como a polícia quis, para depois, quando nós da defesa fôssemos questionar, já termos a opinião pública formada. O que eu estou pontuando é que o inquérito foi feito de forma irregular, tem muitos erros", diz o advogado.

Um relatório preliminar de perícia independente contratada pela defesa de Monique afirma que houve manipulação no arquivo que contém as mensagens de WhatsApp do celular de Monique.

O documento, assinado pelo perito Lorenzo Parodi, diz que o aparelho de Monique não foi devidamente lacrado e que, dessa forma, não é possível constatar que o celular periciado realmente pertence a ela. "O laudo é completamente falho, tudo está errado nesse inquérito. Até a apreensão dos celulares é falha", afirmou Minagé.

A partir do celular de Monique, os investigadores obtiveram a principal prova contra ela —uma troca de mensagens entre a babá de Henry e Monique em que a funcionária relata agressões de Jairinho contra a criança. O MP-RJ sustenta, com esses dados, que a mãe do menino tinha ciência da violência, mas não agiu por se beneficiar de vantagem financeira.

Na audiência na 2ª Vara Criminal do Rio houve momentos em que as duas defesas questionaram as provas técnicas. Minagé protagonizou uma discussão com o delegado Damasceno, ao questionar se o celular de Monique havia sido manipulado —citando o relatório exposto acima.

Procurada, a Polícia Civil não se manifestou sobre o relatório produzido pela defesa de Monique até a publicação desta reportagem.