Voluntários brasileiros vão para o Haiti atender crianças e adultos que nunca foram ao dentista

Talita Marchao

Do UOL, em São Paulo

  • Arquivo pessoal

    Os dentistas Filipe Fujita e Aline Rovaron em trabalho voluntário no Haiti

    Os dentistas Filipe Fujita e Aline Rovaron em trabalho voluntário no Haiti

Os dentistas Filipe Fujita, 36, e Aline Rovaron, 29, deixaram de lado seus empregos em consultórios da cidade de São José dos Campos (SP) por duas semanas para ajudar crianças e adultos no Haiti. Embarcaram para Porto Príncipe na semana retrasada pensando em atender pessoas que nunca tiveram a chance de ir a um dentista.

Filipe já fazia um trabalho com crianças pobres na cidade do interior de São Paulo e abraçou a ideia de Aline, que já tinha ido para o Haiti fazer trabalho voluntário como parte de uma missão religiosa e havia constatado as carências da população haitiana.

Estavam dispostos a bancar a aventura do próprio bolso, mas acabaram, por meio das redes sociais, conseguindo a ajuda de amigos. Um colega fez a ponte com a APCD (Associação Paulista de Cirurgiões Dentistas), que custeou uma das passagens --a outra foi paga pela própria dupla. Outras empresas ajudaram a custear os materiais odontológicos e kits de higiene que foram levados, e o projeto foi batizado de "Sorria Haiti 2017".

Arquivo pessoal
Os dentistas Filipe Fujita e Aline Rovaron em trabalho voluntário no Haiti

A ideia inicial era mais ambiciosa; queriam levar cinco dentistas, um médico e uma nutricionista, mas só conseguiram ir os dois dentistas. Alugaram uma sala na ONG brasileira Viva Rio, em Porto Príncipe, e passaram os primeiros dias no Haiti consertando os equipamentos, que necessitavam de reparos para funcionar.

"Da primeira vez em que estive no Haiti, em janeiro do ano passado, não consegui fazer o trabalho da maneira com que eu esperava e decidi voltar para ajudar a população, que necessitava de assistência odontológica", conta Aline em entrevista ao UOL ainda em Porto Príncipe.

Reprodução/Facebook
A preparação e o reparo dos equipamentos para atendimento
A dupla conta que nos primeiros dias foi preciso arrumar o local de atendimento e fazer o reparo de alguns equipamentos. Em duas semanas, foram mais de 80 atendimentos, entre eles extrações dentárias, tratamentos de cáries e até mesmo o começo de alguns tratamentos de canal nos casos mais graves.

Além das crianças e adolescentes, a dupla acabou atendendo até os adultos que frequentavam a academia em que eles ficaram hospedados. Foram atendidas crianças de dois orfanatos, e em um deles ainda foi feito um trabalho de prevenção. "A gente levou creme dental, escova e ensinou a higienizar."

"Optamos por ficar duas semanas porque, como foi a primeira vez, a gente queria sentir como seria o esquema para trabalhar, o local, o equipamento e o material. Como a sala que usamos é alugada, quanto mais tempo a gente ficar, maior é a despesa", explica Filipe.

"Além disso, como somos profissionais autônomos, quanto mais tempo a gente fica fora do consultório no Brasil, menos a gente ganha."

"Em duas semanas, conseguimos fazer um trabalho que fez diferença para essas pessoas e, ao mesmo tempo, não prejudicou a nossa vida profissional, nossa renda no Brasil", diz o dentista.

Arquivo pessoal

País distante da reconstrução

A reconstrução do país, que foi vítima de um terremoto que destruiu quase que completamente a capital e no ano passado foi alvo de um furacão, que impactou mais a parte sul da ilha, ainda segue a passos lentos, quase estagnada.

Filipe conta que se surpreendeu em como os bairros mais novos já são densamente populosos. "As ruas ainda têm muito lixo jogado, esgoto a céu aberto. Não é à toa que existem surtos de cólera de tempos em tempos", diz Filipe.

O dentista conta ainda que a ONG onde eles trabalharam tinha geradores abastecidos por energia solar, e que o fornecimento de energia elétrica era feito somente durante a noite.

"Não tinha um horário certo para chegar a luz, e ela era sempre desligada no fim da madrugada", relata.

Carlos Garcia Rawlins/Reuters
8.out.2016 - Homens retiram destroços após passagem do furacão Matthew por Jeremie, no Haiti

Filipe notou ainda que, como muitas vítimas do terremoto de 2010 morreram soterradas pelas lajes das casas, muitas foram reconstruídas com telhados mais leves. "Você tenta melhorar de um lado e acaba prejudicando de outro, porque os telhados mais leves são levados na temporada de furacões", diz o brasileiro.

A dupla agora espera ampliar o projeto com maior apoio financeiro para conseguir fazer a visita ao país pelo menos duas vezes por ano e atender mais pessoas no país. Mas, por enquanto, fica mantida uma viagem anual --no começo do ano, já que o risco de furacões é menor.

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