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Boate Kiss: 'Errei ao desligar os microfones', diz ex-operador de som

Hygino Vasconcellos

Colaboração para o UOL, em Porto Alegre

07/12/2021 10h49Atualizada em 07/12/2021 14h16

O ex-técnico de sonorização Venâncio da Silva Anschau, 40, reconheceu em depoimento hoje que errou ao desligar os microfones no momento do início do incêndio na boate Kiss, em Santa Maria (RS), em 27 de janeiro de 2013. Ele chorou por diversas vezes durante sua fala.

Ele estava ao lado do DJ e inicialmente não viu as chamas. O ex-integrante da banda Gurizada Fandangueira foi a 21ª pessoa a prestar depoimento no julgamento dos quatro réus acusados pelo incêndio na casa noturna, que já está no sétimo dia.

"A forma como eu vi: a banda está tocando, eu estava concentrado na tela, estava programando um efeito para a próxima música, de cabeça baixa, e a banda para de tocar. Eu reviso o equipamento e não há nada de anormal com o equipamento. Alguém sobe no palco, tem extintor, e eu fecho o áudio na banda, não tinha visão do que estava acontecendo. Eu não tenho dimensão, não imagino o que esteja acontecendo e eu desligo os microfones. Eu desabilitei o áudio. Errei. (...) Quando o rapaz sobe ao palco, eu corto o áudio", afirmou o ex-funcionário da banda, que atualmente é servidor público.

Anschau contou que estava próximo das portas da casa noturna e que a saída dele foi fácil. "Estava a três metros, cinco metros [da porta], não demorei cinco minutos para sair."

O ex-técnico de sonorização contou que, após o incêndio, não procurou atendimento médico, já que não queria deixar a esposa sozinha, grávida de 40 semanas. Porém, desde a saída da noturna, sentia falta de ar.

"Fiquei internado por cinco dias, fui internado no dia subsequente à prisão dos quatro [réus], e eu não queria ir para o hospital, eu não tive queimaduras, fui internado por exposição à fumaça. No dia em que eu fui levar minha esposa [para o parto], ela entra no centro obstétrico e eu vou para a emergência", conta o homem, explicando que a filha, Antônia, nasceu no dia 2 de fevereiro.

O ex-funcionário contou que chegou a procurar atendimento psicológico no HUSM (Hospital Universitário de Santa Maria). Porém, ao se identificar como técnico de áudio da banda, foi indagado por um dos sobreviventes sobre o que ele estava fazendo ali. "Eu levantei e fui embora", relatou.

"Eu nunca conversei com ninguém [sobre o que aconteceu na Kiss], nem com minha família eu falava sobre a tragédia."

"Reforma não tinha responsável técnico", diz arquiteta

A arquiteta e urbanista Nivea da Silva Braido afirmou que foi contatada por Elissandro Spohr, sócio da boate Kiss, em meio à reforma da casa noturna, em 2009. Na época, ele queria dicas sobre papel de parede. Por isso a profissional acabou indo até o local, fez fotos e realizou simulações em cima das imagens.

"Me surpreendi com o tamanho da obra, era uma obra grande, foi construída parede de pedra. Fiz fotos para simulação. Na oportunidade, alertei sobre o risco de não ter responsável técnico. Tinha o risco de passar algum fiscal da obra pela calçada e perceber a ausência do profissional."

Naquela altura da obra, já tinham sido gastos R$ 130 mil. "Passei proposta para assumir a reforma. Ele disse que precisaria falar com sócio [Mauro Hoffmann, um dos réus pelo incêndio na Kiss]", contou. Porém, a profissional acabou não sendo contratada.

O julgamento

Quase nove anos após a tragédia, quatro réus são julgados por 242 homicídios simples e por 636 tentativas de assassinato — os números levam em conta, respectivamente, os mortos e feridos no incêndio. Devido ao tempo de duração e estrutura envolvida, o júri é considerado o maior da história do Judiciário gaúcho.

Com o depoimento de Nivea, chega a 22 o número de pessoas já ouvidas no julgamento dos réus acusados no incêndio da boate Kiss.

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