"E agora?", perguntam-se cubanos que moram no Brasil, após a morte de Fidel

Flávio Costa

Do UOL, em São Paulo

  • Reprodução/Facebook

    O cubano Julio Moracen Naranjo mora em São Paulo desde o início dos anos 2000

    O cubano Julio Moracen Naranjo mora em São Paulo desde o início dos anos 2000

"E agora o quê?" Esta foi a primeira pergunta que surgiu à mente do professor cubano Julio Moracen Naranjo, 49, assim que soube, em sua casa em São Paulo, da morte de Fidel Castro.

Ao entrar nas redes sociais para obter mais informações, ele observou a divisão entre aqueles que comemoravam a morte do "ditador", e outros que lamentavam o desaparecimento do "líder revolucionário."

"Foi uma situação muito confusa para mim. Uma mistura de sentimentos que eu não posso expressar ou definir. Talvez ambiguidade seja uma palavra que defina melhor", afirma o professor de patrimônio imaterial da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo).

Julio Moracen conversou, por telefone, com um amigo em Havana, que costumava gritar "Abaixo Fidel!" pelas ruas da capital cubana. "Ele me disse que é esse momento de tranquilidade e não de cometer loucuras. Isso tem a ver como o modo que nós cubanos enxergamos a vida".

Presidente de Cuba anuncia morte de Fidel Castro

Entre idas e vindas, Julio Moracen mora desde o começo dos anos 2000 na capital paulista, onde concluiu o doutorado em Antropologia e Teatro pela USP (Universidade de São Paulo) e trabalhou como DJ em uma casa de música cubana.

"Com minha idade, eu vivi diferentes épocas em Cuba. Houve épocas que eu posso dizer que foram de ouro na história de minha vida, e outras de muito problemas, tanto sociais como políticos."

Julio Moracen afirma que este é o momento de questionamento para a população cubana. Por isto ele pensou "e agora o quê". O que vai acontecer agora sem a presença de Fidel Castro?

"Essa 'agora quê' faz parte do universo de perguntas do cubano, independente de que lado ele esteja do campo político. A história de Fidel está diretamente ligada ao embargo americano, e está ligada também a Trump, aos cubanos que vivem nos Estados Unidos, ao que Raul Castro irá fazer até o final de seu mandato em 2018", diz Moracen. 

Nove anos fora de Cuba

Por problemas com o governo cubano, o engenheiro mecânico Maykol Janny Speck, 55, deixou a ilha caribenha há nove anos, sem nunca voltar para uma visitar aos filhos, neto, e irmãos que deixou lá.

Reprodução/Facebook
O cubano Maykol Speck vive em São Paulo há nove anos
Em São Paulo, ele trabalha como professor de espanhol e na área de segurança. "Deixando de lado a figura do político, eu lamento a morte do ser humano e fiquei triste quando soube. Fidel um homem que era muito inteligente e que mudou a história da América Latina defendendo seus ideais", afirma.

A morte de Fidel pode até facilitar o fim do embargo americano, mas as mudanças em Cuba serão em ritmo lento, paulatino, analisa o cubano. "Tenho que certeza de que Fidel preparou uma nova geração de dirigentes, que terão novas ideias, diferentes das dele", afirma. 

Maykol pretende visitar Cuba em janeiro, mês em que a Revolução Cubana completa 58 anos. Mas é uma viagem para matar as saudades. Ele não pretende voltar em definitivo. Não agora.

"Eu me sinto bem no Brasil, apesar dos problemas daqui. Aqui eu tenho a liberdade de expressar o que eu penso. E a liberdade é o tesouro mais precioso que o ser humano pode ter."

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