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Tatto tenta esbanjar confiança em 2º turno, mas periferia ignora carreata

11 nov. 2020 - Jilmar Tatto (PT) durante carreata no bairro de Parelheiros, na zona sul de São Paulo - Reprodução/Twitter
11 nov. 2020 - Jilmar Tatto (PT) durante carreata no bairro de Parelheiros, na zona sul de São Paulo Imagem: Reprodução/Twitter

Amanda Rossi

Do UOL, em São Paulo

14/11/2020 04h00Atualizada em 16/11/2020 13h16

A carreata de Jilmar Tatto, candidato a prefeito de São Paulo pelo PT, entrou ruidosa pelas ruas estreitas do bairro de Colônia, na última segunda-feira (9), a apenas seis dias das eleições municipais. Foram minutos insólitos. No extremo da zona sul de São Paulo, a mais de 40 km do centro da cidade, Colônia é um bairro pacato de renda baixa, cercado de áreas de mata atlântica, encravado na cratera de Parelheiros.

De repente, Tatto surgiu acenando do alto de um caminhão de som, que tocava o jingle da campanha. Atrás dele, vinham carros com adesivos e bandeiras vermelhas, grande parte ocupada por cabos eleitorais de candidatos a vereador do PT. Mas os moradores e trabalhadores de Colônia pouco reagiram. A maioria continuou o que estava fazendo, alheia à passagem do PT.

Uma exceção ocorreu na rua das Rosas, quando dois funcionários de uma pastelaria foram à porta do comércio com as mãos carregadas de ovos brancos. Naquele instante, passava uma caminhonete da carreata.

Na carroceria, um cabo eleitoral enumerava ao microfone o que, segundo ele, só o PT sabia fazer em São Paulo: Bilhete Único, CEU, corredor de ônibus. "O PT também sabe fazer omelete?", gritou um dos funcionários, ameaçando atirar os ovos.

As carreatas foram uma das principais estratégias da campanha do PT em São Paulo para tentar tornar o nome de Tatto conhecido. Foram mais de 20, quase todas pela periferia. Ao longo da campanha, o candidato privilegiou os extremos da cidade, tanto na agenda como no discurso.

Mas, assim como em Colônia, os eleitores de São Paulo não estão dando sinais de entusiasmo com a candidatura do PT. Tatto chega às eleições com apenas 4% de intenção de voto, segundo o último Datafolha, de 11 de novembro. Entre a população de renda mais baixa, o desempenho melhora um pouco, 7%.

É o pior resultado do PT em São Paulo já auferido pelo instituto, que começou a pesquisar as eleições municipais em 1985. Até agora, as piores intenções de voto às vésperas da eleição foram as de Fernando Haddad —11%, em 2016, e 18%, em 2012. Marta Suplicy, nos três anos que concorreu à prefeitura pelo PT, pontuou sempre acima de 30%.

Crítica da esquerda

Além de não ter emplacado junto aos eleitores, a candidatura de Tatto foi colocada em xeque pela esquerda, inclusive, por nomes de peso do governo Lula, como os ex-ministros Celso Amorim e Tarso Genro.

A crítica é que o partido deveria ter participado de uma frente de esquerda, encabeçada por Guilherme Boulos (PSOL), que chegou a 16% no Datafolha, quatro vezes o tamanho de Tatto.

Outros apoiadores históricos do PT, como Leonardo Boff, Frei Betto, Marilena Chauí, Fernando Morais e Mino Carta não aderiram à campanha de Tatto e defenderam o nome de Boulos --alguns deles, inclusive, diante de Lula.

Enquanto o psolista foi acumulando apoios, Tatto teve que puxar sua carreata sem a presença de grandes nomes do PT. O ex-prefeito Fernando Haddad só compareceu uma vez. A presidente nacional do partido, Gleisi Hoffman, e o ex-presidente Lula não participaram.

Foco na periferia

A zona sul é considerada a principal base de apoio da família Tatto. Além de Jilmar, que foi deputado estadual, quatro de seus irmãos têm cargo eletivo pelo PT. Ainda assim, quando a carreata petista passou pela região de Parelheiros, no último dia 9, e de Grajaú, no dia 11, o clima das ruas foi de completa apatia.

"Os ricos têm o candidato dos ricos. O candidato do povo é o PT", disse Jilmar Tatto ao microfone na carreata do Grajaú. A frase vai na contramão de um estudo feito pela Fundação Perseu Abramo, do PT, em 2017, para entender o pensamento da periferia de São Paulo depois da derrota de Fernando Haddad para João Doria (PSDB) ainda no primeiro turno.

"A cisão entre 'classe trabalhadora' e burguesia não perpassa pelo imaginário [da periferia de São Paulo]", resumiu o estudo da fundação petista. "Trabalhador e patrão são diferentes, mas não existe no discurso relação de exploração: um precisa do outro, estão no 'mesmo barco'", continua a pesquisa.

Para a equipe de Tatto, porém, o resultado das carreatas foi positivo. Sobre o evento no Grajaú, o candidato avaliou que foi "fantástico, fantástico, fantástico". "Todos os dias a gente vê esse carinho [nas ruas]. Quanto mais a gente vai para a periferia, mais o povo gosta do PT e quer o PT", declarou. "Eu faço campanha desde 1982. A gente sabe se tá legal, se tá ruim."

'Carne de pescoço'

O entusiasmo da campanha de Tatto tem sua dose de fundamento. Neste ano, pelo menos, a carreata do PT pela periferia paulistana não foi hostilizada como nas eleições 2016.

"[Aquele ano] foi o pior momento das nossas vidas! A gente era chamado de ladrão, era xingado. A gente só sobreviveu porque é carne de pescoço, a gente não desiste nunca", diz o vereador Alfredinho, do PT, que tenta se eleger para um novo mandato.

Era uma situação muito diferente de 2012, quando "de dez pessoas que você conversava na periferia, sete eram Lula", lembra Alfredinho. Já neste ano, o cenário não se parece nem com 2012, nem com 2016. "Hoje, uma grande parte da população fica em silêncio, é verdade. Não se manifesta, não hostiliza. Mas outra grande parte faz sinal de positivo", completa o vereador.

Um dos que fez sinal de positivo foi o metalúrgico aposentado Sérgio Rodrigues de Oliveira, de 71 anos. Ele estava em um ponto de ônibus em Parelheiros quando a caravana de Tatto passou. "Vou votar nele. Eu só voto no PT. Aqui o pessoal fala muito que o Lula roubou, o PT roubou. Mas ainda é o que mais fez pelo povo." As outras cinco pessoas que aguardavam o ônibus fingiram que não viram a caravana passar.

No outro lado da rua, no ponto de ônibus no sentido contrário, um segurança que estava indo para o trabalho no centro de São Paulo perguntou se a carreata era de Alfredinho. Ao ser informado que, na verdade, o evento era do candidato a prefeito pelo PT, o homem disse que não o conhecia. "No PT, eu não vou votar."

"A votação do PT é classe C, D e E. Esse povo presta atenção em relação à eleição no dia, um dia antes, dois dias antes, três dias antes. Esse é um povo que demora para decidir", ponderou Tatto, ao final da carreata do Grajaú, confiante de que o PT vai chegar ao segundo turno em São Paulo.