PUBLICIDADE
Topo

Com Lula, Bolsonaro e Ciro, Fortaleza vira microcosmo da eleição em 2022

Sarto, Luizianne Lins e Capitão Wagner disputam a Prefeitura de Fortaleza - Arte/UOL
Sarto, Luizianne Lins e Capitão Wagner disputam a Prefeitura de Fortaleza Imagem: Arte/UOL

Carlos Madeiro

Colaboração para o UOL, em Maceió

27/10/2020 04h00

Além de debater propostas para a cidade, a campanha para Prefeitura de Fortaleza repete a disputa nacional com as três maiores lideranças políticas de grupos nacionais. O presidente Jair Bolsonaro (sem partido), o ex-deputado federal Ciro Gomes (PDT) e o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) apoiam, cada um, os nomes mais competitivos na eleição e fazem um ensaio de forças que deve se repetir em 2022.

Segundo o último levantamento do Datafolha, divulgado no dia 17, o candidato de Bolsonaro —o Capitão Wagner (PROS)— lidera a corrida, com 33% das intenções de voto, seguido por Luizianne Lins (PT), com 24%, e Sarto (PDT), com 15%.

Entre os padrinhos nacionais, pesquisa Ibope mostrou que Lula é o mais influente, com 33% dos entrevistados afirmando que o apoio do ex-presidente "aumentaria muito" as chances de votar em um candidato a prefeito. Já Bolsonaro e Ciro só tiveram a mesma resposta positiva para 14% dos entrevistados.

Líder sem Bolsonaro, Ciro e Lula em peso na campanha

À frente na corrida, Wagner é o único dos três que tem o apoio, mas prefere não citar o seu padrinho em suas propagandas.

Em fala no último dia 8 à rádio Jovem Pan, o presidente citou que "em Fortaleza tem um capitão lá" que "se Deus quiser, vai dar certo". Bolsonaro, porém, disse que só vai entrar nas campanhas faltando 15 dias para eleição.

O candidato do PROS é militar e comandou a histórica greve de 2012 —quando ficou conhecido. Em 2018, fez campanha para Bolsonaro no estado.

Ao ser questionado sobre o apoio, Wagner costuma dizer que tem "bom relacionamento com o governo federal", mas evita associar a imagem de Bolsonaro em suas propagandas política.

Já no lado mais à esquerda, os apoios de Ciro e Lula são tratados como verdadeiros troféus.

Para Luizianne, o ex-presidente Lula gravou um vídeo pedindo voto nesta semana. Deputada federal e ex-prefeita por dois mandatos de Fortaleza, ela sempre tenta associar a sua imagem à de Lula em materiais de campanha, assim como o do governador Camilo Santana (PT).

Mesmo petista, Camilo está com "coração dividido" em Fortaleza. Optou por ficar neutro no primeiro turno pela proximidade política que tem com os Ferreira Gomes. A tradicional família cearense, por sinal, foi o maior cabo eleitoral de Camilo quando ele venceu a eleição para o governo pela primeira vez.

A disputa pela imagem do governador é um atrativo à parte na disputa. A campanha de Sarto não pode usar a imagem a Camilo, mas se vira com uso de pessoas próximas. Nesta semana, por exemplo, publicou um vídeo de apoio Eudoro Santana, ex-deputado estadual e pai do governador.

Deputado estadual e escolhido em cima da hora para representar o PDT na disputa, Sarto é o menos conhecido dos três candidatos e trava uma batalha para tentar ser associado como o candidato de Ciro e Cid. Por isso, a imagem dos Ferreira Gomes é usada constantemente pelo candidato pedetista.

Já Ciro usa suas redes sociais para rasgar elogios e apoio a Sarto. O ex-deputado também usa com frequência suas páginas para atacar o Capitão Wagner, a quem acusa de ter participado ativamente do motim dos militares neste ano. Wagner nega e diz que atuou apenas como negociador. Em resposta, o candidato militar repete que enfrenta há dez anos uma "família que se acha dona do estado".

Popularidade por perto

Para Monalisa Torres, professora da UECE (Universidade Estadual do Ceará) e pesquisadora do Laboratório de Estudos sobre Política, Eleições e Mídia da UFC (Universidade Federal do Ceará), as alianças e os apadrinhamentos em Fortaleza servem de bom parâmetro para as eleições presidenciais.

Essas eleições são um caminho para fortalecer as bases para 2022. Fortaleza é a quinta maior capital do país. Tanto o PT quanto o PDT estão pensando nas eleições gerais. Por isso não houve acordo entre eles.
Monalisa Torres, professora e pesquisadora

Torres lembra que PT e PDT são aliados no âmbito estadual, mas a união dos partidos não se repete na capital. Um dos motivos para isso é a histórica desavença do grupo liderado por Luizianne Lins com os Ferreira Gomes. A candidata petista costuma tratar a família como coronéis.

O governador fica em uma saia justa. "Camilo é mais alinhado ao grupo dos Ferreira Gomes do que é um petista raiz. Ele fica nessa triangulação, entre uma e outra posição. Adota pautas petistas, mas não radicaliza, porque também deu continuidade à herança deixada pelo Ferreira Gomes."

A boa aprovação do governador, diz Torres, cresceu em 2020 pelo enfrentamento da crise na segurança pública, no início do ano, e na pandemia. "Como o governo conseguiu se manter firme, deu respostas satisfatórias à população. Isso que faz com que seja tão disputado pela Luizianne e pelo Sarto", afirma.

Torres explica que, historicamente, Fortaleza não elege candidatos ligados ao governo do estado. Mas Ciro tampouco parece um bom cabo eleitoral. "Imaginei que o Ciro fosse ter um potencial maior para influenciar no voto, mas ele aparece com com uma rejeição até alta", diz.

Sobre Bolsonaro, ela explica que o afastamento da campanha de Wagner ocorre pela rejeição do presidente na cidade. "Em Fortaleza, e no Nordeste como um todo, Bolsonaro se desgastou por conta das ações do governo, ou da inação do governo, em relação à pandemia. Apesar de que houve uma melhora por conta do auxílio emergencial. Mas não foi de uma forma que pudesse reverter esses números apoio ao presidente."