Visibilidade no BBB ajuda a enfrentar o drama dos refugiados?

Carolina Ingizza

Do UOL, em São Paulo

  • Globo/Divulgação

    Kaysar nasceu na Síria, mas veio para o Brasil após fugir da guerra do país em 2011

    Kaysar nasceu na Síria, mas veio para o Brasil após fugir da guerra do país em 2011

Na última segunda-feira (22), começou a décima oitava edição de um dos programas mais populares da televisão aberta brasileira, o Big Brother Brasil. Dentre os participantes, o refugiado sírio Kaysar, que deseja o prêmio para rever a família, tem chamado atenção. Apesar de ele não ser o primeiro participante refugiado de um reality show brasileiro, sua participação pode dar visibilidade para essa questão.

Em 2017, Youssef Esberaladra, também sírio, participou de não um, mas dois programas da Band. Primeiro, em fevereiro, participou do reality culinário "Pesadelo na Cozinha", apresentado por Erick Jacquin. Depois, em julho, voltou para o "À Primeira Vista" em busca de uma namorada.

Para ele, é importante ter um refugiado famoso no Brasil. A participação de Kaysar no Big Brother Brasil, na sua opinião, é positiva e vai ajudar a mudar a forma com que as pessoas encaram os refugiados no país. "A maioria nos vê como fugitivos, mas não é bem assim, entende?"

No Brasil há dois anos e meio, o sírio conta que gosta daqui e não pensa em voltar para seu país de origem. Na verdade, pretende se casar com uma brasileira e constituir família. Quando questionado sobre a participação dupla em reality shows, Youssef ri e confessa que gosta de aparecer na TV. "Achei muito bom participar do programa, perdi a minha vida inteira no outro país, então ficar famoso aqui no Brasil é algo muito grande para mim", diz.

Marcelo Haydu, 39, diretor executivo do Adus (Instituto de Reintegração do Refugiado), concorda com Youssef. Na sua opinião, a participação de um refugiado em um programa de larga audiência pode trazer visibilidade para a questão. "As pessoas costumam enxergar os refugiados como pobres coitados, flagelados, sem estudos, mas essa não é essa a realidade. A gente recebe muita gente boa, qualificada, que precisa de oportunidade", diz o professor.

Ele, no entanto, pondera que o impacto da participação de Kaysar pode não ser totalmente positivo porque o Big Brother não é um espaço voltado exclusivamente para pensar questões sociais. "Tudo depende de como ele vai ser tratado dentro do programa. De modo geral, sempre que tem exposição do tema dos refugiados na mídia a gente sente um aumento no número de pessoas físicas que querem se engajar com a causa".

Já Marina Reinoldes, 23, coordenadora do MemoRef -- projeto de alunos da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) que ensina português para refugiados --  não acredita que a participação no sírio no BBB irá desencadear uma discussão crítica e humanitária sobre refúgio. "Tenho visto que o Kaysar tem cativado um público muito grande, mas é um programa de entretenimento e outros acontecimentos dentro da casa têm gerado discussões muito maiores", afirma.

Wagner Menezes, professor de direito internacional na Universidade de São Paulo, diz que a chegada ao Brasil para um refugiado apresenta alguns obstáculos, como a dificuldade para se regularizar no país, os problemas para se adaptar à cultura, ao idioma e para conseguir um trabalho. "É preciso compreender, contudo, que o problema enfrentado por um refugiado não estará presente em um programa de televisão, ele é muito mais profundo e envolve compreensão de maior complexidade social", afirma o professor.

Dificuldades do refúgio

Kaysar nasceu nasceu em Aleppo, na Síria. Em 2011, viu o começo da guerra em seu país e foi forçado a fugir para a Ucrânia e de lá, para Curitiba, no Brasil, onde o tio-avô Nacib tem uma loja de antiguidades. Aqui, trabalha como garçom e animador de festas infantis, mas diz estar feliz aqui.

Sua única tristeza é a saudade que sente dos pais e da irmã que deixou na Síria. Por isso, para ele, o prêmio de R$ 1,5 milhão representa uma oportunidade de rever os parentes. "Eles estão lá, debaixo das bombas, debaixo da guerra. Eu evito falar sobre esse assunto. Perdi muitos amigos, perdi uma namorada, meu tio, minha avó... Perdi muita coisa", disse em entrevista à produção do programa.

Deixar a família para trás, contudo, não é uma dificuldade particular do rapaz. É muito comum que refugiados venham para o Brasil sozinhos na esperança de juntar dinheiro para trazer o restante da família. Reinoldes comenta que apesar dos esforços, muitas vezes as pessoas não conseguem se estabelecer ou perdem contato com os familiares. "Em outro cenário não pouco comum, essas famílias acabam sendo mortas. É uma realidade muito mais complicada do que possamos imaginar, já tivemos casos de alunos que perderam toda a família na guerra", conta a coordenadora.

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