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PT chega à eleição sem nenhum prefeito nas 100 maiores cidades do Brasil

REUTERS/Amanda Perobelli
Imagem: REUTERS/Amanda Perobelli

Carlos Madeiro

Colaboração para UOL, em Maceió

22/09/2020 04h00Atualizada em 28/09/2020 14h07

Maior partido de centro-esquerda do país, o PT chega às eleições 2020 sem governar nenhuma cidade entre as cem mais populosas do país, segundo levantamento feito pelo UOL.

Em 2016, o PT enfrentava o recente impeachment da então presidente Dilma Rousseff e uma série de denúncias de corrupção, envolvendo inclusive o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que fizeram o partido sentir nas urnas o peso de uma rejeição inédita.

Ao todo, o PT elegeu 255 prefeitos, uma queda de 60% quando comparada a 2012, quando venceu 644 disputas. A única capital que conseguiu foi Rio Branco, com a reeleição de Marcus Alexandre. Mas ele renunciou em abril de 2018 para concorrer, sem sucesso, na disputa pelo governo do Acre —hoje a prefeita é Socorro Neri, filiada ao PSB.

"Realmente, 2016 foi um ano muito ruim para nós e tivemos um baixo número de candidaturas às prefeituras: foram 990 ao todo. Estávamos mais acuados, com dificuldade, em meio a uma ação muito forte de perseguição —e quando não tínhamos o mesmo espaço de defesa. As eleições retrataram esse momento", afirma a deputada federal Gleisi Hoffmann (PR), presidente nacional do PT.

O resultado ruim foi sentido em perdas marcantes nos dois principais redutos do partido. O PT foi derrotado em todas as cidades do ABC paulista pela primeira vez e não conseguiu eleger nenhum prefeito nas capitais e mesmo em grandes cidades do Nordeste.

Atualmente, o PSDB é o partido que tem mais prefeituras entre as cem cidades mais populosas do país, com 29. O MDB vem em seguida, com 15. O prefeito de Maceió, Rui Palmeira, deixou o PSDB e está sem partido.

PT prevê cenário melhor

Gleisi Hoffmann afirma que o cenário para as eleições deste ano é melhor. "Estamos avaliando que está um pouco melhor, mas não estou dizendo que está fácil", diz. "A gente conseguiu se reposicionar, mostrar o que está acontecendo no país. A Lava Jato teve vários revezes. Não existe mais o clima anti-PT, e o cenário melhorou. Podemos ver isso pelo ânimo de nossos filiados em participar da disputa. São cerca de 1.600 candidaturas", diz.

O partido ainda não faz projeções de eleições, mas Gleisi diz ter certeza que o partido elegerá prefeitos em grandes cidades. "Das 96 cidades onde há possibilidade de segundo turno, nós vamos ter candidatos em mais de 80. Em alguns locais com muita competitividade. Nós estimulamos nosso grupo a apresentar candidatos, a mostrar a cara, a se defender dos ataques", diz.

Neste ano, o partido aposta em candidatos próprios nas três maiores capitais do Nordeste: Marília Arraes (Recife), Luizianne Lins (Fortaleza) e Major Denice (Salvador). Na capital pernambucana, Marília lidera as pesquisas de intenção de voto divulgadas até aqui. "Sem dúvida vamos ter um resultado bem melhor do que em 2016", afirma o senador Humberto Costa (PT-PE).

Para ele, não há como prever o resultado final. "É difícil fazer projeção, porque é uma eleição totalmente atípica, em meio a uma pandemia, mais centrada na rede social do que no corpo a corpo."

Rejeição presente, mas menos em foco

Para o cientista político Ricardo Ismael, da PUC (Pontifícia Universidade Católica) do Rio, o cenário desfavorável do PT em 2016 levou o partido a passar toda a campanha se defendendo de acusações e ataques.

"O PT teve uma redução drástica, perdeu muitas prefeituras, especialmente nos municípios com mais de 100 mil eleitores. Ali era cenário muito adverso, o que obrigou o PT a ficar na defensiva o ano todo. Ele tentou sair com a narrativa do golpe, mas o eleitorado terminou se afastando em várias cidades", diz.

Ismael afirma que o cenário para 2020 é "um pouco melhor". "Realmente é um cenário menos desfavorável, mas de qualquer maneira ainda há muita rejeição especialmente no Sul e no Sudeste, onde se observa uma perda de prestígio e redução de candidatos competitivos", diz.

O cientista político Wagner Cabral, da UFMA (Universidade Federal do Maranhão), lembra que as eleições municipais são bem mais marcadas por questões locais.

"Acho que o antipetismo em 2016 tem de ser dimensionado porque era uma eleição municipal, com cenários muito específicos. O índice de reeleição de prefeitos não é dos mais altos no país porque, de uma maneira geral, você tem uma uma postura crítica em relação às prefeituras, ainda mais em um contexto de crise, em que as possibilidades de investimento dos prefeitos são pequenas", afirma.

Cabral afirma que o antipetismo foi reduzido, mas ainda pesa, ainda que esse fator deva ficar para trás. "Aqui em São Luís, por exemplo, destaco três fatores mais importantes: a avaliação da gestão municipal, a renovação política dos candidatos e as movimentações políticas já de olho na disputa estadual para 2022. Como quarto elemento, entrariam elementos da polarização nacional. Sem dúvida não é o principal."

Errata: o texto foi atualizado
As tabelas que acompanham o texto continham erros. O prefeito de Olinda (PE) é filiado ao SD (Solidariedade), e não ao PV. Já o prefeito de Feira de Santana (BA) é do MDB, e não do DEM. Em Guarulhos, o prefeito era do PSB, mas foi para o PSD. Maringá trocou o PDT pelo PSD. O prefeito de Blumenau é agora filiado ao Podemos, não ao PSB. O de Florianópolis é filiado ao DEM, não ao MDB. Em Mossoró, a prefeita atual é do PP, e não do PPS. O prefeito de Curitiba trocou o PMN pelo DEM. Com isso, PSDB tem 29 prefeitos e MDB tem 15; PSD ficou com 9 e DEM com 7. Cidadania governa 6 cidades, e PSB, 5, assim como PP. Já o PDT tem 4. O PV e PSC ficaram com 3, assim como prefeitos sem partido. PTB e PR alcançam 2. Os partidos com uma única prefeitura são Rede, Republicanos, PSL, Podemos e Solidariedade. O chefe do Executivo em Macapá está atualmente sem partido, não na Rede. Os gráficos foram corrigidos.