Muito além da suástica: grupos extremistas usam símbolos alternativos de ódio

Bruno Marise

Colaboração para o UOL

  • AP Photo/Mike Stewart

    Suástica e cruz de ferro já dividem espaço com outros símbolos da ideologia nazista

    Suástica e cruz de ferro já dividem espaço com outros símbolos da ideologia nazista

A simbologia nazista criada durante o Terceiro Reich é uma das indumentárias mais fortes e identificáveis da história. A suástica e a cruz de ferro, só para citar duas das mais famosas, são imagens facilmente reconhecíveis. Mas os simpatizantes desses movimentos extremistas têm buscado alternativas para se expressar.

O sociólogo e pesquisador histórico David Vega explica ao UOL sobre como essa releitura dos símbolos nazistas dá um novo fôlego ao movimento. "Como os símbolos tradicionais foram proibidos em vários países, os grupos acabaram recorrendo a outros para se manifestar", afirma.

Em entrevista à CNN, Mark Pitcavage, um pesquisador sobre grupos de extrema-direita e autor de um banco de dados sobre símbolos de ódio, afirma que os grupos usam esses emblemas menos conhecidos para que sejam reconhecidos somente por quem está familiarizado com a mesma ideologia.

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Variação da cruz celta é um símbolo pagão bastante utilizado por grupos extremistas

Culto ao paganismo

Uma das alternativas dos neonazistas foi recorrer às insígnias pagãs. "Desde a época do Terceiro Reich, os nazistas cultuavam o paganismo. Existia uma organização secreta chamada Sociedade Thule, da qual Hitler fazia parte e que realizava rituais pagãos entre outras posturas que remetiam ao nacionalismo germânico. As runas do alfabeto nórdico eram muito utilizadas como símbolo, e mais tarde, o neonazismo resgatou-as para usar como símbolo, porque são menos identificáveis", conta David.

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Cruz de ferro é uma releitura de um símbolo antigo usada pelo nazismo

Segundo o pesquisador, uma das mais utilizadas é a Runa de Odal. O símbolo significa sangue e solo. "Não importa em qual lugar do mundo a pessoa nasça, se ela tem sangue ariano, pertence ao seu solo de origem. É um ideal de nacionalismo racialista", completa.

Uma variação da cruz celta é outro símbolo pagão bastante utilizado pelos grupos extremistas. "Os Celtas foram uma civilização com diversas tribos que existiram praticamente em toda a Europa, desde os lusitanos e celtiberos na península ibérica, até os caledônios, bretões e gauleses. Esse símbolo que remete às cruzes dos antigos cemitérios celtas praticamente substituiu a suástica hoje. Todos os grupos white power e nacionalistas raciais usam ela", afirma Vega.

O Wolfsangel, ou Runa do Lobo, que remete a uma armadilha de lobos usada pelos vikings, é um símbolo associado ao nazismo desde a época de Hitler. A marca, mais tarde, foi resgatada pelos neonazistas.

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O 88 é uma referência ao H, que em dupla forma HH, abreviação de "Heil Hitler"

Números

Os números 14 e 88 também são comumente encontrados como simbologia em grupos de extrema-direita. Segundo David, o 14 representa um discurso do teórico neonazista norte americano David Lane, conhecido como "As 14 Palavras", que são "Devemos assegurar a existência de nosso povo e um futuro para as crianças brancas".

O 88 é uma referência ao H, oitava letra do alfabeto, que em dupla forma HH, abreviação de "Heil Hitler", famosa saudação nazista.

Variações de símbolos antigos

O Totenkopf (caveira em alemão), é um símbolo militar da Prússia, e foi resgatado durante o terceiro Reich como insígnia da SS, o braço armado do Partido Nazista. Apesar de não ser tão famoso quanto a suástica, é um ícone bastante comum entre os grupos extremistas.

O "sol negro", que é formado por várias suásticas juntas, era o símbolo da Thule, a organização secreta ocultista criada antes do Terceiro Reich e continua sendo usada até hoje como símbolo nazista, afirma David. "Na manifestação da Virgínia, várias bandeiras com o sol negro foram vista", completa Vega.

Manifestações de grupos extremistas têm crescido mundo afora. O pesquisador acredita que se trata de um processo normal, levando em conta o momento que o mundo passa. "O que estamos vivendo é uma espécie de falência da democracia liberal", afirma Veha, que completa.

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O Totenkopf é um símbolo militar da Prússia, e foi resgatado pelo terceiro Reich

"O nazifascismo e o comunismo eram duas ideologias que tinham em comum o ódio pelo liberalismo, pelos ideais da revolução francesa. E quando voltamos ao estado de anomia, ausência de regras, esse ódio volta a se manifestar".

Para o sociólogo, mudanças na sociedade também refletem no crescimento das manifestações de ódio. "A sociedade europeia tem se alterado, inclusive com toda a questão da imigração. Hoje a Europa é multicultural, e sempre vão existir esses grupos que se opõem ao multiculturalismo".

"Estamos num estado de alternância. É um período de transição que ninguém sabe onde vai dar, mas ao mesmo tempo é uma ordem diferente da ordem antiga. Eu espero que a gente consiga encontrar um caminho que passe longe das manifestações de ódio, de racismo, e conservadorismo exagerado e que possamos resgatar os valores da democracia, do estado de direito e da universalização da lei. Vivemos uma crise política e econômica, por isso que esses grupos tendem a se manifestar, mas acredito que não deva passar disso. A história já provou que tanto o nazismo quanto o comunismo são regimes que falharam, e o que eu espero é que tenhamos uma sociedade democrática", completa o pesquisador.

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