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Henry: Defesa de Jairinho alega 'socorro' em novo vídeo; MP nega acidente

Herculano Barreto Filho

Do UOL, em São Paulo

26/10/2021 04h00

Um vídeo inédito obtido pelo UOL mostra o ex-vereador Jairinho (sem partido) tentando reanimar o menino Henry Borel no elevador do prédio onde a família morava, na zona oeste do Rio de Janeiro. Para a defesa do político, o registro contradiz a versão da polícia de omissão no socorro ao menino, morto em 8 de março, e reforça a tese de morte por acidente doméstico.

Já o promotor de Justiça Fábio Vieira defendeu a consistência das informações do laudo pericial e descartou a hipótese da defesa. No entendimento dele, o conjunto de provas é suficiente para incriminar Jairinho e Monique Medeiros, padrasto e mãe da criança de 4 anos, que respondem pelo crime de homicídio triplamente qualificado.

Procurada, a Polícia Civil informou que o vídeo foi analisado pela perícia e descartou a versão da defesa de tentativa de socorro na ação de Jairinho.

Nas imagens, registradas na madrugada de 8 de março, Jairinho aparece entrando no elevador seguido por Monique com a criança desacordada no colo. O padrasto então tenta reanimar Henry, sem sucesso. A mãe olha para Jairinho e parece falar algo. A imagem mostra o casal deixando o elevador com a criança.

O vídeo será anexado a um documento paralelo elaborado pela defesa de Jairinho, que sustenta a tese de acidente doméstico e contesta a versão de que o menino tenha sido assassinado.

"A mãe aparece absolutamente angustiada nas imagens. Nesse meio tempo, o Jairinho tenta fazer a respiração boca a boca. É a evidência que [Jairinho] não estava inerte", afirma o legista e perito criminal Sami El Jundi, contratado pela defesa do ex-vereador para elaborar um relatório paralelo do caso.

"O vídeo comprova que não houve omissão de socorro. O Henry não foi assassinado e dois inocentes estão presos. Estamos diante do maior erro judiciário da atualidade", contesta a advogada Flávia Fróes, responsável por um trabalho de investigação defensiva que alega inocência de Jairinho.

"Eles têm direito à ampla defesa e vão querer explorar todas as possibilidades. Mas temos o laudo que comprova que o menino foi espancado, temos o histórico do réu de agressões contra crianças. Não é só o laudo pericial. Há um conjunto de provas que incriminam Jairinho e Monique", rebate o promotor Fábio Vieira, que atua no caso.

Na primeira audiência do caso, ocorrida no dia 6 deste mês, o delegado Henrique Damasceno, responsável pelas investigações, chegou a se posicionar sobre o episódio.

"Em relação àquela manobra no elevador, eu posso dizer, mesmo sem ser médico, que soprar a boca de uma criança no colo não é minimamente o que se faz para tentar reanimar. De qualquer maneira, as imagens constam nos autos e nos relatórios de imagem".

Em seguida, Damasceno fez referência à versão do político em depoimento. "Eu perguntei para ele [Jairinho] várias vezes se ele havia feito alguma manobra de reanimação ou por que ele não havia feito. Ele disse que nunca havia feito porque nunca exerceu Medicina. Não foi um fato que passou despercebido".

A dúvida sobre a versão de acidente doméstico contada por padrasto e mãe da criança no Hospital Barra D'Or deu início a um trabalho desenvolvido por peritos que envolveu exame do corpo da criança no IML (Instituto Médico Legal), captura de vídeos, reprodução simulada no local do crime e extração de dados de 14 celulares com o auxílio de uma ferramenta israelense adquirida por cerca de R$ 5 milhões pelo governo estadual.

Peritos legistas e criminais descartaram a tese de acidente doméstico e concluíram que houve uma ação violenta que durou até três horas.

Com 23 lesões espalhadas pelo corpo condizentes com aquelas produzidas mediante ação violenta (veja abaixo ilustração da perícia), o menino morreu em decorrência de "hemorragia interna e laceração hepática causada por ação contundente", apontou o laudo da Polícia Civil.

Ainda segundo o laudo, Henry não apresentava sinais vitais no elevador. Em depoimento, três pediatras informaram que a criança chegou sem vida ao hospital.

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Perito de defesa contesta laudo

No entanto, o laudo foi contestado pelo legista e perito criminal Sami El Jundi. O nome dele ganhou repercussão nacional ao ser relacionado como testemunha de defesa de Elize Matsunaga e um dos responsáveis pela exumação do corpo de Marcos Matzunaga. O perito também foi o responsável pela análise dos problemas periciais incluída no livro "O pior dos crimes: a história do assassinato de Isabela Nardoni", do jornalista Rogério Pagnan.

El Jundi questiona a qualidade do laudo, diz que ferimentos podem ter sido produzidos durante o próprio atendimento médico e aponta imprecisões na perícia em relação às lesões no rosto do menino.

"O laudo é ruim e incompleto. Inicialmente, não há descrição de lesão na face de Henry. Depois, em complementação a um questionamento do delegado, ele fala em lesões nos lábios", afirma.

Nas imagens no elevador, não aparecem lesões no rosto, que são compatíveis com manobras médicas de intubação. A perícia não permite descartar a versão de acidente doméstico e é compatível com a narrativa de Jairinho e Monique. Nesse caso, eles podem estar dizendo a verdade e são inocentes até que se prove o contrário."
Sami El Jundi, legista e perito criminal

As três profissionais de saúde que prestaram atendimento a Henry também afirmaram que a criança chegou ao hospital com lesões, assim como indicado no laudo da necropsia.

O relatório paralelo elaborado a pedido da defesa de Jairinho aponta imprecisões relacionadas à coloração dos ferimentos encontrados no corpo de Henry. Segundo El Jundi, detalhes fundamentais para determinar quando elas ocorreram.

Ele cita ainda a lesão na cabeça como compatível com acidente doméstico —versão descartada pela polícia e acusa o delegado Henrique Damasceno, encarregado pelas investigações, de induzir a perícia.

"O ferimento na cabeça é perfeitamente compatível com a possibilidade que a perícia simulou de o Henry ter caído da cama. Mais adiante, o delegado induz o perito a falar em três lesões diferentes, anteriormente descritas como uma única lesão", diz. "Quem já trabalhou com delegado, sabe muito bem como rola a pressão em cima dos peritos."

Procurado pelo UOL, Damasceno se negou a responder às críticas e disse que a investigação já foi concluída.

A assessoria especial responsável pela perícia da Polícia Civil também foi procurada, mas não retornou o contato feito pela reportagem.