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Espelho no teto e tudo! MG tem motel feito para cachorros

Simon Romero

The New York Times, em Belo Horizonte

2012-11-13T00:01:00

13/11/2012 00h01

Espelho de teto em forma de coração: confere. Cortinas fechadas em pleno dia: confere. Colchão vermelho: confere.

O estabelecimento que abriu em Belo Horizonte neste ano tem os elementos que os clientes exigentes naturalmente esperam de um motel. Afinal, o Brasil é o líder mundial nesses palácios de prazer de curta estadia, que atraem casais para encontros amorosos longe dos olhares, com nomes como Swing, Absinto e Álibi, e temas como castelos medievais ou o velho oeste americano.

Mas o mais novo motel de Belo Horizonte se destaca dos demais em um aspecto crucial. Ele é para cães.

A Animalle Mundo Pet, um empreendimento de oito andares em um bairro rico desta cidade de 2,4 milhões de habitantes, lançou seu motel canino ao lado de corredores oferecendo DogBeer, uma cerveja para cachorro sem álcool, sabor carne, um spa canino com ofurô japonês e vestuário canino estampado com os emblemas dos times de futebol locais, Atlético Mineiro e Cruzeiro.

“Eu adoro o ar romântico desse lugar”, disse Andreia Kfoury, 43 anos, uma gerente de uma empresa de tecnologia que espiou dentro do Motel Pet certa manhã, enquanto ela e seu marido estavam em uma gastança de roupas para o yorkshire terrier deles, Harley. O casal, que é entusiasta por motos, comprou cerca de US$ 500 em itens importados da marca Harley-Davidson para seu cachorro.

“Com certeza vou trazer o Harley aqui quando for hora de cruzar”, disse uma sorridente Andreia. “Ele é muito macho e faria sucesso aqui.”

Se cães como Harley de fato precisam de uma suíte romântica para cruzar parece irrelevante. Alguns donos de cachorros simplesmente gostam do conceito de um motel para seus animais queridos e estão dispostos a pagar R$ 100 por cada sessão, que a Animalle arranja alegremente. Se não funcionar como planejado, algumas pessoas estão preparadas para pagar ainda mais pela inseminação artificial, outro dos serviços da Animalle.

O ambiente como de uma colmeia da pet megastore de Belo Horizonte, que emprega 35 funcionários (sem contar os veterinários de plantão), aponta não apenas para a crescente população canina do Brasil, atualmente em torno de 36 milhões, mas também para uma grande mudança na sociedade brasileira, após anos de crescimento econômico e mudança nos padrões demográficos. Lojas semelhantes prosperam em outras grandes cidades brasileiras; em São Paulo, foi aberto um hospital público para cães e gatos; e alguns cirurgiões plásticos fornecem injeções de Botox para cães.

Desde que um programa de estabilização financeira foi implantado nos anos 90, a renda per capita subiu acentuadamente no Brasil, para cerca de US$ 10.700 ao ano, segundo o Banco Mundial, permitindo às pessoas gastarem mais com seus animais de estimação. As famílias se tornaram menores, com a taxa de fertilidade do Brasil caindo para menos de 1,9 criança por mulher, em comparação a 2,5 nos anos 90, dando aos animais de estimação uma maior importância em muitos lares. E a expectativa de vida subiu de 67 anos para 73 no período, aumentando os anos em que as pessoas podem se voltar para os animais como companhia.

O crescimento da classe média brasileira, em particular, levou a um rápido crescimento nos serviços para cães e seus donos entusiásticos. Em alguns nichos, o Brasil supera os Estados Unidos e outros países ricos: o país ocupa o primeiro lugar per capita em propriedade de cães de pequeno porte (pesando nove quilos ou menos), com quase 20 milhões, segundo a Euromonitor, uma empresa de pesquisa de mercado.

“Eu estava cansado de exercer Direito e vi que o mercado para cães estava decolando”, disse Daniela Guimarães Loures, 28 anos, a dona de um dálmata que investiu US$ 1 milhão juntamente com seu irmão para abrir a Animalle em julho. Citando números publicados em revistas brasileiras como “Pet Business”, ela disse que as pet shops do país geram mais de US$ 6 bilhões em receita total anual.

Para abrir o motel canino, os irmãos alugaram um antigo hospital infantil em Gutierrez, uma área arborizada de Belo Horizonte. Eles agora oferecem hotel para cães e gatos, um pet táxi que leva e traz os animais, uma cafeteria para cães que vende iguarias como bolinhos sabor carne e uma loja que vende produtos especiais, como Chic Animale, um perfume para cães produzido em Porto Alegre, uma cidade do Sul do Brasil. Ele custa em torno de US$ 40 a embalagem.

Apesar de partes do estabelecimento atenderem donos de gatos, peixes e roedores como hamsters, o foco é claramente cachorros. Juliana Lima, uma estudante de psicologia de 24 anos que trabalha na Animalle dando banho e tosando cachorros, disse que a procura pelo motel canino tem sido robusta, apesar de ainda não estar claro se as sessões de cruzamento produziram crias.

“Nós abrimos há apenas poucos meses e isto é uma coisa nova”, disse Juliana.

O motel canino explora o fascínio no Brasil pelas acomodações de curta estadia para atividades sexuais. Os motéis do Brasil são semelhantes aos motéis americanos no fato de muitos ficarem à beira de estradas e oferecerem acesso fácil –e anônimo, como esperam alguns clientes– aos motoristas. Mas no Brasil, eles compartilham certas características, como arquitetura e ambientes temáticos, com os famosos hotéis de amor do Japão.

Os donos de cães que enchem a Animalle não conseguem deixar de espiar pelas persianas do Pet Motel.

“O ambiente aqui é adorável”, disse Teresa Cristina Carvalho, que mostrou as acomodações para sua shih tzu, chamada Mel. “Nós voltaremos quando Mel estiver no cio”, ela disse, acrescentando que, enquanto isso, compraria uma garrafa de DogBeer para sua cadela.

“A Mel fica agitada com muito estímulo e precisa relaxar um pouco”, disse Teresa. “Pensando bem, eu também preciso de um pouco de paz e tranquilidade.”

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