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Eleições 2020 não honraram uma tradição nacional: os jingles inesquecíveis

Reprodução de vídeos de jingles de campanhas políticas de Lula, Brizola e Maluf - Reprodução
Reprodução de vídeos de jingles de campanhas políticas de Lula, Brizola e Maluf Imagem: Reprodução

Matheus Pichonelli

Colunista do UOL

28/11/2020 04h00Atualizada em 28/11/2020 22h38

O jovem centennial que votou neste ano pela primeira vez pode não acreditar, mas jingle de campanha política não só já foi bom neste país como já serviu como ferramenta de mobilização e engajamento nos tempos pré-meme.

Podem perguntar aos pais ou aos irmãos mais velhos —evitem gatilhos com os avós, que eram proibidos de votar na ditadura.

A primeira campanha a presidente após a redemocratização, por exemplo, foi um manancial de jingle-chiclete. Tudo bem que ajudava o fato de estarem na disputa dois nomes com paroxítonas terminadas em "la", o que favorecia rimas como "Lula-lá, brilha uma estrela" e "La-la-la-la-lááááá Brizooooola", esta com coro infantil e orquestra.

Dois clássicos, uma só eleição.

A primeira música ainda contava com uma versão do trio Chico Buarque, Gilberto Gil e Djavan, o equivalente na época, em termos musicais, ao trio MSN do Barcelona.

Não ganhou jogo em 1989, mas o que vale é a história.

Lula foi eleito em 2002 com Duda Mendonça mandando botar estrela no peito e, em 2006, apareceu aí de novo com um jingle-resposta aos oponentes que já o queriam ver longe da pista (Sergio Moro à época era só um juiz desconhecido em Curitiba): "Eu quero o Lula lá, deixa o homem trabalhar".

Foi também apostando na imagem de homem trabalhador que Paulo Maluf exibiu um clássico em sua campanha para governador em 1990. Aquele que dizia "São Paulo é Paulo porque Paulo é trabalhador". Um bordão que seria usado muitas vezes por seus apoiadores que valorizavam as obras pelas avenidas da cidade, mas não os desvios de paraísos fiscais.

Houve jingle que ganhou vida própria e ficou lembrado ao longo dos anos que tornaram seus candidatos esquecidos. Um deles marcou os eleitores paulistas nos anos 1990, aquela época em que balada romântica era sinônimo de refrão rasgado. Em 1994 e 1998, quando concorreu ao governo do estado, Francisco Rossi lançou uma batida dessas de chorar abraçado com o(a) parceiro(a) nos bailes de formatura com os versos: "Francisco Rossi para governador, a gente tem alguém em quem acreditar". Quase uma versão noventista de "Bridge over troubled water" de Simon e Garfunkel.

Um dos últimos jingles marcantes da jovem e maltratada democracia brasileira é de um eterno nanico em eleições presidenciais: Eymael. Sim, ele mesmo, o democrata cristão, como dizia a letra da marchinha que até criança sabe cantar.

Dá para lembrar ainda o rap "do futuro prefeito o Sting é amigão", de Fabio Feldman, e do inesquecível "Serra, Serra, Serra, essa mamata grita, berra, ata e desata, vota certo com opinião, José Serra é solução", das campanhas tucanas para prefeitura de São Paulo em 1992 e 1988. Dá para lembrar de outros, mas aí este post viraria baile da saudade.

O fato é que hoje o eleitor precisa pensar muito para se lembrar de algum jingle que está prestes a desaparecer da memória com o fim das eleições 2020. O máximo foi um revival de "Oh, Nairon", adaptação de "Oh night long", de Leonel Richel, usado por um candidato a vereador de Esteio (RS) já em 2016.

Santinho do candidato Nairon de Souza - Divulgação - Divulgação
Santinho do candidato Nairon de Souza
Imagem: Divulgação

Ou um singelo Batatatatatatatatata que imitava a metralhadora de "Era um garoto que como eu amava os Beatles e os Rolling Stones" que um bravo candidato a vereador com apelido Batata fez correr nos grupos de WhatsApp.

Ah, sim, teve também o petardo apócrifo sobre as andanças de Barreto e seu irmão no município de Pendências (RN), que já estaria sendo tocado nos bailes da vida não fosse esta uma época de isolamento social. Fica aqui a menção honrosa para o herói anônimo.

Dos candidatos a prefeito dos grandes centros não sobrou quase nada para a posteridade nem o acervo do YouTube, a não ser um vergonhoso trocadilho entre as capacidades decisórias do desistente Felipe Sabará ("Sabará Saberá"), os três Fs (Força, Foco e Fé) do "prefeitão" Bruno Covas que mais lembram promoção de lojas de departamento em São Paulo e outros jingles que não honram a tradição.

Fica aqui o lamento e uma pergunta. É realmente neste país de rima pobre que queremos viver?

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