Apesar das sanções, por que os EUA ainda compram petróleo da Venezuela?

Fabiana Maranhão

Colaboração para o UOL, em Montevidéu

  • ISAAC URRUTIA / Reuters

Enquanto cresce a expectativa pela retirada das sanções norte-americanas impostas à Coreia do Norte, do outro lado do planeta, na Venezuela, a ansiedade é por novos bloqueios norte-americanos. Desde que Nicolás Maduro foi reeleito, em um processo criticado pela comunidade internacional, as potências ocidentais anunciaram que aumentarão as restrições ao país caribenho. 

Mas uma das principais fontes de renda de Caracas, o petróleo, continua abastecida -- a Venezuela é o quinto maior exportador de petróleo bruto para os EUA. E os motivos pelos quais Washington não para de comprar óleo venezuelano, segundo analistas ouvidos pelo UOL, são simples: se o fizesse, a Venezuela mergulharia em uma crise ainda mais profunda, o que traria prejuízos à população, aos vizinhos e também aos Estados Unidos. 

Os EUA não querem chegar a esse ponto, porque a população local é que termina pagando, sem necessariamente que Maduro caia. O governo precisa ser cauteloso para não castigar ainda mais os venezuelanos,

Lisa Viscidi, da Inter-American Dialogue, think tank sediada em Washington D.C. (EUA).

"Isso iria criar uma situação econômica insustentável no país, tão fragilizado, e geraria uma crise que não é vantajosa para os EUA", ecoa Luís Fernando Ayerbe, professor de relações internacionais da Unesp (Universidade Estadual de São Paulo).

Ele acrescenta que uma medida desse tipo teria repercussões para além da fronteira venezuelana. "Geraria uma crise tão drástica que causaria impactos na vizinhança. Há uma grande preocupação que a situação gere uma onda de migrações".

Oliver Stuenkel, professor de relações internacionais da FGV (Fundação Getúlio Vargas), vai na mesma linha. Ele afirma que a Venezuela sobreviveria a um embargo dessa magnitude, mas isso certamente produziria "um colapso completo por pelo menos algumas semanas no sistema venezuelano e geraria uma crise ainda maior de refugiados".

As eleições da
Venezuela
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EUA miram nas políticas interna e externa

Mas a preocupação dos EUA com a Venezuela passa também por consequências dentro do território norte-americano. "Se os EUA deixassem de comprar petróleo da Venezuela, haveria um aumento do custo do petróleo norte-americano e, como em todos os países, teria um impacto negativo na aprovação do governo atual. Trump não faria isso antes das eleições", opina Oliver Stuenkel.

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Eleições legislativas estão marcadas para novembro, quando serão renovadas todas as cadeiras da Câmara e um terço dos assentos do Senado. 

Para Luis Fernando Ayerbe, outro fator que impede os EUA de parar de importar o petróleo venezuelano é geopolítico. "A Venezuela se aproximaria ainda mais da China e da Rússia".

Manuel Balce Ceneta/AP
Trump proibiu empréstimos ao governo venezuelano
Membro da Opep (Organização dos Países Exportadores de Petróleo) desde sua fundação, a Venezuela tem a maior reserva comprovada do mundo de petróleo bruto (300 bilhões de barris). E, no último mês, vendeu 454 mil barris por dia aos Estados Unidos, segundo a Administração de Informação Energética dos Estados Unidos.

De acordo com Lisa Viscidi, apesar de alto, o volume é a metade do exportado pela Venezuela aos EUA há dois anos. Washington tenta diminuir a dependência venezuelana, embora isso seja caro. "No Golfo do México, há muitas refinarias construídas para processar o petróleo cru pesado venezuelano. É mais perto e a logística é menor".

Sanções contra a Venezuela

No mês passado, Trump assinou novas sanções à Venezuela, incluindo proibição de empréstimos ao governo venezuelano. O endurecimento vem desde 2017, depois que Maduro convocou nova Assembleia Constituinte.

"A partir desse momento, foram impostas sanções que doem mais, que evitam transações financeiras com representantes do governo venezuelano", diz Oliver Stuenkel.

A relação entre EUA e Venezuela começou a degringolar durante o governo de Hugo Chávez (1999-2013), mas foi só recentemente que o governo norte-americano passou a impor sanções.

Até o começo de junho, ao menos 32 entidades e 69 pessoas venezuelanas estavam sob sanção dos EUA.

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