Vitória de Trump traz apreensão para a cidade mais "norte-americana" do Brasil

Carlos Eduardo Cherem

Colaboração para o UOL, em Belo Horizonte

  • Arquivo pessoal

    A mineira Suely Leroy Ribeiro, 60 (à esq), com a mãe e os três filhos, que cursam universidade em Boston

    A mineira Suely Leroy Ribeiro, 60 (à esq), com a mãe e os três filhos, que cursam universidade em Boston

A vitória do republicano Donald Trump na eleição presidencial norte-americana trouxe preocupações para boa parte da população de Governador Valadares (MG), município distante 320 Km de Belo Horizonte, famoso por causa da migração de moradores para os Estados Unidos. 

Esse sinal de alerta também foi aceso em Boston, Massachussets, onde está a maior comunidade de brasileiros no exterior, com cerca de 300 mil brasileiros. Destes, 85% estão ilegais ou em processo de naturalização nos EUA, segundo o Departamento de Desenvolvimento da Prefeitura de Boston. 

A professora do Departamento de Sociologia e Ciência Política da Universidade do Vale do Rio Doce, Sueli Siqueira, especialista em migração, estima que metade dos domicílios da cidade mineira de 280 mil habitantes tenha um membro que está ou já esteve trabalhando nos EUA, a maioria na região de Boston.

Sueli explica que há uma dependência econômica das famílias de Governador Valadares em relação ao dinheiro enviado pelos migrantes que estão nos EUA. A "imprevisibilidade" no comportamento do presidente eleito reduz uma "certa zona de conforto" que esses migrantes experimentam atualmente.

Para a especialista, é possível que o discurso anti-imigrante de Trump não se torne realidade. "Dada a forma como é organizado o Estado norte-americano, o presidente tem pouco espaço para alterar de forma substancial a política migratória. Entretanto, é o presidente que dá o tom, que dá o ritmo. Dada a sua [de Trump] imprevisibilidade, não sabemos o que pode haver com os migrantes".

"Há uma demanda real, que não é pequena, da economia norte-americana, por mão-de-obra de migrantes, que ocupam o mercado secundário de trabalho. Ele mesmo Trump tem muitas empresas que dependem dessa força de trabalho. Essa situação pesa mais do que uma possível vontade dele", disse Siqueira.

"Em caso de retração econômica haverá um acirramento da fiscalização, das blitz, maiores exigências para documentação de estrangeiros e ampliação da interligação entre órgãos de governo no combate aos migrantes", afirma.

"Tenho receio por outras famílias"

A moradora de Boston, Suely Leroy Ribeiro, 60, reside há 25 anos nos EUA, com a mãe, o marido, e três filhos, que cursam universidade no país. Ela votou na democrata Hillary Clinton e acredita que a situação dos migrantes vai piorar, mas pretende dar um crédito ao magnata eleito,

"Não votei nele. Primeiro, porque não gosto dele e, segundo, porque queria ver uma mulher na presidência. Hillary é democrática e seria melhor para nós, imigrantes. Não temo por mim e minha família, porque somos cidadãos norte-americanos. Mas tenho receio por outras famílias", afirmou Ribeiro.

"Embora não tenha votado nele (Trump), acredito que precisamos dar uma chance para ver o que acontece no futuro. Meu medo é só o que ele vai fazer a respeito dos imigrantes", disse.

"Trump é nojento"

Arquivo pessoal
A esteticista Christiane Rosa, 45, de Governador Valadares (MG), e a filha estudante Vitória, 16, que nasceu nos EUA
Eleitora de Gary Johnson (candidato do Partido Libertário, que teve 2% dos votos dos eleitores norte-americanos), Christiane Rosa, 45, reside há 18 anos em Boston, onde graduou-se em estética e trabalha numa clínica da cidade. Em Boston nasceram os filhos Vitória, 16, e Nickolas, 13, estudantes de escolas públicas na cidade.

"Acho ele (Trump) nojento. Não serviria nunca para ser presidente de qualquer país, ainda mais dos EUA", diz a eleitora de Johnson. Apesar da visão negativa do multimilionário eleito, a esteticista acredita que o magnata possa resolver "algumas arestas da migração".

"Acho que há muita especulação ainda sobre o que ele (Trump) vai fazer. Pode ser também que ele consiga resolver algumas arestas da migração", disse.

"Há muitos problemas com os imigrantes também. Há gente honesta e trabalhadora, mas há pessoas ruins também entre eles", afirmou Rosa.

"Não gosto dele"

Estudante em Boston, 26, Maria (nome fictício) não votou nas eleições, mas trabalhou pela candidata democrata.

"Os EUA passarão por um retrocesso. Liderado durante oito anos por um presidente negro, filho de imigrantes, que procurou manter a igualdade entre as classes, que respeitou as mulheres, os homossexuais e os imigrantes, agora o país passa a ser liderado por um bilionário, proprietário de vários cassinos e edifícios em todo o país, racista, homofóbico, xenófobo", afirmou Maria.

"Trump, acima de tudo, estimula o ódio entre as pessoas", disse a estudante.

"Não votei porque o visto de estudante não permite, mas acompanhei as campanhas desde o início e minha preferência sempre foi a Hillary Clinton", afirmou.

"Participei indiretamente da campanha, conversando com conhecidos sobre o assunto e principalmente convencendo meu namorado e a família dele, simpatizantes de Clinton, a votarem, o que não é obrigatório aqui (nos EUA)".

 

"Devemos nos preparar"

Durante a campanha, Trump prometeu expulsar o imigrantes ilegais rapidamente

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"As lideranças políticas têm que protagonizar uma mobilização, acompanhando as famílias dos valadarenses, para monitorar as ações do governo de Minas Gerais, governo federal e Senado – que faz diretamente esta relação – em favor da proteção, defesa e garantia de direitos das centenas de valadarenses que vivem  nos EUA", afirmou nesta quarta-feira (9) a prefeita de Governador Valadares Elisa Costa (PT).

O resultado das eleições deve "alertar para o fato de que uma parte considerável da população norte-americana branca votou para um candidato xenófobo, homofóbico e racista", disse o economista Álvaro Lima, brasileiro radicado nos EUA há três décadas, diretor de pesquisas do Departamento de Desenvolvimento da Prefeitura de Boston, responsável pelos levantamentos e pesquisas sobre os imigrantes na cidade.

"Devemos nos preparar para enfrentá-lo (Trump) diretamente", afirmou Lima, que é militante do partido Democrata de Massachussets e trabalhou como voluntário na campanha de Clinton, nos últimos dois meses, em New Hampishire.

"A situação dos imigrantes em geral, e dos brasileiros em particular, fica bastante frágil dadas as promessas do candidato Trump. Não há saída se não nos organizarmos de maneira séria, para resistir às políticas que devem vir no futuro. E preciso uma organização de massa dentro e fora do partido Democrata", disse.

"Precisamos criar uma grande frente democrática de resistência, que inclua os imigrantes, os latinos-americanos, os negros a e os segmentos da população branca progressista".

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