Falta de confiança na imprensa é desafio contra "fake news", diz reitor de Columbia

Aiuri Rebello

Do UOL, em São Paulo

  • Piotr A Redlinski/Divulgação Columbia

    Steve Coll, reitor de jornalismo da Universidade Columbia

    Steve Coll, reitor de jornalismo da Universidade Columbia

Boa parte das pessoas atualmente não confia no trabalho da imprensa tradicional, o que favorece o florescimento das "fake news". Para combater este fenômeno, os jornalistas devem se tornar mais abertos à análise de como é feito seu trabalho e a dar satisfações sobre ele para o público. Em suma, fazer um trabalho transparente e deixar tudo às claras. É justamente isso o que as notícias falsas não conseguem fazer: serem transparentes.

Essa é opinião do jornalista Steve Coll, reitor de jornalismo da Universidade Columbia, nos Estados Unidos. Com larga experiência em grandes veículos como o jornal "The Washington Post" e a revista "New Yorker", ele veio ao Brasil para participar do Festival Piauí GloboNews de Jornalismo (que aconteceu no final de semana passado) e do Seminário ESPM - Columbia Journalism School, que ocorreu nesta segunda-feira (9) em São Paulo. 

Em entrevista ao UOL, Coll falou sobre os novos e antigos protagonistas na produção de notícias, o que chamou de "fator Facebook" e novidades nas narrativas e na apuração com a revolução digital.

"Jornalistas têm que mostrar a lição de casa"

"A imprensa tradicional não conta com a confiança de uma parte substancial do público hoje em dia. Isso é verdade no caso dos Estados Unidos, mas acho que é verdade em qualquer lugar. No mundo todo a confiança nas instituições tradicionais está diminuindo. A confiança nas narrativas oficiais está diminuindo, e isso é um desafio enorme para o jornalismo, que é visto como narrativa oficial em muitos casos e, assim, digno de desconfiança. Acho que isso ocorre em parte porque estamos, como sociedades, nos tornando cada vez mais divididos e sectários. Acredito que a ruptura econômica e social causada pela tecnologia e pela internet em especial tem piorado isso. Estamos cada vez mais fechados em tribos, definidos por ideologia de grupo.

Esse problema é estrutural, profundo e não vai embora tão cedo. As 'fake news' sempre estiveram por aí, na forma de boatos ou outros, mas, neste contexto e com a ajuda das redes sociais, floresceu. O que fazer a respeito? Ir ao trabalho: seja independente, plural, relevante e transparente. Eu acho que os jornalistas têm que mostrar mais para o público a lição de casa. Ser transparente sobre as histórias que publicamos, como foram desenvolvidas, quais são as fontes, quem são os repórteres e como pensam... Precisamos nos tornar mais disponíveis para responsabilização e sermos mais transparentes com nosso público. Acho importante convencer as pessoas a verificar por conta própria as fontes e as conclusões das histórias que estamos publicando. Precisamos trazer mais o leitor, abrir mais para ele o processo de produção da notícia sempre que possível.

Quando estamos lidando com conjuntos maciços de dados ou documentos públicos disponíveis na internet, podemos e devemos oferecer a fonte para o leitor checar por ele mesmo. É uma garantia de transparência: se não acredita, vai lá e cheque por você mesmo. Acho esta uma mudança positiva e que ajuda muito o jornalismo profissional a ganhar de volta a confiança das pessoas e combater as 'fake news', que, por definição, nunca terão como oferecer essa transparência para o leitor."

Estamos cada vez mais fechados em tribos, definidos por ideologia de grupo

Steve Coll, reitor de jornalismo nos EUA

"Facebook evita assumir responsabilidade sobre o conteúdo que distribui"

"Esse tipo de plataforma [rede social], em especial o Facebook, não está prevenindo esta espécie de poluição ['fake news', propaganda de ódio e sectária, por exemplo] que as pessoas consomem na internet. O Facebook monopoliza cada vez mais a distribuição de notícias na internet, mas ainda resiste em assumir responsabilidade pelo conteúdo que distribui. É uma responsabilidade enorme: acho que um terço da humanidade está no Facebook, metade do público nos Estados Unidos o tem como principal fonte de notícias.

Eles assumem responsabilidade por alguns problemas nas redes deles, mas não todos. São bastante reativos. Quando o governo diz que há um problema relacionado a grupos terroristas usando a plataforma deles para doutrinação, por exemplo, aí eles vão lá e agem. Nas transmissões ao vivo, por exemplo, apenas após começarmos a ver cenas de suicídio e outras formas de violência horrorosas, eles reagiram e disseram que contrataram milhares de pessoas para ajudar a prevenir que isto aconteça. Também podemos ver o exemplo do caso dos russos, que podem ter comprado anúncios na plataforma para influenciar na eleição norte-americana... Eles não parecem ter os filtros no lugar para identificar parte da poluição que circula pela plataforma deles antes de ela se tornar um problema grave. Histórias manipuladas ou 'fake news' que eles permitem que sejam compartilhados milhares de vezes por exemplo, ainda há muitos problemas. 

Acredito que eles ainda estão um pouco atrás da curva do que é necessário fazer. Eu fico intrigado com este tipo de coisa. Por que eles enfrentam um risco tão grande para a reputação deles quando deixam este tipo de coisa acontecer? Eles já estão enfrentando mais regulação na Europa que nos EUA e isso tudo abala a reputação da empresa. Um bom exemplo é o MySpace. Foi a primeira rede social e entrou em colapso porque se tornou muito poluída. Se o Facebook não cuidar disso, vai enfrentar problemas com os governos e pressão do público, o que pode comprometer a posição de liderança deles.

