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Após Jacarezinho, polícia do RJ ocupa Muzema; ao todo, 32 são presos

Policiais fizeram operação na Muzema e no Jacarezinho para implantar programa Cidade Integrada - Reprodução/PMERJ
Policiais fizeram operação na Muzema e no Jacarezinho para implantar programa Cidade Integrada Imagem: Reprodução/PMERJ

Lola Ferreira

Do UOL, no Rio

19/01/2022 12h25

As polícias do Rio de Janeiro ocuparam hoje a Muzema, comunidade da zona oeste dominada por milícia, e a favela do Jacarezinho, na zona norte, palco da operação policial mais letal da história do estado. As ações foram as primeiras do governo do estado para implantar o programa Cidade Integrada, uma nova versão das UPPs (Unidades de Polícia Pacificadora).

Foram presas ao menos 32 pessoas, segundo o porta-voz da Polícia Militar, tenente-coronel Ivan Blaz. Duas prisões foram feitas no Jacarezinho e o restante na Muzema. De acordo com a PM, as ações na Muzema focam no combate ao comércio ilegal de gás de cozinha e construções irregulares, atividades historicamente associadas à milícia da região.

Em 2019, o desabamento de construções irregulares (dois prédios de cinco andares) causou 24 mortes na Muzema.

Não há balanço de quantas construções irregulares foram localizadas pela PM, mas no Twitter a corporação divulga que "algumas" já foram alvos da ação.

Governador diz que planejamento durou meses

No Twitter, o governador do Rio, Cláudio Castro (PSC), afirmou que a elaboração do programa Cidade Integrada durou meses. "As operações de hoje são apenas o começo dessa mudança que vai muito além da segurança", completou o governante no Twitter.

Polícia realiza operação de ocupação no Jacarezinho, zona norte do Rio - Reprodução/TV Globo - Reprodução/TV Globo
Polícia realiza operação de ocupação no Jacarezinho, zona norte do Rio
Imagem: Reprodução/TV Globo

Castro disse que dará mais detalhes sobre o programa Cidade Integrada somente no sábado (22). A princípio, de acordo com o governador, duas comunidades receberão projetos "permanentes".

"Servirão de modelo para outros importantes lugares que sofrem com a ausência de serviços e programas que realmente colaborem para melhorar a vida de quem mora nessas áreas", diz Castro.

Além do Jacarezinho, a Polícia Militar também entrou em favelas do entorno: Manguinhos, Bandeira 2 e o Conjunto Morar Carioca.

Paes diz que não participou de planejamento

O prefeito do Rio, Eduardo Paes (PSD), disse hoje, no Twitter, que não houve qualquer planejamento integrado entre governo e prefeitura sobre o tema. No entanto, Paes afirma que foi avisado pessoalmente por Castro na noite de ontem.

"Não é verdade que tenha havido qualquer programação ou reuniões prévias com equipes da prefeitura a esse respeito", escreveu.

"Saúdo a iniciativa do governo do Estado em implementar uma política pública de restabelecimento do poder do Estado em todas as áreas do nosso território. Tenham a certeza de que a prefeitura apoiará, como sempre, qualquer ação que traga melhorias para a população carioca", diz Paes.

O que é o Cidade Integrada?

Documentos internos do governo do estado do Rio de Janeiro definem que o Cidade Integrada é um programa que prevê "investimentos em infraestrutura", com construção e reforma de equipamentos públicos, de unidades habitacionais e ações de segurança pública.

Na comunidade do Jacarezinho, algumas das ações previstas e o motivo, de acordo com os documentos, são:

  • Reforma do Campo do Abóbora: "São necessários reparos e equipamentos na base do campo, nas arquibancadas, nos espaços infantis e de lazer, na academia ao ar livre."
  • Urbanização às margens do Rio Salgado: "Inibirá a ocupação irregular, facilitará a mobilidade através da implantação de calçadas e ciclovias e melhorará as condições ambientais e paisagísticas, com a introdução da arborização."
  • Programa de videomonitoramento em 22 vias no entorno da favela, com reconhecimento facial e de placas, para "gerar dados de inteligência" e uma "melhor atuação da Polícia Militar"

Em relação ao conjunto de comunidades da Muzema, Tijuquinha e Morro do Banco, no Itanhangá, não há descrições sobre ações a serem feitas.

Os documentos apontam que, os próximos passos, envolvem ocupar as comunidades do Pavão-Pavãozinho e Cantagalo, em Copacabana, a Cesarão, em Santa Cruz, e depois Rio das Pedras e Complexo da Maré.

UPPs minguaram após intervenção federal

As UPPs foram criadas em 2008, no governo de Sérgio Cabral (MDB), com o objetivo de atuar em regiões que eram dominadas por facções criminosas, para retomar áreas dominadas pelo tráfico e aproximar a população do Estado.

Uma das ideias era de que as unidades atuassem como uma estrutura independente, justamente para desenvolver uma nova forma de atuar da polícia, mais focada no policiamento comunitário.

Mas, a partir de 2018, com a intervenção federal no Rio, unidades começaram a ser extintas. Um ano antes, porém, o programa já havia sofrido um corte de um terço de seu efetivo. Além disso, elas passaram a ser subordinadas aos batalhões da Polícia Militar, quebrando um dos objetivos do programa.

A crise fiscal fluminense foi outro empurrão contra o programa. A verba insuficiente e os poucos investimentos geravam reclamações sobre falta de equipamentos, como coletes e munição. Policiais trabalhavam com armamento obsoleto e sem gasolina nas viaturas. Até hoje, encontram-se estruturas de UPPs abandonadas e sucateadas pelo Rio de Janeiro.

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