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Pró ou contra Bolsonaro, "xerifes" dominam disputa em capitais no Nordeste

A partir do alto, os pré-candidatos Major Denice (PT), Patrícia Domingos (Podemos) e Capitão Wagner (PROS) - Arte/UOL
A partir do alto, os pré-candidatos Major Denice (PT), Patrícia Domingos (Podemos) e Capitão Wagner (PROS) Imagem: Arte/UOL

Carlos Madeiro

Colaboração para o UOL, em Maceió*

13/09/2020 04h00Atualizada em 15/09/2020 23h07

A eleição para a prefeitura nas capitais do Nordeste foi tomada por policiais e profissionais ligados à área de segurança pública. Oito das nove cidades terão candidatos "xerifes" —apenas São Luís foge à regra—, algo inédito na região. Algumas delas terão até mais de um concorrente.

Em Aracaju, há o maior número desses profissionais e todos são delegados. Três devem ser confirmados como cabeça de chapa e uma será candidata a vice.

São pré-candidatos na capital sergipana os delegados Paulo Márcio (DC), Danielle Garcia (Cidadania) e Georlize Teles (DEM). Já delegada Katarina Feitoza será a vice na chapa do prefeito e candidato à reeleição, Edvaldo Nogueira (PDT).

Em Fortaleza, os militares são representados pelo Capitão Wagner (PROS), atual deputado federal e que vai tentar novamente disputar a prefeitura. Em 2016, ele chegou ao segundo turno, mas perdeu para Roberto Cláudio (PDT), que foi reeleito. Wagner foi líder militar e apoiou os movimentos grevistas no estado, quando ganhou popularidade. É apontado como um dos favoritos na disputa neste ano, com apoio da ala bolsonarista.

O deputado estadual Walber Virgolino (Patriota) - Alesp-PB - Alesp-PB
O deputado estadual Walber Virgolino (Patriota), candidato em João Pessoa e delegado
Imagem: Alesp-PB

Em João Pessoa, o deputado estadual Walber Virgolino (Patriota) também é delegado e se apresenta como "única candidatura de direita" na capital paraibana. Ele se diz o único com apoio do presidente Jair Bolsonaro (sem partido).

Em Salvador, o PT aposta suas fichas na Major Denice, apoiada pelo governador Rui Costa (PT). Ela terá pela frente um duelo com o vice-prefeito Bruno Reis (DEM), apoiado pelo outro líder popular do estado, o prefeito ACM Neto (DEM). Anti-Bolsonaro, Denice se destacou na liderança da patrulha Maria da Penha e em ações contra a violência à mulher e contra o racismo.

Em Teresina, o capitão PM e deputado federal Fábio Abreu (PL) vai disputar a prefeitura e também não se alinha aos ideais bolsonaristas. Ele foi secretário de Segurança Pública do Piauí entre outubro de 2019 e junho deste ano, no governo de Wellington Dias (PT). Ainda na capital piauiense, o Patriota confirmou a candidatura do major Diego Melo, presidente da Associação dos Oficiais Militares do Estado.

Já em Natal, o coronel Hélio Oliveira (PRTB) será uma das poucas vozes assumidamente bolsonaristas na disputa. Em 2019, ele se empenhou em conseguir assinaturas para a criação do partido Aliança pelo Brasil no Rio Grande do Norte. Além dele, o PSL também oficializou o delegado Sérgio Leocádio como candidato —também com aproximação ao presidente.

No Recife, a delegada Patrícia Domingos (Podemos) tem repetido em seus discursos que Recife virou a "capital dos escândalos" e que, por se tratar de "caso de polícia", a delegada é a indicada para resolver o problema. Ela foi titular da extinta Delegacia de Crimes contra a Administração e Serviços Públicos e refuta ligações com o presidente Bolsonaro ou com qualquer político que lhe sirva de "'padrinho".

Coronel da reserva da Polícia Militar, o deputado estadual Alberto Feitosa (PSC) também entra no páreo no Recife com a bandeira do combate à corrupção e ainda traz ideias bolsonaristas.

O procurador-geral do Ministério Público de Alagoas, Alfredo Gaspar de Mendonça - MP-AL - MP-AL
O ex-procurador-geral de Alagoas Alfredo Gaspar de Mendonça
Imagem: MP-AL

Em Maceió, o candidato com fama de xerife não é policial, mas sim o ex-procurador-geral de Justiça Alfredo Gaspar de Mendonça (MDB). Ele se tornou famoso como secretário de Segurança Pública no primeiro mandato do governador Renan Filho (MDB), quando foi um dos responsáveis pela queda nos números de homicídios no estado.

Em vez de cargos no Legislativo, mira no Executivo

Segundo a cientista política e professora da Ufal (Universidade Federal de Alagoas) Luciana Santana, a ocupação em massa de "xerifes" tentando o poder nas capitais do Nordeste é algo nunca visto na disputa majoritária. "Os militares ou pessoas ligadas ao tema da segurança pública já participam das eleições, mas com uma predominância mais forte a disputar cargos no Legislativo. Agora estamos notando o aumento de nomes na disputa por cargos no Executivo", afirma.

Ela diz que, apesar do número alto, não vê como uma tendência nas capitais. Para ela, a razão é o assunto segurança como pivô nas eleições destas cidades. "A conjuntura política e social no país pode influenciar e incentivar esse perfil de candidaturas, especialmente porque a segurança pública é um tema que vem ganhando destaque nos últimos anos devido ao aumento da violência em diferentes estados e regiões do país", diz.

Sobre muitos dos profissionais da segurança não serem bolsonaristas, ela lembra que o Nordeste é a região com maior índice de reprovação do presidente no país e que fatores locais acabam sendo muito determinantes em uma eleição para prefeito.

"Mesmo com um leve aumento da popularidade de Bolsonaro na região, após a execução do auxílio emergencial, não é possível verificar mudanças expressivas na percepção do eleitor. Bolsonaro teria de investir mais na região, algo que ainda não ocorreu", afirma a cientista política.

"Um comportamento diferente só ocorreu após sua proximidade com partidos do 'centrão', ou seja, há uma estratégia eleitoral em curso, mas que ainda não ganhou adesão expressiva. Isso faz com que muitos candidatos a prefeitos nas capitais nordestinas não encampem uma defesa pró-Bolsonaro, mesmo com forte atuação na área de segurança pública."

* Colaborou Aliny Gama, no Recife.