Não vejo o Facebook entrando na produção própria de conteúdo, mas o que eles terão de fazer é se tornar mais cientes da função moderadora que possuem na plataforma. Eles são parte da paisagem política e econômica de vários países e aprecio o desejo deles de se manterem neutros e abertos a todos os grupos e ideologias.

É claro que não quero ver nenhum tipo de censura por parte deles ou do governo nas redes sociais, mas existe um vácuo na vontade deles de assumir responsabilidade sobre a audiência que geram, e isso precisa ser equalizado. Eles têm os recursos financeiros necessários para resolver isso. Acho que um dos gargalos hoje é a filosofia de negócios deles: eles se veem como uma plataforma neutra. A resposta natural deles para tudo é que há uma solução de software para resolver isso. Eu não acho que um programa específico vai resolver isso."

Procurado pela reportagem, o porta-voz do Facebook afirmou que "estamos comprometidos em combater a disseminação de notícias falsas na internet. Isso inclui eliminar incentivos financeiros, agir contra contas falsas, usar 'machine learning' para diminuir spam e reduzir o alcance de posts que podem levar a sites de baixa qualidade. Também estamos trabalhando para ajudar as pessoas a identificar notícias falsas, e para fornecer mais perspectivas a elas no Feed de Notícias".

"O jornalismo está se tornando mais colaborativo e internacional"

Luis Alvarez/AP
Reportagem investigativa levantou presença de lobistas em campo de golfe de Trump
"A principal mudança no mundo é como a informação está organizada. Hoje existem conjuntos maciços de dados que uma pessoa pode pegar sozinha e baixar da internet. Vimos o exemplo dos Panama Papers, do WikiLeaks... documentos corporativos e vazamentos dos mais variados tipos. Isto está mudando o jeito que a informação chega ao jornalista investigativo e está criando novos dilemas éticos na relação com as informações e as fontes. Em algumas destas histórias de vazamentos os jornalistas não tinham nem ideia de quem eram as fontes. O jornalismo está se tornado mais colaborativo e mais internacional. Nos Estados Unidos podemos ver que veículos acostumados a competir entre si se juntam para apurações conjuntas, nacional e internacionalmente.

A informação hoje é, em muitos casos, internacional. Este tipo de conjunto maciço de dados, que pode revelar corrupção ou prover uma visão de como funciona o poder global, são informações tão complexas e com possibilidades e leituras tão incríveis que apenas a colaboração pode dar conta do recado. Essa é uma mudança importante.

A segunda é metodologia do repórter. Agora ele tem de saber como usar técnicas de redes sociais e análise de dados no seu trabalho. Não tem como ser um bom jornalista sem navegar com fluência em redes sociais e saber manipular dados maciços. Cada vez mais jornalistas investigativos não encontram suas fontes para obter informações confidenciais. Estão cada vez mais descobrindo segredos garimpando com criatividade nas mídias sociais.

Exemplo é uma investigação nos EUA há umas três semanas: os jornalistas tinham uma tese se o campo de golfe do Trump, ao qual ele vai bastante, era um local para ele receber lobistas que pediriam favores ou explicar posições. A administração Trump se recusou a fornecer qualquer informação sobre as idas ao campo de golfe. Então os repórteres pensaram em buscar as pontuações dos jogadores de golfe que iam ao campo do Trump.

No golfe, para o jogador pontuar em um ranking online, eles devem lançar o resultado dos jogos com vários detalhes. Quem gosta de golfe e pratica geralmente coloca os dados online religiosamente. Eles pegaram os resultados postados nos dias que o presidente esteve lá e cruzaram com o nome de lobistas e outros agentes de interesse. Descobriram um grande padrão deste tipo de gente indo lá justo quando o presidente estava lá. Foi um grande furo, revelando informação sigilosa que estava disponível na internet se soubesse procurar. Não se encontraram com uma fonte em uma garagem escura (referência ao escândalo de corrupção Watergate, que culminou na renúncia do presidente norte-americano Richard Nixon; os jornalistas se encontravam com o homem que lhes passava informações em uma garagem).

Como diria Martin Baron [hoje diretor de Redação do 'Washington Post', o mesmo retratado no filme 'Spotlight'], sobre estes ataques todos à imprensa, as 'fake news' e a falta de confiança na imprensa: 'Não estamos em guerra, estamos trabalhando'. Então, vamos trabalhar, vamos fazer jornalismo."

"Gigantes da tecnologia entrarão no negócio do jornalismo"

"A revolução digital está naquele ponto em que se consolidou e foi dominada por algumas organizações gigantescas e de certa forma oligopolistas. Acredito que o Facebook não se veja como um grupo de mídia, e sim uma plataforma neutra. Mas não podemos falar o mesmo de outros gigantes. 

Eu vejo em um futuro muito próximo, digamos em cinco anos, outros gigantes de tecnologia entrarem para valer no negócio do jornalismo. Eu acredito que em breve veremos Netflix, Amazon e Google, por exemplo, com suas próprias redações. É um desenvolvimento natural para estas empresas que em grande medida já produzem conteúdo. Com a força financeira que eles têm, seria muito interessante ver que tipo de jornalismo eles seriam capazes de oferecer. 

Em certa medida, isso já está acontecendo: o Netflix cada vez mais produz ou banca a produção de documentários. Por que não entrar de vez na produção de notícias? O dono da Amazon, Jeff Bezos, também já começou este movimento. Comprou o 'Washington Post' e, contrariando expectativas pessimistas, tem sido um excelente chefe: contratou o Martin Baron para cuidar da parte editorial, investiu, contratou, buscou fazer a empresa crescer e manteve a completa independência editorial da Redação. É um novo mundo, vamos ver no que dá." 

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