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Mãe e filhos são soltos de cárcere privado após 17 anos: 'Não viam o Sol'

Cárcere privado: família foi mantida 17 anos presa antes de ser resgatada no RJ - Divulgação
Cárcere privado: família foi mantida 17 anos presa antes de ser resgatada no RJ Imagem: Divulgação

Marcela Lemos

Colaboração para o UOL, no Rio de Janeiro

29/07/2022 09h27

Uma mulher e seus filhos, de 19 e 22 anos, foram resgatados por policiais militares em um imóvel em Guaratiba, na zona oeste do Rio, na manhã de ontem, sob suspeita de viverem quase duas décadas sob cárcere privado. A mãe relatou que não via a luz do Sol havia 17 anos. O marido dela, que também é pai dos dois jovens, foi preso no local.

Os três estavam em um imóvel sem condições dignas de habitação. De acordo com a PM, que divulgou fotos do local, o chão era de cimento, não havia água encanada, os colchões eram sujos e sem lençol. Os filhos do casal foram encontrados amarrados e, devido ao grave estado de saúde, aparentavam ter idades entre 10 e 12 anos, segundo o capitão da PM William, responsável pelo resgate.

"Chegamos ao local após uma denúncia anônima e nos deparamos com as crianças amarradas. A nossa compreensão na hora era de que se tratava de crianças. O rapaz estava no colo da mulher. Só tivemos ciência da idade quando a gente viu os registros deles", disse o capitão, em entrevista ao UOL.

Os documentos dos jovens foram encontrados no imóvel. Devido à situação de saúde debilitada, o Samu (Serviço de Atendimento Móvel de Urgência) foi acionado. De acordo com a Secretaria Municipal de Saúde, os três apresentavam quadro grave de desnutrição e desidratação. Eles foram encaminhados para o Hospital Municipal Rocha Faria.

Ainda de acordo com o capitão da PM, os jovens não falavam e a mulher chegou a relatar incômodo com a luz do sol, após ser mantida tanto tempo em cárcere privado.

As crianças não falavam. Não sei se por conta da situação que foram submetidas, se não se desenvolveram, ou se nasceram com alguma deficiência. A mulher foi quem nos disse que estava naquela situação há 17 anos e os vizinhos confirmaram que ela nunca era vista na rua.

Ainda de acordo com o militar, o homem preso no local informou que era trabalhador e alegou os filhos tinham problemas psicológicos e por isso precisavam ficar amarrados.

"Ele não demonstrou remorso nem arrependimento em momento algum" , disse William.

O marido e pais das vítimas, que não teve o nome divulgado, foi autuado em flagrante pelos crimes de tortura, cárcere privado e maus-tratos. Procurada, a Polícia Civil informou que a investigação segue em andamento. Ainda não há informação se o suspeito já tinha anotações criminais.

"Nunca vi nada igual"

Há 15 anos na Polícia Militar, William disse que nunca viu situação igual. Chamou a atenção do capitão o estado de saúde das vítimas e as condições as quais eram submetidas no interior de uma casa na Rua Leonel Rocha, em Guaratiba.

Nunca vi nada parecido. Tenho experiência de outras unidades, a gente tem notícias de eventos negativos e absurdos, mas nada comparado a isso. Na hora, a gente pensa na família, nos filhos, mas precisamos manter o controle emocional.

Segundo ele, os vizinhos relataram que passavam comida por brechas do portão à mulher, mas que ela tinha muito medo de que o marido descobrisse a ajuda.

No local, moradores relataram à TV Globo que o caso já havia sido denunciado ao posto de saúde do bairro e ao Conselho Tutelar, mas que nada foi feito.

Procurada, a direção da Clínica da família Alkindar Soares Pereira Filho informou que notificou a suspeita de maus-tratos em 2020 ao Conselho Tutelar da região. Já o Conselho Tutelar disse que acompanha o caso há dois anos e que o Ministério Público e polícia foram acionados, mas nada foi feito até então.

Procurado, o MP disse que tomou ciência dos fatos em março de 2020 e que foi informado pelo Conselho Tutelar que o órgão "havia tomado todas as medidas pertinentes, sobretudo, quanto à notícia dos fatos ao 27º Batalhão da Polícia Militar e à Polícia Civil, gerando, inclusive, registro de ocorrência com vistas à cessação da prática do crime de cárcere privado" e que "não houve nenhuma informação posterior no sentido de que a violência não fora estancada, motivo pelo qual, está sendo apurada a atuação posterior do Conselho do Tutelar e da rede de proteção".