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Festa, bar e briga com a mãe: as últimas horas antes de PM matar irmã no RJ

PM Rhaillayne Oliveira de Mello, que confessou ter matado a irmã no Rio de Janeiro - Reprodução/Polícia Civil
PM Rhaillayne Oliveira de Mello, que confessou ter matado a irmã no Rio de Janeiro Imagem: Reprodução/Polícia Civil

Lola Ferreira

Do UOL, no Rio

05/07/2022 04h00

Presa desde o sábado (2), a policial militar Rhaillayne Oliveira de Mello, 30, passou por vários episódios de briga na noite de sexta (1º) até atirar contra o peito da irmã Rhãyna Oliveira de Mello, 23, e a matar em um posto de gasolina em São Gonçalo, região metropolitana do Rio de Janeiro.

De acordo com depoimentos da própria PM, seu marido — que também é policial militar — e testemunhas do crime, Rhaillayne estava bebendo há aproximadamente 12 horas no momento em que disparou contra a irmã. Relatos indicam que ela discutiu com ao menos quatro pessoas, além de Rhãyna: sua mãe, um motorista da Uber, o dono de um bar e sua outra irmã, que está grávida. Em seu depoimento, ela afirma não lembrar de vários momentos da noite.

O marido de Rhaillayne disse em depoimento que nunca havia presenciado brigas físicas entre a família da PM, apenas discussões para que se aproximassem mais.

Com base nos depoimentos, o UOL reconstruiu as últimas horas da PM antes do assassinato da irmã.

Noite de 1º de julho teve briga em carro

Segundo os depoimentos, Rhaillayne saiu de casa por volta das 20h30 de sexta-feira (1º) para ir à festa de uma tia. No local, ela esteve com a mãe, a irmã assassinada e a irmã grávida. O pai do bebê desta irmã prestou depoimento à DH, por ter estado com Rhãyna naquela noite e ser amigo de longa data da jovem.

O primeiro episódio turbulento aconteceu dentro do carro da Uber que Rhaillayne, sua mãe e sua irmã grávida estavam ao sair da festa. De acordo com os depoimentos, Rhãyna não estava no carro.. A PM começou a agir de uma forma desagradável com o motorista por considerá-lo "suspeito", então a mãe e a irmã repreenderam a atitude.

Neste momento, de acordo com depoimentos, Rhaillayne chegou a agredir as duas fisicamente e a irmã grávida teria ficado com marcas de arranhões no corpo — mãe e irmã ainda não prestaram depoimento.

Enquanto tudo isso acontecia, Rhãyna estava em um bar com o amigo. Ela soube da briga das três porque recebeu mensagens no celular e até uma fotografia de sua irmã grávida agredida.

Da esquerda para direita: a PM Rhaillayne Oliveira de Mello e a irmã Rhayna Mello - Reprodução/Facebook - Reprodução/Facebook
Da esquerda para direita: a PM Rhaillayne Oliveira de Mello e a irmã Rhayna Mello
Imagem: Reprodução/Facebook

Na madrugada, PM pegou arma e dançou com irmã

Por volta das 3h, após discutir com mãe e irmã, Rhaillayne foi até a sua casa e pegou sua arma funcional. O marido da PM estava dormindo e não soube, no momento em que ela entrou em casa, que ela havia ido buscar a pistola.

Ao voltar para a rua, Rhaillayne sentou sozinha no bar chamado Nando's. Às 3h48, a mãe da PM ligou para o genro e contou da briga entre as três, e que Rhaillayne estava muito nervosa. Com o relato, o marido de Rhaillayne procurou a arma dela em casa e não encontrou. Às 4h, a irmã grávida da PM também ligou para o cunhado se dizendo preocupada.

Antes de sair de casa em busca da esposa, o marido de Rhaillayne ligou para o sogro, que disse que não iria procurar a filha porque o encontro dos dois poderia "piorar a situação". Entre 4h30 e 4h45, Rhãyna contou ao cunhado onde Rhaillayne estava — não fica claro se por mensagem ou ligação. Por volta das 4h45, o PM encontrou a esposa no Nando's, ainda sozinha e aparentemente calma, mas ela se negou a voltar para a casa com o marido e continuou no bar.

