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1 mês

Dom dava aula de inglês na Bahia: 'Motivo de jovens acordarem aos sábados'

Assassinado na Amazônia, o jornalista britânico Dom Phillips, 57, dava aula de inglês a jovens da periferia de Salvador no projeto Jovens Pensantes - Arquivo pessoal
Assassinado na Amazônia, o jornalista britânico Dom Phillips, 57, dava aula de inglês a jovens da periferia de Salvador no projeto Jovens Pensantes Imagem: Arquivo pessoal

Alexandre Santos

Colaboração para o UOL, em Salvador

18/06/2022 16h57

"Dominique, seus alunos te aguardam." A mensagem acompanha um dos últimos registros em que Dom Phillips, 57, aparece ao lado da turma para a qual dava aulas de inglês na periferia de Salvador.

A publicação foi feita há uma semana, quando ainda havia esperanças de que o jornalista britânico e o indigenista Bruno Araújo, 41, fossem encontrados vivos.

O UOL conversou com pessoas que conviveram com Dom no período em que deu aulas no projeto social Jovens Pensantes, mantido pela Aemba (Associação Emília Machado-Bahia) na capital baiana.

Todos se dizem chocados com o brutal assassinato do professor —ele e Bruno foram mortos a tiros, esquartejados e enterrados na mata na região do Vale do Javari.

"Foi tudo muito cruel para todos que aguardavam o retorno deles", lamenta Edlane Leal, vice-presidente da instituição que leva o nome da fundadora.

"Foi um baque muito forte quando recebi, na segunda (13), a notícia que tinham encontrado os corpos", contou. Edilane disse que não sabia como dar a notícia aos alunos, que já estavam lidando há dois meses com o luto após a morte da presidente da associação. "Os jovens ainda estão sentindo muito a perda dela, que era muito presente na vida deles. Agora mais essa", lamenta.

Embora a entidade esteja localizada no bairro de Marechal Rondon, suas ações incluem público de qualquer parte da cidade. Além do aprendizado em inglês e espanhol, a instituição mantém uma parceria com a Ufba (Universidade Federal da Bahia) que garante a oferta de cursos de informática e topografia.

Segundo Edlane, no início, em 2017, o Jovens Pensantes recebia 15 alunos. Até pouco antes da pandemia, em março de 2020, chegou a ter 200 alunos. Mas foi só há cerca de seis meses que o jornalista britânico tornou-se professor voluntário.

"Alguns jovens já tiveram aulas de inglês e espanhol com intercambistas de vários países em 2019. Com Dom, as aulas iniciaram em dezembro de 2021. Ele chegou para conhecer o projeto através de integrantes da Ufba. Gostou e se ofereceu para ministrar as aulas", explica a vice-presidente da Aemba.

As aulas ocorriam nas manhãs de sábado.

A última vez em que Dom esteve em sala de aula foi em 28 de maio. Seu retorno estava previsto para 9 de julho, depois do recesso junino.

"Tínhamos total esperança de que ele fosse, sim, se encontrado com vida, que retornaria dar aulas", diz Edlane.

Ela afirma que a associação deve procurar um outro professor de inglês para o projeto. Por enquanto, a preocupação é cuidar do psicológico dos jovens. "É revoltante tudo que tem acontecido com nosso país."

O jornalista britânico, que vivia no Brasil há 15 anos, residia há 1 ano em Salvador. Antes, morou no Rio. Dom Phillips escrevia para o jornal The Guardian sobre questões ambientais e problemas enfrentados pela população indígena. Ele estava prestes a concluir o livro "Como salvar a Amazônia?".

Bruno, por sua vez, trabalhava com ribeirinhos e indígenas do Vale do Javari, região afetada pela ação de invasores. Segundo testemunhas, sofria ameaças constantes de garimpeiros, madeireiros e pescadores que atuavam em terras indígenas.

Didática diferenciada e músicas dos Beatles

Maiara, 15, também contou ter esperado pela volta do professor "Dominique" —Dominic era seu nome de batismo.

"É triste ver que o motivo de muitos jovens acordarem cedo nos sábados não está mais aqui. É muito triste o descaso de algumas pessoas diante da luta de outros, que são chamados de 'aventureiros' por estarem lutando por uma causa que não é só deles. E, realmente, não era, pois nem do país ele [Dom] era. Mesmo assim, ele se dispôs a lutar e a mostrar ao mundo o que realmente acontece, e foi brutalmente assassinado", relatou a adolescente, referindo-se a uma afirmação feita pelo presidente Jair Bolsonaro (PL), que classificou a atuação de Dom e Bruno como "aventura".

A aluna Adrielle, 19, postou nas redes sociais que guardará todos os bons momentos em que esteve com Dom. "Infelizmente, o senhor não está mais aqui. Me lembro até hoje, em dezembro do ano passado, quando todos nós te conhecemos. Quando nosso anjo da guarda [a então presidente Emília] o apresentou e você disse que daria aula de inglês. Ficamos muito felizes e aprendemos muito também", postou.

Para os alunos, Dom tinha uma didática diferenciada, com métodos que facilitavam o aprendizado. Dentre outros recursos, o britânico usava apostilas com exemplos do cotidiano, conversava e fazia perguntas em inglês. Fã de Beatles, utilizava músicas do grupo compatriota para treinar o vocabulário da turma.

Assassinados na Amazônia

Dom e Bruno foram vistos pela última vez por volta das 7h do dia 5 de junho, a bordo de um barco, e sumiram no trajeto entre a comunidade ribeirinha São Rafael e a cidade de Atalaia do Norte (AM), onde eram aguardados por duas pessoas ligadas à Univaja (União dos Povos Indígenas do Vale do Javari). Após um atraso de mais de duas horas na chegada da dupla, as buscas começaram.

Na última terça (14), Amarildo da Costa Oliveira, conhecido como Pelado, confessou ter assassinado Dom e Bruno a tiros. O irmão dele, Oseney da Costa Oliveira, o Dos Santos, foi preso no mesmo dia. Apontado como terceiro suspeito, Jefferson da Silva Lima, apelidado de Pelado da Dinha, entregou-se neste sábado (18). A PF (Polícia Federal) busca por um quarto suspeito.

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