Facções se aliam a PCC, CV e cartéis colombianos por rotas na Amazônia

Facções locais da Amazônia têm recorrido a alianças com PCC, CV e até com cartéis colombianos para manter rotas do tráfico na região, mesmo diante do domínio das organizações criminosas de São Paulo e Rio de Janeiro.

Monitoramento para evitar desvios

A facção paraense CCA (Comando Classe A) buscou alianças para manter uma das rotas do tráfico na Amazônia. Informações obtidas com a Polícia Civil e com o Ministério Público indicam que o grupo tem estabelecido parcerias com o PCC e com ex-guerrilheiros das Farc (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia), há pelo menos oito anos.

Os cartéis colombianos têm adotado uma estratégia de paz. "No passado, eles entravam em guerra para ter o controle do mercado das drogas. Hoje, com o aumento da produção, negociam com o mercado consumidor, com as facções brasileiras e ainda atuam no tráfico internacional", disse a promotora Ana Maria Magalhães de Carvalho, coordenadora do Gaeco do Ministério Público do Pará.

Os colombianos firmaram parceria com o CCA para reduzir desvios de cargas na rota do Rio Solimões até o Porto de Barcarena (PA), de onde a droga é enviada para a Europa. "Os cartéis terceirizaram a fiscalização dessas cargas, monitoradas por facções locais que acompanham o trajeto até que elas cheguem a seu destino", informou a promotora.

[As facções brasileiras] começaram a se aproximar de narcoterroristas nos países da Colômbia, Peru, Bolívia, onde os grandes patrões do narcotráfico gerenciam a cadeia produtiva da cocaína, desde a plantação e colheita da folha de coca até o envio e destino final ao continente europeu.
Trecho de documento do Gaeco, do MP do Pará

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'Semelhante ao PCC', diz Gaeco

Investigações indicam que o CCA, também conhecido pela sigla 331, tem atuado em parceria com o PCC. O traficante Lucenildo Barbosa, líder da organização criminosa paraense, estaria escondido na Bolívia, país onde estão membros da cúpula da facção criminosa paulista.

Documento do MP, obtido pelo UOL, indica que o grupo paraense tem agido aos moldes da facção de São Paulo, expandindo a sua área de atuação. "[O CCA é] uma organização criminosa propícia a se tornar bem estruturada, semelhante ao PCC, podendo inclusive daqui a alguns anos ter status de cartel do narcotráfico", diz um dos trechos do relatório.

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Corredor logístico

O Acre é considerado por investigadores um importante corredor de passagem de drogas para estados brasileiros e outros países. Segundo o coordenador do Gaeco do Ministério Público do Acre, Bernardo Albano, o estado se tornou um "corredor logístico para o tráfico de drogas" que alimenta principalmente a rota do Solimões no Amazonas.

Enquanto o Alto Acre, no norte do estado, é dominado pelo CV, o Baixo Acre, no sul, é alvo de disputas entre as organizações. "Os grupos utilizam a rota terrestre da BR-317 para comercializar drogas para a Bolívia e alimentar pontos de comércio de drogas em território local", diz Albano.

O aumento na produção de cocaína na região de Ucayalli, na fronteira com o Peru, preocupa o MP do Acre. "Significa um aumento da pressão criminosa, mais logística de produção da folha de coca e cooptação de pessoas em zona de produção", afirma Albano. Grupos peruanos também têm negociado com as organizações brasileiras em função do interesse na região.

CV, PCC e Bonde dos 13

CV, PCC e Bonde dos 13 são as organizações criminosas que disputam rotas e mercados de drogas no estado. A Ifara (Irmandade Força Ativa Responsabilidade Acreana) perdeu força nos últimos anos e seus membros passaram a atuar em outros grupos, segundo Albano.

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Criado por lideranças locais, o Bonde dos 13 se inspirou na atuação da facção paulista. "Eles não chegam a ser dissidentes porque não queriam receber ordens de São Paulo. Mas nasceram sob influência da organização", diz Albano. Aliadas, as duas organizações disputam rotas com o CV nas regiões próximas às cidades de Brasiléia e Epitaciolândia.

Os "piratas" do Amazonas

No Amazonas, há uma disputa entre as principais facções do país, grupos colombianos, peruanos e organizações locais pelas rotas do narcotráfico pelos rios Solimões, Içá, Japurá, Envira, Negro e Javari. As informações fazem parte do estudo do Fórum Brasileiro de Segurança Pública. Ao longo desses rios, também atuam Os Crias e Cartel do Norte.

No curso do rio Solimões, os Piratas dos Solimões atuam como matadores de aluguel e promovem roubo de carregamentos de drogas de facções inimigas. A capital Manaus também é alvo de disputas entre CV, FDN, CDN e PCC.

Os municípios de Coari e Tefé garantem o escoamento de drogas para a rota do Solimões. Já Itacoatiara e a capital Manaus recebem navios que se deslocam para o exterior.

Manaus se tornou importante plataforma de exportação da droga para outros lugares do mundo, já que possui aeroporto internacional e porto de atracação de navios, que viajam para outros países e levam remessas de drogas escondidas nas cargas.
Relatório Cartografias da Violência na Amazônia Legal, do FBSP

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Briga pela capital do Amapá

No Amapá, as facções criminosas têm intensificado as atividades no estado nos últimos oito anos. Há duas organizações locais: a FTA (Família Terror do Amapá) e a UCA (União Criminosa Amapaense). Antes disso, segundo fontes da polícia do estado, estavam presentes em território amapaense "gangues" que atuavam de forma desorganizada.

Para ampliar o domínio, a FTA mantém vínculo com a facção paulista e a UCA, com a organização nascida no Rio. Há uma disputa de pontos de comércio de drogas. As organizações concentram as disputas nas zonas norte e sul de Macapá.

Membros do PCC que chegam ao Amapá têm se dedicado a "treinar" integrantes da FTA, disseminando as mesmas regras seguidas em São Paulo e em outros estados cujo domínio é do PCC. Exemplo disso são alguns condomínios de bairros de Macapá em que as regras de convivência são determinadas pelos integrantes da facção FTA.

Facção maranhense em duas capitais

Com o domínio do tráfico em São Luís, capital maranhense com mais de 1 milhão de moradores, o Bonde dos 40 expandiu a sua área de atuação para o Piauí, há pelo menos sete anos. Lá, a facção se estabeleceu na capital Teresina, indica a Polícia Civil.

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A droga que abastece essa organização criminosa vem da Bolívia, passando por rotas no Mato Grosso e em Rondônia, segundo investigações. "O Bonde dos 40 resiste à influência e ao poder das facções que vem de fora, dominando o tráfico de drogas em São Luís. No Piauí, ela disputa espaço com o Comando Vermelho", explica o delegado Ricardo Herlon Freire.

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