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Boate Kiss: Sobrinho de dono diz que tinha medo de ir a velórios de vítimas

Willian Renato Machado é o segundo a depor no sexto dia de julgamento - Reprodução/TJ-RS
Willian Renato Machado é o segundo a depor no sexto dia de julgamento Imagem: Reprodução/TJ-RS

Hygino Vasconcellos

Colaboração para o UOL, em Porto Alegre

06/12/2021 14h55Atualizada em 06/12/2021 17h29

Sobrinho de um dos donos da boate Kiss, Willian Renato Machado, 27, disse que teve medo de ir aos velórios de vítimas do incêndio na casa noturna, que matou 242 pessoas e feriu outras 636. Ele, que estava na área VIP quando o fogo começou, atuava na divulgação das festas.

"Não teve como [ir aos velórios]. A gente até tinha uma vontade, minha mãe principalmente, porque tinha contato muito próximo com os funcionários, mas é uma situação que não tinha como", disse ele, durante o julgamento.

Porque a gente não sabia qual seria a reação das pessoas. A gente preferiu evitar por alguma represália. A gente tinha medo do que poderia acontecer."
Willian Renato Machado, promoter da Kiss e sobrinho de um dos donos

No dia da tragédia, ele chegou à boate já na madrugada do dia 27 de janeiro de 2013. Ele contou que, na primeira música tocada pela Gurizada Fandangueira, não houve uso de fogos de artifício. Porém, na segunda canção, foram acionados os artefatos, que estavam no chão, na lateral do palco.

"Nisso já nos causou uma surpresa. Eu vi o Marcelo [de Jesus dos Santos, um dos réus] se abaixando e voltando com uma luva com um artefato na mão. Eu não me lembro se foi aceso antes ou se veio aceso do chão. Nisso ele levantou a mão para cima, ele começou a pular e já começou uma fagulha iniciando no teto."

Com isso, ele já se direcionou para a saída da casa noturna. Machado contou que viu o tio e sócio da boate, Elissandro Spohr, conhecido como Kiko, gritando para as pessoas saírem. "Eu demorei segundos para sair. O meu maior obstáculo foi um táxi [estacionado na frente da boate]."

Do lado de fora, viu o tio "carregar uma pessoa" que estava na festa. O jovem ficou no local para ajudar e depois foi para casa. Só no dia seguinte foi hospitalizado por dois dias.

Durante o depoimento, Fernandes se recusou a ver o vídeo que flagrou o início das chamas na boate Kiss. "Tem necessidade, doutor, o senhor acha? Eu não gostaria de ver isso. O senhor se importaria?", perguntou o sobrevivente.

Na sequência, o juiz Orlando Faccini Neto o questionou dos motivos para a recusa. "Pela sensação. Por mais que eu seja sobrinho do Kiko, eu tenho um sentimento muito grande referente a isso", explicou. O pedido foi atendido pelo magistrado. "Até lhe peço desculpas", respondeu o sobrinho do dono da Kiss para a promotora de Justiça Lúcia Helena Callegari, que atua no júri.

"Não, até todas as outras vítimas colaboraram", disse a representante do MP. "Não é uma questão de não colaborar, mas é pelo sentimento mesmo", retrucou o depoente.

"Eu só queria que o senhor identificasse quem estava no palco. Se o senhor não quer fazer isso, tudo bem", concluiu a promotora.

Esposa de dono diz que uso de fogos não foi autorizado

Nathalia Daronch é esposa de Elissandro Spohr e estava na boate Kiss no dia do incêndio - Juliano Verardi/TJ-RS/Divulgação - Juliano Verardi/TJ-RS/Divulgação
Nathalia Daronch é esposa de Elissandro Spohr e estava na boate Kiss no dia do incêndio
Imagem: Juliano Verardi/TJ-RS/Divulgação

A esposa de Elissandro Spohr, Nathalia Daronch, 31, disse que o uso de fogos de artifício não era permitido na boate Kiss. Em depoimento, afirmou que já havia sido solicitado o uso do artefato dentro da casa, mas havia sido negado em outra ocasião.

Nathalia afirmou que não eram utilizados fogos de artifício na casa e que as decisões na Kiss eram tomadas por seu marido.

"Não cabe esse tipo [de material] dentro de um local, né? O Kiko não gostava que brincassem de Grêmio e Inter lá dentro, para não dar confusão. Era para ser uma festa tranquila, acho que ele julgaria desnecessário uso de artefato em show", disse a mulher.

Nathalia contou que estava em um espaço entre as portas de saída e não viu o início do incêndio.

"Eu lembro que o Kiko abriu os braços e disse: 'Meu Deus, saiam, saiam, abram as portas'. Nisso eu não tinha a menor ideia de que era incêndio e eu permaneci ali sentada, achei que fosse briga, confusão. Eu estava entre as duas portas e nisso as pessoas começaram a sair muito dos meus dois lados. Eu comecei a ficar apertada ali, me senti meio mal, fiquei preocupada com a gravidez."

Na época, ela estava grávida de quatro meses. "Eu tive dificuldade de atravessar a rua por causa de um táxi que estava parado bem ali na frente. Eu atravessei aquele táxi, pulei por cima dele, e me direcionei ao Carrefour. Quando eu me virei para a boate, vi que não era só uma briga", continuou a esposa de Spohr.

O julgamento

Quase nove anos após a tragédia, quatro réus são julgados por 242 homicídios simples e por 636 tentativas de assassinato —os números levam em conta, respectivamente, os mortos e feridos no incêndio. Devido ao tempo de duração e estrutura envolvida, o júri é considerado o maior da história do Judiciário gaúcho.

Machado foi a 18ª pessoa a prestar depoimento do Tribunal do Júri, que já está no sexto dia. Com Nathália, chega a 19 depoentes até o momento. Antes dele, hoje foi ouvido hoje o empresário e ex-funcionário do local Stenio Rodrigues Fernandes, 30, que disse que presenciou uma apresentação da banda Gurizada Fandangueira com uso de fogos de artifício em outro local.

O caso ocorreu em uma festa no Centro de Eventos da UFSM (Universidade Federal de Santa Maria) cerca de uma semana antes da tragédia.

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