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Minoria na missão brasileira, mulheres atuam na retaguarda da crise no Haiti

Leandro Prazeres/UOL
As militares Maria Cristina Santiago da Silveira (esq.) e Rosiméri da Costa Aguiar atuam no Haiti Imagem: Leandro Prazeres/UOL

Leandro Prazeres

Especial para o UOL Notícias <br> Em Porto Príncipe (Haiti)

15/12/2010 07h00

Há cinco meses, a professora de francês Maria Cristina Santiago da Silveira, 43, tem um encontro marcado com seu marido todos os dias. Ela liga o computador, coloca os fones de ouvido e se prepara. O encontro é via internet. Maria Cristina, major do Exército, é uma das militares brasileiras na Missão das Nações Unidas de Estabilização do Haiti (Minustah). Entre blindados e fuzis, ela conta apenas com a tecnologia para matar a saudade de casa. Apesar de serem minoria, para elas, a missão longe de casa é a oportunidade de uma vida.

O Brasil tem em torno de dois mil militares no Haiti. Desse total, 14 são mulheres vindas de diferentes regiões do Brasil. Ao contrário dos homens, elas não atuam na “linha de frente”. São médicas, enfermeiras, tradutoras e engenheiras, mas com treinamento para manejar armamento pesado. “Nós tivemos um treinamento bem intenso. Se precisar, vamos saber o que fazer”, diz Maria Cristina, integrante da primeira turma de mulheres da história do Exército Brasileiro. “Antes da minha turma, de 1991, as mulheres só haviam participado do Exército durante a 2ª Guerra”, conta.

Vaidade feminina no Exército

O cabelo tem de ser preso em rabo de cavalo ou em coque. Nada de cabelo comprido. As unhas devem ser pintadas em tons claros e não podem ser muito grandes. Brincos e colares são permitidos, desde que sejam discretos. O aquartelamento impõe um certo isolamento às militares, mas elas encontram uma forma de não deixarem a vaidade em segundo plano. "Eu trouxe um suprimento extra de produtos de beleza. Cremes, maquiagem e xampu especial porque a água do Haiti tem muito sal. Isso resseca nossos cabelos", atesta Rosiméri.

O comandante do 1º Batalhão Brasileiro (Brabatt 1), coronel Ronaldo Lundgren, explica que no Exército as mulheres fazem parte do quadro complementar de oficiais, responsáveis por atividades como a docência, engenharia e a área de saúde e que por isso elas dificilmente participam de missões mais arriscadas. “Isso é resultado da nossa própria estrutura. Elas vêm para cá como voluntárias para desempenhar funções semelhantes às que elas desempenham no Brasil”, afirma.

O coronel Lundgren reforça, contudo, que quando vão para missões externas as mulheres utilizam os mesmos equipamentos que os homens. “Elas vão armadas com fuzis, pistolas e todo o aparato dos homens. Elas são treinadas para se defender e defender a tropa”, diz o militar.

Maria Cristina era professora de francês do colégio militar de Juiz de Fora quando recebeu o convite para ir ao Haiti. “Fiquei muito feliz com o convite. Meu marido, que também é militar, me apoiou e eu vim. Essa é a oportunidade de uma vida”, diz. Hoje, ela trabalha como intérprete em missões de reconhecimento ou patrulha. Diz que, felizmente, não enfrentou nenhuma situação de perigo, mas ficou impressionada com a pobreza do país. “É uma coisa assustadora. A gente já havia sido preparada, mas não tem como não se sensibilizar com o que a gente vê. É triste ver tantas crianças brincando no meio do lixo”, desabafa Maria Cristina.

A capitão Rosiméri da Costa Aguiar, 41, também era professora, mas de inglês. Foi selecionada para a missão no Haiti e hoje trabalha em uma função chave. Ela é intérprete durante as reuniões do alto comando da Minustah, que envolve militares de diferentes continentes. Boa parte das informações mais sigilosas da missão passam por ela. “Nunca pensei que como professora eu poderia participar de um trabalho como esse. Minha família está com muito orgulho de mim”, conta Rosiméri.

E por falar em família, Maria Cristina conta que, apesar de sua ausência, não deixou de ter responsabilidades domésticas em sua casa, que ficou a mais de cinco mil quilômetros. “Como falo com meu marido todos os dias, eu acabo avisando para pagar o condomínio, ver como está a reforma do edifício em que moramos. Um dia desses, pedi para ele tirar foto da obra e me mandar via internet para eu ver. Isso não me incomoda”, afirma a major.

Rosiméri, por sua vez, usa a internet para matar a saudade da filha, de sete anos de idade, que ficou com o pai no Brasil. “A gente se fala sempre. Não fosse o Skype (programa de vídeo-conferência), seria muito difícil”, afirma.