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Jingles em SP transformam Russomanno em CR10 e apostam em trocadilhos

Nathan Lopes

Do UOL, em São Paulo

08/10/2020 04h00

Uma eleição tem data para terminar, mas algo sempre ultrapassa o período de uma disputa em um pleito: as músicas das campanhas, os chamados jingles. Com o início do horário eleitoral no rádio e na TV, a partir de amanhã, algumas letras e melodias entrarão no cotidiano dos eleitores e talvez nunca mais saiam, como o "varre, vassourinha", de Jânio Quadros, o "retrato do velho", de Getúlio Vargas, o "Lula lá" e o "E, e, e, Eymael".

Na corrida pela Prefeitura de São Paulo, as campanhas já prepararam suas canções. "O jingle é um recurso muito valioso", diz o especialista em marketing político Emmanuel Publio Dias. "Ele estabelece uma identidade rápida, é um cartão de apresentação importante", diz o cientista político Carlos Melo, professor do Insper.

"Com Bolsonaro apoiando"

Líder nas pesquisas, Celso Russomanno (Republicanos) vai deixar bem claro que ele é o candidato do presidente Jair Bolsonaro (sem partido) na capital paulista. "Com Russomanno e Bolsonaro, temos um 'voto do bem'", diz trecho do jingle, quem lembra o estilo gospel. "E [com] Bolsonaro apoiando... São Paulo é quem sai ganhando."

Uma referência do futebol vai ser usada para grudar a imagem de Russomanno. Nos gramados, há o CR7, o português Cristiano Ronaldo, jogador da Juventus, da Itália. Já a campanha apelidou o candidato como CR10, em referência ao número do partido e às iniciais de Russomanno.

Buscando a reeleição, Bruno Covas (PSDB) apostou em um mantra sobre "força, foco e fé". A resiliência é a associação que quer passar ao remeter ao tratamento de Covas contra um câncer.

Martelando na cabeça

Melo diz que não é necessário escutar toda a música para ter a ideia desejada pelos publicitários. "Jingle tem essa coisa da rapidez. Você vai ver isso na campanha de televisão, no rádio, vai passar carro na rua tocando, vai receber no seu celular pelo WhatsApp, na rede social. E a possibilidade de isso se consolidar mais fortemente, martelando na cabeça, vai ser maior."

Candidatos que aparecem com intenções de voto perto de 1% apostaram nas rimas e até em trocadilhos com seus nomes. Joice Hasselmann (PSL) apresentou o "tem jeito, tem Joice". Já Filipe Sabará, do Novo —sim, é o que você já deve estar imaginando— usou o verbo saber em seu jingle para compor com seu sobrenome. "Quem é que sabe o que fazer? Quem é que saberá? Ah, Sabará saberá", numa melodia que lembra canções infantis.

Nessa linha também vai Arthur do Val (Patriota). Seu jingle lembra canções de aberturas de desenhos japoneses. "Eu quero ver São Paulo livre para crescer, sempre liderando o mundo doa a quem doer. Sei que vou enfrentar a máfia do transporte. Sou mais forte. Arthur do Val, seu sobrenome é coragem", diz um trecho.

Um estilo parecido tem o de Márcio França (PSB) com um discurso de que a situação tem que mudar e de que a "solução já se apresenta". A música também aposta muito em divulgar o número de França na urna, dito praticamente a todo instante.

O PT de Jilmar Tatto aposta em um estilo parecido com o da disputa presidencial de 2018 —integrantes da equipe de dois anos atrás estão no time que pensa a campanha de Tatto. Um vídeo de três minutos começa com uma melodia triste, sobre "uma história que poderia ser a sua", de alguém que "nem teve tempo de chorar porque tinha na mão a vontade de vencer".

Os versos são acompanhados por imagens de trabalhadores e pessoas na periferia de São Paulo e lembram que "no tempo do PT era diferente". Quando diz que "esse tempo vai voltar" e que "está na hora de Jilmar", entra uma alegria ao som de forró. Em seguida, chega o slogan "coração trabalhador", similar ao "João trabalhador" usado pelo tucano Doria na campanha de 2016.

Principal oponente do PT na busca por votos, a candidatura de Guilherme Boulos (PSOL) apostou no funk e no samba para chamar a atenção de que o "Boulos chegou", lembrando que ele "mora lá no Campo Limpo com quem está na luta faz tempo", além de ressaltar que a vice, Luiza Erundina (PSOL), "voltou", ao mencionar a prefeita paulistana entre 1989 e 1992.

Com samba, a campanha de Orlando Silva (PCdoB) usa a letra para ressaltar que ele é negro. "Preto, prefeito, preparado. É São Paulo para quem mais precisa" e "é mais um Silva como nós" são alguns dos trechos. Vera Lúcia (PSTU) vai nessa linha com uma música, que, ao som de um violão, fala da "pele negra e o peito aberto para a luta". "Trabalhadora, ela é guerreira, ela é mulher, ela é a Vera."

Os jingles, porém, também revelam uma superficialidade na campanha, na visão de Melo. "São estratégias de marketing. Do ponto de vista da comunicação, dez [para o uso de jingles]. Do ponto de vista da política, empobrece, porque esvazia críticas e conteúdos políticos necessários", diz o cientista político.

Os candidatos hoje em dia são vendidos como sabonetes. Você esvazia o conteúdo político e coloca muito mais o conteúdo de marketing eleitoral.
Carlos Melo, cientista político

A música de Levy Fidelix é do próprio partido, o PRTB, e não traz um discurso específico para São Paulo. As campanhas de Andrea Matarazzo (PSD) e Marina Helou (Rede) não terão jingles, segundo as assessorias de imprensa. Já a de Antonio Carlos Silva (PCO) não enviou a música de campanha.