Dezenas de crianças estão entre os mortos nos deslizamentos na Colômbia

Do UOL, em São Paulo

  • Fernando Vergara/AP

    Criança segura boneca salva de escombros de casa em Mocoa, na Colômbia

    Criança segura boneca salva de escombros de casa em Mocoa, na Colômbia

A Colômbia chorava neste domingo (2) os mais de 200 mortos por um deslizamento de terra em Mocoa, enquanto os socorristas lutavam contra o tempo para buscar sobreviventes e o governo enviava ajuda humanitária, após as chuvas torrenciais que também atingiram Peru e Equador.

O último balanço oficial aponta um total de 210 mortos, dos quais ao menos 44 são crianças, e mais de 200 feridos após o transbordamento de três rios à meia-noite de sexta-feira, "um mar de lama" que arrastou tudo por onde passou, segundo testemunhas.

"De 210 pessoas mortas, foi possível identificar 170. Não há desaparecidos oficialmente, nem nenhuma criança desamparada", informou no Twitter o presidente Juan Manuel Santos, que lidera na zona os trabalhos de ajuda e reconstrução.

"Até que tenhamos identificado a última pessoa, não nos deteremos", afirmou Santos.

Jaime Saldarriaga/Reuters
Policial caminha entre vítimas dos deslizamentos de terra em Villagarzon


Em Mocoa, capital de Putumayo, devastada pela tragédia, os socorristas continuavam auxiliando os afetados, e os trabalhos de resgate foram retomados.

"Continua o trabalho de buscas para encontrar sobreviventes, ainda estamos dentro da janela de 72 horas posteriores a um desastre desse tipo", disse à AFP um porta-voz da Cruz Vermelha Colombiana (CRC).

Sob um céu nublado, mas sem chuva, pessoas caminhavam entre barcos, pedras, galhos de árvore e escombros em busca de entes queridos, ou para tentar recuperar seus pertences.

"Fui procurar minha sobrinha, mas não a encontrei. Cavei e cavei, até que encontrei a mão de um bebê, foi horrível. Ela foi levada pela lama, não voltarei a vê-la", contou desolada à AFP Marta Gómez, de 38 anos.

Imagens da TV local mostravam moradores chorando diante de uma lista de crianças desaparecidas, com seus nomes e idades em um cartaz. 

"Perdemos um bebê", disse uma moradora aos repórteres. "Um bebezinho, não conseguimos achar em lugar nenhum."

Outra mulher disse que buscava desesperadamente suas duas filhas e uma neta. "Estejam vivas ou mortas, só quero vê-las", dizia, entre lágrimas. 

Luis Robayo/AFP
Caminhões e caminhonetas foram levados pelo mar de lama, em Mocoa

O Defensor do Povo de Putumayo, Fabián Vargas, afirmou que continuam os trabalhos de identificação de dezenas de cadáveres que permaneciam no domingo no hospital da cidade.

"O processo já está em andamento com o pessoal de medicina legal", apontou.

O governo também procura evitar o surgimento de epidemias nessa cidade amazônica quente e úmida, e para isso se prevê o traslado de especialistas para desenvolver um plano de prevenção de infecções, informaram autoridades de saúde.

A maior parte dos bairros atingidos é pobre e com a população deslocada pelo conflito armado de meio século que atinge a Colômbia, de acordo com testemunhas.

Xinhua/Cortesía Ejército/COLPRENSA
Exército colombiano ajuda vítimas do deslizamento em Mocoa

"Voz de alento"

"Hoje viajo novamente a Mocoa para garantir a máxima atenção, no menor tempo possível, para atender às necessidades dos atingidos", tuitou, mais cedo, o presidente Juan Manuel Santos.

Em sua conta no Twitter, o presidente disse que avançava no restabelecimento das estradas, e falou sobre o apoio humanitário enviado para a remota localidade, onde ao menos duas pontes foram destruídas, segundo o Exército.

Além disso, agradeceu ao papa Francisco por dar sua "voz de alento".

"Lamento profundamente a tragédia que atingiu a Colômbia", disse Francisco durante uma missa em Carpi, no norte da Itália.

"Rezo pelas vítimas, e quero garantir minha proximidade daqueles que choram pelos desaparecidos", acrescentou o pontífice, que tem uma visita à Colômbia prevista para setembro.

Os vizinhos Equador, Venezuela e Peru expressaram sua solidariedade à Colômbia, assim como a ONU e a União Europeia.

Luis Robayo/AFP
Homem fala no celular em meio aos destroços provocados pelo deslizamento de terra em Mocoa

"Não há energia"

Mocoa, de 40.000 habitantes, continua sem energia elétrica e água corrente, serviços que o governo tenta restabelecer o quanto antes e cuja falta é amenizada por toneladas de equipamentos levados à área.

"Não há energia. Não temos água. Nada", assegurou à Blu Radio Rocío Hernández, enquanto carregava seu bebê para subir, no sábado, uma montanha, para se refugiar e passar a noite em um albergue.

Esta jovem mãe solteira teve que sair correndo no meio da noite, debaixo de chuva, e o medo de que um deslizamento de terra se repita ainda a persegue.

"A água tem um problema estrutural, isso vai levar tempo. Então por um lado estamos trazendo mais caminhões-pipa, estamos habilitando as pontes que estavam destruídas e ao mesmo tempo aceleramos as reconstruções da parte estrutural", como a água e a energia, explicou Santos a jornalistas.

AFP
Bombeiro procura por vítimas dentro de uma casa que foi invadida pela lama após deslizamento de terras em Mocoa


A Força Aérea sobrevoou a área e não encontrou nenhum indício de represamento em rios, minimizando a possibilidade de um novo deslizamento.

"Estima-se uma diminuição das precipitações para segunda e terça-feira da próxima semana", indicou o Instituto de Hidrologia, Meteorologia e Estudos Ambientais da Colômbia (Ideam), citado pela Presidência.

Este deslizamento supera o último grande desastre natural na Colômbia, que ocorreu em Salgar, a 100 km de Medellín, e deixou 92 mortos em maio de 2015.

A "natureza e a magnitude do evento, a catástrofe, a tragédia, é tremenda", disse à AFP Martín Santiago, chefe da ONU para a Colômbia.

Ele destacou como o ocorrido em Mocoa mostra que as mudanças climáticas estão gerando episódios mais extremos. "Vemos os resultados tremendos do ponto de vista da intensidade, da frequência e da magnitude destes efeitos naturais", assinalou.

As fortes chuvas na América do Sul não atingiram somente a Colômbia.

O Peru vem sendo afetado desde o início do ano por chuvas e deslizamentos de terra que, até o momento, deixaram 101 mortos e mais de 1 milhão de danificados.

No Equador, foram registradas 21 mortes desde janeiro, com 9.409 famílias atingidas.

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