Com isso, o PM deixou a esposa no bar e foi até a casa da sogra. Por volta das 6h, o marido voltou para a residência do casal. Logo após, Rhãyna informou ao cunhado — não fica claro se por ligação ou mensagem — que ficaria em um local próximo àquele em que estava Rhaillayne, mas distante para evitar qualquer discussão.

De acordo com o depoimento do amigo da vítima, ainda na madrugada Rhaillayne pediu que Rhãyna fosse encontrá-la. A cronologia dos fatos narrados indica que o convite foi feito após o marido da PM encontrá-la no Nando's, uma vez que a jovem de 23 anos, o amigo e Rhaillayne ficaram juntos até o bar fechar.

Jovem morreu na manhã do dia 2 de julho

Após receber o convite da irmã, Rhãyna foi para o bar. No local, as duas irmãs conversaram tranquilamente, se divertiram e dançaram, de acordo com o depoimento. Não há informações sobre o horário exato em que as duas se encontraram pela primeira vez.

Ainda no bar, Rhaillayne tentou intimidar o amigo de Rhãyna dizendo que "era polícia". Quando o bar fechou, a PM quis voltar para usar o banheiro e foi impedida pelo dono. Neste momento, de acordo com depoimento, Rhaillayne atirou para o alto na porta do estabelecimento. Em depoimento, a PM disse não lembrar que atirou.

Rhayna Mello foi morta pela irmã policial, que assumiu o disparo - Arquivo Pessoal - Arquivo Pessoal
Rhayna Mello foi morta pela irmã policial, que assumiu o disparo
Imagem: Arquivo Pessoal

Diante do comportamento da irmã, Rhãyna ligou para o marido da PM por volta de 7h55 porque a irmã estava "transtornada e alcoolizada" em um posto de gasolina. As irmãs começaram a discutir ali, mas os depoimentos não indicam o teor da briga.

Por volta de 8h10, o marido da PM chegou ao local e constatou que a esposa estava com claros sinais de embriaguez e continuava bebendo — a essa altura, ela já estava bebendo havia 12 horas. O PM tentou acalmar a situação entre as irmãs, sem sucesso.

A discussão piorou e elas chegaram a se agredir fisicamente. Rhaillayne também disse em depoimento que não se lembra da briga entre as duas, somente que saiu do banheiro do posto de gasolina já discutindo com a irmã.

O marido de Rhaillayne e o amigo de Rhãyna conseguiram apartar a primeira briga das duas. Quando foi separada da irmã, a PM sacou a própria arma e começou a atirar na direção de Rhãyna. O marido pediu que ela parasse de atirar, tentou se aproximar mas ficou com medo que um tiro o acertasse.

Quando a PM interrompeu os tiros, Rhãyna se aproximou e elas voltaram a brigar e Rhaillayne acertou um tiro no peito da irmã de 23 anos. O marido relata que a jovem já caiu aparentemente sem vida. Com o disparo fatal, o PM deu voz de prisão à esposa e a levou para a Delegacia de Neves (73ª DP).

Legista fala em 'psicose'

Rhaillayne admitiu em depoimento que atirou contra a irmã e que tentou socorrê-la. Ela também disse que "chegou a ver o momento em que ela ficava inconsciente".

No exame de corpo de delito, antes de ser encaminhada à prisão, Rhaillayne contou aos policiais que machucou a si mesma enquanto estava sendo conduzida à prisão: bateu com as algemas na própria testa e tentou arrancar as unhas.

O perito Celso Eduardo Jandre Boechat atesta que a PM chegou no local do exame "com comportamento sugerindo psicose ou estado pós-traumático" e "apática com os fatos relatados". Ele confirma as lesões relatadas pela PM e que ela estava sem uma das unhas da mão esquerda.

Prisão preventiva foi decretada

Em audiência de custódia realizada no domingo (3), Rhaillayne teve a prisão em flagrante convertida em preventiva.

O UOL entrou em contato com a Defensoria Pública do Rio de Janeiro, que atuou a favor da policial militar, e aguarda retorno. Na decisão do juiz, consta que o órgão chegou a pedir a concessão de liberdade provisória com aplicação de medidas cautelares, o que foi negado.

"Neste prisma, tudo indica que o restabelecimento da liberdade da custodiada gera ofensa à ordem pública, assim considerando o sentimento de segurança, prometido constitucionalmente, como garantia dos demais direitos dos cidadãos", sustentou o magistrado

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